a culpa do branco - parte I

Atualizado: 26 de jan.


CHARLES MOORE (1931-2010) Alabama, 1963
 

“A culpa do branco” foi publicado por James Baldwin pela primeira vem em 1965, na edição de agosto da revista Ebony, uma revista mensal fundada em 1945 dedicada ao público afro-estadunidense. Dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta e ativista, Baldwin foi uma figura importante do pensamento preto estadunidense nas décadas de 1950 e, particularmente, 1960, continuador e transformador das questões introduzidas pelo Harlem Renaissance, voltando suas preocupações de forma mais crítica ao significado do ser preto na sociedade estadunidense. Baldwin foi um prolífico escritor que atingiu de forma direta as consequências da história nacional na composições de sujeitos distintos, um branco e outro não-branco (não só o preto, mas também o autóctone e o latino), que, por um lado, não lutam (majoritariamente), para se livrar de seu privilégio histórico e, por outro, fazem de sua vida uma resistência para ressignificar seu lugar histórico. Seus textos foram centrais para as discussões relativas ao civil rights movement e a liberação gay. Foi aluno de Countee Cullen, eminente poeta do Harlem Renaissance, influenciado pelo pintor Beauford Delaney e amigo pessoal de Nina Simone e Langston Hughes, tendo tido contato com Jean-Paul Sartre, Jean Genet (com quem fez campanha em favor do Partido dos Panteras Negras), Margaret Mead, Allen Ginsberg, Josephine Baker, Chinua Achebe e Maya Angelou, além de Malcolm X e Toni Morrison.

 

Frequentemente me perguntei – e não é uma pergunta agradável – sobre o que os brancos estadunidenses conversam entre si.

Me perguntei isto porque, ao fim e ao cabo, eles não parecem ter muito a dizer para mim, e concluí há muito que eles acham a cor de minha pele inibitória. Tal cor parece operar como um espelho assaz desagradável, de modo que grande parte da energia de alguém e dispendida para assegurar estadunidenses brancos que eles não veem o mesmo que nós.

Isto é totalmente fútil, é claro, uma vez que eles, de fato, veem o que veem. E o que veem é uma história absurdamente opressiva e sanguinolenta, conhecida ao redor do mundo. O que veem é uma condição desastrosa, contínua e presente que os ameaça, e pela qual têm uma responsabilidade inescapável. Entretanto, já que em geral eles não possuem a energia para alterar essa condição, preferem não serem lembrados dela. Significaria isto que, em suas conversas eles simplesmente lançam sons reconfortantes? Tal coisa não parece possível; e ao mesmo tempo, parece bastante provável. De qualquer modo, o que quer que eles tragam uns aos outros, certamente não se trata de uma libertação da culpa, pois esta permanece, profundamente enraizada, seguramente alocada, como as mais velhas das árvores.

Lidar com tais pessoas é algo que pode ser indizivelmente exaustivo, pois tais pessoas se defendem perpetuamente – com uma ingenuidade absurdamente estonteante e uma agilidade incansável – contra acusações que ainda não foram realmente feitas, desagradável quão seja aquele espelho de que falamos. Tais acusações não são necessárias. O registro está ali para que todos leiam e ressoa ao redor do mundo. Poderia bem estar escrito no céu. Desejar-se-ia que estadunidenses, estadunidenses brancos, o lessem para seu próprio bem e parecem de se defender dele. Somente assim poderiam mudar suas vidas.

O fato de que ainda não tenham feito isso – encarar a própria história e mudar suas vidas – ameaça este país de forma odiosa. Na verdade, ameaça o mundo inteiro.

Pessoa branca, me escute! A história, como aparentemente ninguém se dá conta, não é somente algo a ser lido. Tampouco se refere somente, ou mesmo principalmente, ao passado. Ao contrário, a grande força da história vem do fato de que a carregamos em nós, inconscientemente controlados por ela em muitos sentidos, e do fato de que ela é literalmente presente em tudo que fazemos. Não poderia ser de outro modo, uma vez que é a história que devemos nossos quadros de referência, nossas identidades e nossas aspirações. E é com grande dor e terror que começamos a nos dar conta disso. Com grande dor e terror, começa-se a aferir a história que nos alocou a nossas posições, formando nosso ponto de vista. Em grande dor e terror porque, a partir daí, entra-se em confronto com tal criação histórica: o Si-mesmo, na tentativa de se recriar de acordo com um princípio mais humano e libertador. Começa-se a empreitada por um nível de maturidade e liberdade pessoais que escapa do poder tirânico da história, ao mesmo tempo que a altera.

Obviamente, entretanto, falo como uma criação histórica que teve que contestar amargamente sua própria história, lutar com ela, até finalmente aceitá-la, para ultrapassá-la. Meu ponto de vista é certamente formado por minha história e é provável que somente uma criatura desprezada pela história ache-a um tópico questionável. Por outro lado, pessoas que se imaginam lisonjeadas pela história (o que de fato ocorre, já que elas a escreveram), são empaladas pela história como uma borboleta é empalada por um alfinete, tornando-se incapazes de se olhar ou mudar; a si mesmas e ao mundo.

Me parece ser esta a posição em que a maioria dos estadunidenses brancos se encontram: empalados. Estão vaga ou vividamente cientes de que as história da qual se serviram é majoritariamente mentirosa, mas não sabem como se livrarem delas, e sofrem enormemente da incoerência pessoal resultante. Em nenhum outro fenômeno tal incoerência é ouvida mais claramente do que nos diálogos vacilantes e amedrontados com os quais os estadunidenses brancos por vezes entretêm a consciência negra, a pessoa preta dos EUA. A natureza do vacilo pode ser reduzida a um apelo: “Não me culpe, eu não estava lá. Não tive ação nisto. Minha história não tem nada a ver com a Europa ou o tráfico transatlântico. De qualquer modo, foram os seus líderes que te venderam para mim. Eu não estava presente na passagem, não sou responsável pelos moinhos de Manchester ou os algodoais do Mississippi. Além do mais, considere também quanto os próprios ingleses sofreram naqueles moinhos e cidades terríveis. Eu também desprezo os governadores dos estados do sul e os xerifes dos condados sulinos e também quero que seus filhos tenham educação decente e ascendam tão alto quanto permitam suas capacidades. Não tenho nada contra você, nada! O que você tem contra mim? O que você quer”. Ao mesmo tempo, no mesmo dia, eu outra reunião e no mais íntimo de seu coração, o branco estadunidense permanece, sempre, orgulhoso daquela história pela qual não quer pagar e da qual, materialmente, tanto lucrou.

No mesmo dia, em outra reunião e no mais íntimo de seu coração, o preto estadunidense encontra a si mesmo diante de seu terrível rol de perdas: os junkies pretos mortos; o pai preto derrotado; a mãe preta indizivelmente angustiada; a indizivelmente garota preta arruinada. E começa-se, assim, a suspeitar de algo horrível: que as pessoas merecem sua história, e que quando operam sob esta crença, elas morrem. Mas sabemos que as pessoas dificilmente podem evitar acreditar que desservem tal história: o curto tempo de uma pessoa nesta terra é muito misterioso, demasiado obscuro e muito duro. Eu conheci muito homens e mulheres pretos, muitos meninos e meninas pretas que realmente acreditavam que era melhor ser branco a ser preto, cujas vidas foram arruinadas ou interrompidas por conta dessa crença. Eu mesmo carreguei as sementes desta destruição por muito tempo.

Ora, se eu, como homem preto, acredito profundamente que mereço minha própria história, que mereço ser tratado como sou, portanto, também preciso acreditar, fatalmente, que o branco também merece sua história e que merece o poder e a glória que seu testemunho, e a evidência de meus próprios sentidos, me asseguram que eles possuem. E se pessoas pretas caem nessa armadilha, a armadilha de acreditarem que merecem seu próprio fado, pessoas brancas caem numa armadilha ainda mais surpreendente e intricada de acreditar que merecem seu destino e sua segurança comparativa, e que basta que os negros façam como os branco e poderão chegar aonde os brancos chegaram. Entretanto, isto simplesmente não pode ser dito, não só por questões de polidez ou caridade, mas também porque pessoas brancas carregam consigo um medo cuidadosamente abafado de que pessoas pretas anseiem em fazer com os outros o que foi feito com elas. Além do mais, a história branca levou as pessoas brancas a um lugar amedrontado e desconcertante no qual começaram a perder o contato com a realidade – isto é, a perder contato consigo mesmas – e no qual elas certamente não são felizes de verdade, pois sabem que não estão de fato seguras. Tais pessoas não sabem como isso se deu, mas não ousam examinar o processo. Por um lado, mal conseguem ousar abrir um diálogo que, se honesto, deve se tornar uma confissão pessoal – um grito de socorro e de cura que é, na verdade, creio eu, a base de todo diálogo – e, por outro, a pessoa preta raramente ousa abrir um diálogo que deve, se honesto, se tornar uma confissão pessoal que fatalmente contêm uma acusação. Ao fim, se ambos forem incapazes de fazer tal coisa, cada um perecerá nas armadilhas dentro das quais lutamos há tanto tempo. [Continua]


Tradução por Gustavo Racy

 

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