a de autonomia

Atualizado: 24 de jul.




 



 

A de autonomia é o primeiro texto de nossa coleção de conceitos do léxico de Guattari. Para este primeiro verbete, convidamos Larissa Drigo, pesquisadora das áreas de filosofia, psicanálise e teoria literária, com trabalhos desenvolvidos em torno da filosofia e política da poética de Mallarmé, movimentos de Autonomia radical e psicanálise de Deleuze e Guattari.

 

A de Autonomia, por Larissa Drigo.

Um ponto de viragem na História da Europa e seus ecos ressoam por aqui, o 68 de lá e o nosso Ai-5, o golpe aqui, o golpe no Chile e o início do neoliberalismo.

A autonomia, o movimento, essa área, tem uma história que cruza comunismo, anarquia e a luta antimanicomial, antipsiquiatria, a psicoterapia institucional, a Espanha em guerra civil, o franquismo e o salazarismo, até 74, 75. Foi depois do fim da segunda guerra, crescimento, desenvolvimento, investimento, 30 anos ditos gloriosos.

O que nos interessa aqui é esse momento, o auge, digamos assim, ou o que ouve de mais inteligente, sagaz, violento e forte dentro da Europa em matéria de luta comunista, anarquista ou dentro do campo da esquerda radical, um período de alta inventividade, bom humor, violência policial e bombas fascistas.

A autonomia é, ao mesmo tempo, um conceito clínico que concerne à subjetividade e seu funcionamento, maquínico, com componentes autônomos que funcionam a sua própria forma e em constante mudança. Ele é também um conceito na política, uma prática, um movimento.

Construído dentro e fora dos partidos, dentro das fábricas, e que estava também espalhado pelas escolas, universidades, passando pelas rádios livres, jornais, revistas, livro, literatura, arte, música. A autonomia é também contracultura, cultura underground, cultura operária e mundial.

Autonomia é também uma ideia, um projeto, um horizonte, a base da ação e seu fim, a afirmação da liberdade. Liberdade sem a qual não era possível pensar em análise, tratamento, ou qualquer coisa desse tipo. A clínica só é possível sem muros, dizia Basaglia, como a vida deveria ser.

Autonomia do ponto de vista da luta, autonomia em relação a uma linha partidária, autonomia em relação ao grupo do qual faço parte, autonomia em relação a si mesmo. Em relação a toda e qualquer norma ou ordem, hierarquia ou padrão que tenha a pretensão de estabilizar o que pode ser um “si”, um “grupo”, uma linha de ação, um programa, um projeto. A autonomia teve como desafio unir gerações distintas de trabalhadores, de diferentes origens, a classe operária em crise, os jovens precarizados, os feminismos, secundaristas e universitários.


A autonomia e seus diferentes grupos em constante conflito e movimento talvez tenha realizado aquilo que Guattari chamou de transversalidade. Uma nova forma de organização política, nem horizontal, cada um se vira como pode aqui e agora, nem vertical e portanto, hierarquizada. A união de diferentes grupos, com objetivos distintos e demandas distintas que conseguem juntos botar a imaginação pra funcionar e criar uma outra vida.


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