à janela


"Corrida de automóveis" ("Course d'autos"), fotografia de Man Ray, realizada em1926 e publicada com o texto de Paul Éluard. Acervo do Centre Pompidou.
 


A Fresta é uma coluna — uma colinade periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.


 

De 1922 a 1938, Paul Éluard (1895 - 1952) foi um dos protagonistas do movimento surrealista, desligando-se posteriormente do grupo de Paris devido a discordâncias políticas.


Até hoje, Paul Éluard é considerado por muitos uma das vozes poéticas francesas de maior vulto. No texto que apresentamos pela primeira vez em português n’A Fresta desta semana, publicado na revista La révolution surréaliste nº7, em 15 de junho de 1926, vemos um Éluard abrindo as asas amorosas da linguagem e elaborando a angústia, em parte causada pela experiência da guerra, vivida por Éluard sur place enquanto enfermeiro. Contudo, a angústia que ele busca transformar é também sincrônica, ecoando aquela que muitos de nós sentimos hoje e aqui, quando da violência ou renúncia ao desejo.


E é importante observar que neste texto Éluard não restringe seu caminho à lama do buraco. Seu sopro conduz-lhe à crista, indicando uma pista:


“Todos os meus desejos nasceram dos meus sonhos”.


É assim que, a meu ver, podemos até mesmo superar a valiosa “a contribuição milionária de todos os erros” de Oswald de Andrade e não mais errar: no sonho, todo desvio é via régia; quando a tensão do arco de Eros[1] espalhar espirais do desejo au grand jour e aos quatro ventos, bastará lançar a flecha para que ela se faça ao alvo.


*


Eu nem sempre tive essa garantia que é o pessimismo capaz de dar segurança aos melhores dentre nós. Houve um tempo no qual meus amigos davam risada de mim. Eu não era senhor de minhas palavras. Uma certa indiferença. Eu nem sempre sabia o que queria dizer, mas o que acontecia mais frequentemente era que não tinha nada a dizer. A necessidade de falar e o desejo de não ser ouvido. Minha vida estava por um fio.

Houve um tempo no qual parecia que eu não entendia nada. Minhas correntes flutuavam na água.


Todos os meus desejos nasceram dos meus sonhos. E provei meu amor com palavras. Mas então, a que criatura fantástica confiei-me, em que mundo doloroso e deslumbrante fui encerrado por minha imaginação? Tenho certeza de que fui amado no mais misterioso dos domínios. A linguagem do meu amor não pertence à linguagem humana, meu corpo humano não toca a carne do meu amor. Minha imaginação amorosa sempre foi suficientemente constante e altiva para que ninguém seja capaz de convencer-me de que estou errado.

 

[1] Vide o texto Da ruptura inaugural de 1947 a E.R.O.S. de 1959: O arco de eros, publicado por Sergio Lima no almanaque A Phala 3 (Lulu Press, 2015).



57 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

à mesa