a cultura, a crítica

Atualizado: 27 de jan.


Foto por Gustavo Racy
 

Neste ensaio, apresentamos uma reflexão sobre o significado e função da crítica da cultura para os tempos atuais. Enquanto ensaio, o texto se preocupa pouco em delinear o significado próprio de certos conceitos, não importa quão centrais o sejam. Trata-se, antes, de apresentar as linhas gerais de uma forma de pensamento que possa abordar a cultura sem abandoná-la (por dentro dela mesma, portanto), buscando a imagem, não das proposições e positivações daquilo que a cultura deve ser ou promover, mas antes, daquilo a que ela não deve ser, entranhando-se a crítica nos meandros que fazem, da cultura, um produto e uma arma a serviço do exercício do poder e da autoridade. Trata-se, portanto, de ocupar a cultura pela crítica, e quebrar o eixo de transmissão que consolida a reprodução social.

O potencial negativo da crítica é aquilo que, há muito tempo, falta à uma reflexividade socialista em nosso meio tropical. Não se trata, por crítica, de revelar os fatos, numa conexão causal, tendo em vista a gênese dos processos que, de certo modo, por uma confluência de fatores, levaram ao desenvolvimento da realidade tal qual ela é. Não se trata, portanto, de um diagnóstico, mas de uma vagarosa e detalhada filologia. Em outras palavras, ir à raiz. Claro está que esse trabalho, demorado, não é capaz de se dar concomitantemente às mudanças materiais e efetivações da realidade social. Implica-se, portanto, que a crítica não se pode dar de modo tão rápido de modo a lidar, em todo momento, com cada um dos acontecimentos singulares que envolvem a vida social. Essa é, sem dúvida, a dificuldade de se pautar uma determinada categoria de crítica que é, numa determinada perspectiva, propriamente materialista. Muito mais porque essa crítica se pauta pela negatividade mais do que pelo caráter positivo daquilo que temos como fatos ou, de maneira geral, história. A crítica deve, antes de tudo, comentar. Infinitamente. Importa, na crítica, manter em aberto aquilo que, numa outra esteira, se dá como diagnóstico.

Compreender como as coisas chegaram a ser o que são é o que caracteriza o trabalho crítico que deve, antes de tudo, não perder de vista as relações que se estabelecem entre as forças políticas. Trata-se, portanto, de abordar a realidade política da sociedade contemporânea de modo a destacar os longos processos que se dão, por vezes, sem conexão causal aparente. Mais importante é se aproximar ao modo em que tais relações, como processos sociais, são transmitidas e, portanto, como se incorporam à estrutura cultural do momento. Falta à crítica atual, portanto, tornar-se crítica da cultura. Pois é no desvelar do processo de transmissão que a consolidação da marca de uma classe dominante se apresenta. Em outras palavras, é na transmissão dos efeitos próprios à luta social (a luta classes, as relações de raça e gênero, e a língua), por meio da qual se consolida a reprodução social capitalista, que se estrutura aquela ideologia própria à história dos vencedores.

Não queremos com isto dizer que é completamente ausente o pensamento crítico no Brasil de 2020. Pelo contrário. O que é ausente é que se reconheça, na crítica efetivamente existente, o potencial demolidor das soluções fáceis que se põem à esquerda como se isso bastasse à libertação do indivíduo e dos povos. Não se trata, também, com isso, de negar certas obviedades ou se ausentar das relações sociais que demandam que se tome partido dentro do jogo democrático ou mesmo, que se faça parte da “dinâmica do capitalismo” (Braudel) – criticamos e queremos derrubar o capitalismo exatamente porque somos forçados a sobreviver nele – mas que tenhamos em vista, hoje e sempre, aquela “grande recusa” da qual Marcuse tratou. Em outras palavras, trata-se de reconhecer as benesses advindas de avanços tecnológicos e políticos da própria democracia, indo além, entretanto, dessa obviedade. Uma crítica que comece a considerar que “não se trata disso”, portanto. Negativa é a função própria à crítica que parece escapar àqueles que se propõem a resistência. Ora, não pode haver resistência que se adeque ao universo institucional da política social-democrata que hoje se entrega àquilo que Badiou chamou “fascismo democrático”, por mais que seja necessário, defender conquistas inegáveis que possam ter sido trazidas pela própria democracia. Não é possível, nem desejável, a crítica positiva. Somente a negatividade pode produzir, no pensamento que procura a superação das contradições do momento atual, o potencial explosivo que esgota as alternativas pacíficas de conciliação.

É importante à crítica, posto de forma mais simples, indicar o que não deve ser, destituir e destruir a positividade que gera, na dinâmica de reprodução do status quo, a fetichização do processo civilizatório, que impõe a ideia de que vivemos no melhor dos mundos possíveis. É preciso lutar contra as forças da opinião mediada pelas enxurradas de fake News e pós-verdades das quais uma população funcionalmente alfabetizada e pretensamente elevada à burguesia por uma política inócua de distribuição de crédito é afã pela negação dos argumentos que envolvem a pura crença no potencial de cada indivíduo isolado em si mesmo. Dar cabo à falsa ideia de que as “opiniões pessoais” devam ter o peso do argumento formativo. Quando se fala, se fala a partir de si. Toda fala é pessoal e não há fala como que destituída daquele que a profere. A crítica não deve garantir sorrisos e furores espetaculares que decapitam gringos invasores na tela de cinema, mas reatar seus laços com a prática. E deixar de ser arte. Tornar-se crítica da cultura é compreender que a cultura é também aquilo que mata, que corrói, que instila nos indivíduos o furor do pentecostalismo homofóbico, transfóbico, misógino, que inculca nas mentes brancas a idoneidade do indígena, a rebeldia do negro. Parece sempre uma situação sem esperança que se pense revolucionariamente num contexto pouco revolucionário. Mas não deve ser função da crítica dar esperança, senão proporcionar as possibilidades reais para que se tragam à tona os limites sobre vida imposta pela cultura contemporânea. A crítica deve servir de baluarte ao anti-intelectualismo que invade mesmo as fileiras mais revolucionárias de pensadores que, teorizando a necessidade de uma vanguarda, não hesitaria em fazer sumir o rol de pensadores que ajudam a delimitar as contingências e condições próprias para a busca da emancipação humana.

A crítica é anárquica, antes de tudo, porque é fruto do pensamento livre. A crítica da cultura é a crítica que diz “não”, realçando, mais do que aquilo que crê ser um caminho, aquele caminho que seguramente não há de ser tomado. É crítica negativa porque não se pauta nas possibilidades e previsões, mas na crise do momento atual, que olha para si e se recusa a contribuir para a longa fila de desastres que se acumulam. Nisto, ela cria espaço, destrói, despeja. Não idealiza pessoas, nem imagens. Por isso seu perigo. Ali onde veem líderes, a crítica vê a velha iconologia religiosa. A crítica, sob influência do caráter destrutivo, “não vê nada de duradouro. Mas eis precisamente por que vê caminhos por toda parte... Já que vê caminhos por toda parte, está sempre na encruzilhada”.



Texto de Gustavo Racy.

 

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