à carta! surrealismo aos 100


Collage de Pierre-André Sauvageot


Em alguns meses, o Surrealismo se torna centenário. Como André Breton apontou em suas Interviews, o movimento pela emancipação do espírito, o mais profundamente enraizado na vida sensível, efetivamente toma forma no final dos anos 1922, dois anos antes da publicação do primeiro Manifesto, o marco de seu nascimento ao público. Permita-nos esclarecer: não estamos aqui celebrando um centenário, mas uma presença e chamado ao seu ethos.


Agora que o termo “Surrealismo”, usado em demasia e repetidamente colocado como sinônimo de absurdo, se refere, na cultura dominante, a uma imaginação inofensivamente fantástica, é urgente relembrar quais são e se mantém os objetivos e riscos do Surrealismo: superar as animosidades artificiais e mortais entre o real e a imaginação, o sonho e a vigília, consciente e subconsciente, mas também para restaurar suas prerrogativas às paixões felizes, para estender e aprofundar as potências do espírito, para libertar a razão de suas prisões positivistas e de sua instrumentalização comercial, acabar de uma vez por todas com a alienação ideológica e religiosa; e - condição suprema - para colocar a Poesia acima de tudo. Tudo isso, naturalmente, implica na recusa de lidar com o mundo como ele é (e não deveria ser), com sua linguagem, seus servos e suas técnicas.


O mundo de um século atrás, cuja queda teve o caráter de urgência - não menos urgente hoje - persistiu e seus problemas cresceram a ponto de obscurecer nosso horizonte histórico com a massa fuliginosa de seus restos. Ele se transformou de forma diametralmente oposta a todas as esperanças nutridas pela tradição revolucionária: a ascensão da liberdade, da igualdade e da justiça; a abolição da exploração e do domínio; o fim da maldição do trabalho; o acesso de todos à abundância emancipada do domínio mercantil. Quanto à vida, devemos admitir que ela foi mudada, mas no sentido mais calamitoso: perdeu toda consistência, toda coerência, todo valor; colonizada até seus menores interstícios pela ditadura das telas, ela se resolve em imagens cada vez mais pobres, cuja presença torpe esteriliza lentamente nossa imaginação.


Por isso a chamada à deserção - prática e intelectual, psíquica e social, individual e coletiva - lançada pelo surrealismo desde o início nunca foi tão oportuna. Portanto, não se pode fazer nenhuma concessão aos gostos adulterados do momento presente, a suas inclinações suspeitas, a seus reflexos medulares. Que se entenda de uma vez por todas que as diversas produções dos surrealistas, sejam elas na forma de poemas, relatos de sonhos, desenhos, pinturas, collages, assemblages, esculturas ou filmes, têm apenas a aparência de obras de artes. Eles são, sobretudo, o resultado cristalizado de uma permanente subversão da sensibilidade, as testemunhas sensíveis de um novo uso do mundo.


O principal perigo para um movimento que mantém vivo seu ethos durante um período de tempo tão longo é menos o esquecimento, ao qual os vários modos literários ou artísticos desta era de decomposição desejariam relegá-lo, do que o reconhecimento tardio de sua consistência e até mesmo de sua perseverança. Ainda mais debilitante do que a apropriação de suas técnicas pelos exploradores da arte contemporânea é a tendência, já começando a se apresentar, que leva à fabricação de um surrealismo sem base, onde tantos artistas, que produzem imagens vagamente oníricas, se proclamam, sem qualquer tipo de explicação, "surrealistas", sem entender o que esta denominação implica, como se reivindicassem pertencer a uma escola estética vulgar.

Criados em vez de nascidos, muitos destes surrealistas não hesitam em render-se à tecnologia digital. Se é verdade que, a priori, qualquer meio técnico pode ser desviado e colocado a serviço da imaginação, deve-se observar que, na esmagadora maioria destes casos, o software se sobrepõe ao criador. O resultado é que as obras computadorizadas se tornam insípidas, enfadonhas, todas parecidas, e sua consangüinidade suspeita é imbuída pela entropia sem esperança que emana dos algoritmos.


O autêntico trabalho surrealista, ao contrário, sempre apela para a surpresa e o encantamento. Ele é o portador da utopia, cheio de uma promessa emancipatória que de uma vez a legitima e a excede. Esta promessa, nenhuma máquina, nenhum software pode cumprir, porque eles não têm carne nem sentidos, nem corpo nem nervos para sentir, perceber, ser movido ou experimentar o desejo, e não é com Inteligência Artificial que construiremos uma utopia humana. Com a bênção das redes sociais, mais um passo e caímos na armadilha do entretenimento. A este respeito, para esclarecer qualquer mal-entendido, lembremos que o surrealismo não deve se deixar perder no campo minado das atividades pedagógicas ou ficar atolado no pântano das oficinas de escrita e colagem, muito menos dos concursos de poesia. Estas sessões de suposta criação livre são desde o início viciadas pela instituição que as enquadra e são meros substitutos miseráveis para a exploração do deserto que é o campo do maravilhoso.


Assim como o surrealismo nunca foi uma escola para alunos, nem uma academia para os selecionados, nem um espetáculo para as massas, não é um clube internacional de brincadeiras e debates culturais cujos membros são recrutados no Facebook ou promovem suas produções no Instagram. Conscientes de que não há meios neutros, os surrealistas desprezam notavelmente as chamadas redes "sociais", ou as utilizam apenas com extrema cautela, preferindo em vez disso a poesia imediata das redes "anti-sociais", aquelas criadas espontaneamente na rua, no meio de um bosque, numa greve de gatos selvagens, no balcão de um café, ou numa tempestade de neve. Encontros decisivos, como todos sabemos, acontecem no subterrâneo da vida real, abertos ao encantamento do acaso objetivo e não podem ser premeditados por software, para o qual a própria noção de "amigo" é totalmente esvaziada de sentido.

Se hoje, como em sua origem, o surrealismo é um egregore subversivo abertamente hostil ao Estado, ao Capital e à todas as religiões, ele acrescenta a sua lista de inimigos o mundo digitalizado das telas, que exerce uma distância física cada vez maior entre os seres humanos e desfaz a vida dos sentidos. Uma forma de sentir, ver e sonhar que se torna uma forma de ser, o surrealismo é uma busca incansável e corporal pelo conhecimento, liberdade e amor. Uma vez que passamos por ele, ou uma vez que o surrealismo passou por nós, não podemos mais conceber ou perceber o mundo a não ser de acordo com as linhas de vôo que ele oferece a nossas andanças e os hieróglifos maravilhosos que ele irrompe às coisas enquanto nos oferece chaves para sua interpretação. É esta experiência diária, e não algum reconhecimento midiático falacioso, que é a marca do surrealismo e que ainda mede, um século após seu nascimento, a validade de suas ações.

The Surrealist Group of Paris, 16 de Janeiro, 2022:


Élise Aru, Michèle Bachelet, Anny Bonnin-Zimbacca, Massimo Borghese, Claude-Lucien Cauët, Sylwia Chrostowska, Hervé Delabarre, Alfredo Fernandes, Joël Gayraud, Régis Gayraud, Guy Girard, Michael Löwy, Pierre-André Sauvageot, Bertrand Schmitt, Sylvain Tanquerel, Virginia Tentindo.

Traduzido para o português por Fabiana Gibim.



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