a era da escravidão


Anton De Kom, por volta de 1932.
 
 

"A Era da Escravidão" é o segundo capítulo da seminal obra "Nós, Escravos do Suriname", de Anton De Kom, militante antifascista e decolonial surinamês, morto pela Gestapo enquanto lutava na Resistência Holandesa.


Seguindo a tradução inédita de nossa última postagem, reproduzimos duas parte do capítulo, em que De Kom especula sobre a chegada do branco e o momento inicial do tráfico escravagista na costa norte desta parte muitas vezes ignoradas de Abya Yala.

De Kom é tido como uma figura central para os movimentos negros das antigas colônias holandesas. Em sua luta anticolonial, e pelo vigor de suas reflexões acerca das relações raciais, dos abusos racistas, e da necessidade de autodeterminação, De Kom se aproximaria de pensadores como W.E.B. Du Bois ou Frantz Fanon.


Publicamos De Kom por entender que é necessário expandir nossas relações perante outras realidades, tão próximas, ainda que ignoradas ou esquecidas.

 

A Chegada do Branco

“Para sua própria destruição, o velho povo foi hospitaleiro com os homens bêbados de uma caravela espanhola e a um homem que dizia trazer Cristo. Um povo caçado...” Albert Helman em, Sul-Sudoeste

“Bem-aventurado o povo” – disse um escritor francês – “que não conhece história alguma”


A história do Suriname, data da descoberta da Costa Selvagem (Guiana), em 1499 pelos brancos.


Sabemos por Hartsinck[1] como era a Costa naqueles dias. Vivia ali, então, uma nação originária, senhora e mestre de seu próprio reino. “Sendo hospitaleiros” – escreve Wolbers em sua História do Suriname[2], “frequentemente recebiam visitas de outros povos, durante as quais a conversa geralmente girava em torno de seus assuntos favoritos: a caça e a pesca. Possuíam certa honestidade e retidão inatas que se destacavam em todos os seus negócios; até mostraram uma cortesia e bondade que não seriam esperadas em nações incivilizadas. Quando falavam entre si, era sempre com compostura e docilidade, nunca falando entre si de maneira desdenhosa. Também possuíam algum conhecimento astronômico, o que lhes era de grande utilidade para encontrar caminhos em meio à selva”.


Tal descrição ainda hoje se encaixa com o que nossos exploradores nos contam sobre o caráter de seus descendentes, os Trios e Ojanas. Também eles são pessoas calmas, nas quais raramente se vêem expressões de espírito ferozes ou gargalhadas exuberantes; também são elogiados por sua generosidade, sua coragem e engenhosidade. Além disso, são excelentes barqueiros e conhecedores da selva. Ainda assim, nada mais são do que o resquício natural do que antes era um povo autossuficiente e feliz, inibidos em seu desenvolvimento natural.


O que levou os brancos a essas costas “selvagens”? Que chamado lhes inspirou? Que notícias, que felicidade, que civilização os trouxeram a este povo livre e feliz? Trouxeram, os primeiros espanhóis a visitar nossa costa, as bençãos do auto-de-fé e da Inquisição? Transmitiram, em nome de Cristo, a paciência que os espanhóis demonstraram contra judeus e mouros, ou a civilização da roda, da pira ou outras torturas? Era esse o título legal para sua invasão? Ou simplesmente trouxeram a mensagem, no vermelho e amarelo de sua bandeira, de que o preço do ouro é o sangue?


Deixaremos os fatos responderem.


Em 1492, Colombo descobriu a América e logo as pinturas exageradas da nova terra e sua riqueza exerceram uma atração irresistível em europeus de todas as classes.


Sobre isso, o professor Werner Sombart escreve em “Der Bourgeois”[3]:


As viagens de descoberta eram uma forma especial de pirataria, que se tornaram cada vez mais frequentes, sobretudo a partir do século XV. Embora todos os tipos de motivo idealista, como interesses científicos ou religiosos, ambição e desejo de aventura, muitas vezes também se envolvessem nessas jornadas, o motivo mais forte (e muitas vezes o único!), era sempre a ganância. Essencialmente, não passavam de ataques bem organizados, cujo objetivo era a pilhagem de regiões ultramarinas. Especialmente depois que Colombo fez sua descoberta e trouxe para casa o verdadeiro pó de ouro, assim como o conto-de-fadas de El Dorado, a terra do ouro, tornou-se objeto declarado ou tácito de todas as viagens. Agora, a supersticiosa caça ao tesouro e a supersticiosa alquimia com a esperança de uma terra onde se pudesse acumular o ouro com pás, se juntavam numa ânsia irresistível de conquista.

O que nos interessa acima de tudo, aqui, entretanto, são os indivíduos peculiares que eram responsáveis por tais empresas. Eram poderosos aventureiros, acostumados à vitória; brutais, gananciosos conquistadores de grande calibre, jamais vistos desde então.


Estes piratas brilhantes e implacáveis, dos quais a Inglaterra, particularmente, produziu um número enorme no século XVI, são talhados pelo mesmo tecido que os líderes italianos, os Can Grandos, Francesco Sforza, Cesare Borgia, com a diferença de que o espírito dos primeiros está muito mais voltado para a aquisição de dinheiro e bens, de modo que já estão muito mais próximos do empresário capitalista do que os condotierri[4] italianos.


Perguntar-se-á como posso classificar tais conquistadores e ladrões junto ao capitalismo. A resposta é simples: não só porque eles próprios eram uma espécie de empresários capitalista, mas sobretudo porque o espírito que os animava era o mesmo que animava todos os comerciante e sistema colonial até o século XVIII. Pois o comércio e a administração colonial eram, em sua essência, tão aventuras e viagens de conquista quanto as viagens de descoberta dos piratas e corsários, das quais falamos. O aventureiro, o pirata e o grande mercador se fundem desapercebidos.


EL DORADO


El Dorado.


Terra do ouro.


Tal palavra ainda não perdeu nada de seu magnífico poder.


Como se tivesse escapado de uma festa de manequins frenéticos, ainda hoje, no grande cruzeiro, um jovem médico vaga pela noite, seus olhos cegos pelas luzes do salão de baile, seus pensamentos balançando ao ritmo inebriado da banda de jazz.


Ele se inclina sobre o baluarte e deixa o vento da noite esfriar suas têmporas. A luz de uma vigia, sempre quebrada, lança raios erráticos sobre as ondas escuras.


Veios de ouro em granito.


El Dorado.


O jovem doutor escuta no som das ondas o canto distante dos bucaneiros, trazido pelo vento noturno de eras passadas.


Durante o dia, ele se senta em sua barraca e escreve em folhas em branco receitas contra enjoo para damas americanas e para os velhos senhores que sofrem do fígado.


À noite, quando a banda de jazz morre, a brisa do mar pode ser ouvida novamente, bem como o rugido rouco de alguns fazendeiros bêbados, desde a sala de fumantes. A loucura de El Dorado desperta em seus corações. À noite, ele já esqueceu sua camisa limpa, seu smoking e sua posição.


Ele se sente próximo a seus ancestrais, os ladrões selvagens, que roubaram o ouro empilhado nos porões de seus navios, os aventureiros, os homens violentos, os caçadores de escravos.


Sob a cinza gris da rotina diária, brilha no coração de cada menino branco o encanto febril de El Dorado.


***


Em 1499, Alonzo de Hojeda e Juan de La Coasa chegaram à costa da Guiana. Mais ou menos na mesma época, Pinzon descobriu a foz do Amazonas e a parte oriental da Guiana. Espalhou-se o boato de que no interior fora encontrada uma terra com riquezas de ouro e pedras preciosas imensuráveis, e que as areias costeiras de um lago infinitamente grande, chamado Parima, eram de pó de ouro.


Em 1593, atraído por tais rumores, Domingo de Vera empreendeu uma viagem à Guiana, de que tomou posse com grande solenidade à Espanha no dia 23 de abril de 1594. Oficiais e soldados se ajoelharam perante uma cruz, professando uma ação de graças aos céus. “Então, Domingo de Vera tomou uma taça cheia de água, bebendo-a; tomou outra, lançou-a o mais longe possível, desembainhou sua espada e, cortando a grama ao seu redor, assim como alguns galhos de árvore, disse: ‘Em nome de Deus, tomo posse desta terra, para Sua Majestade, Don Felipe, nosso legítimo senhor’”[5].


Este é só o primeiro capítulo do mau uso do nome de Deus na tragédia lutuosa colonial. Mais tarde, e repetidamente, os livros cristãos afirmaram que o negro não era um homem, porque o homem teria sido criado à imagem de Deus, e Deus, de acordo com estes escribas, não é negro...


Vamos aqui, então, como negros, garantir que nós mesmos não nos cremos criados à imagem de um Deus cujas bênçãos eram invocadas pelos brancos daqueles dias, a cada vez que se voltavam à terra, ao corpo e à propriedade pela conquista de povos de cor.


As grandes expectativas dos caçadores de ouro espanhóis não se tornaram realidade. Já que ouro algum foi encontrado nas costas, acreditou-se que os nativos o haviam escondido no interior. Com armas em mão, penetraram pela terra e, onde encontraram oposição, os brancos usaram cães de caça, cujos nomes ainda se preservam na história.


Assim, El Dorado não foi encontrada.


E os aventureiros amargurados se vingaram dos nativos, privando-os de liberdade, acorrentando-os, escravizando-os, açoitando-os, maltratando-os.


E quando a “raça” se mostrou fraca demais para produzir os tesouros que os brancos, em sua ilusão, pensavam que encontrariam, quando morreram aos milhares sob os golpes e abusos, lembraram-se, também no Suriname, do conselho de Las Casas[6]: trazer de África uma raça mais forte que a nativa.


Aí começou o tráfico escravagista.


Neste tempo, os primeiros de nossos antepassados foram levados ao Suriname. Desde esses dias, iniciou-se a escravidão no Suriname. Um governante se sucedeu a outro, mas cada novo governante que, pela força, se apossou dos assentamentos de outros europeus, começou pela declaração solene de que também sob seu regime, o direito de propriedade – na verdade o direito de usar e abusar de gado humano – o direito de vender e comprar nossos pais e mães, seria canonizado e mantido.

 

[1] Jan Jacob Hartsinck. 1770. Beschrijving van Guiana of de wilde kust in Zuid-Amerika, enz. Amsterdam: Gerrit Tielenburg. Uma das obras mais antigas e importantes sobre o Suriname, na qual as principais cartas, pareceres, ordenações, convenções e patentes são citadas literalmente. Hartsinck, cujo pai foi diretor da Sociedade Surinamesa por 25 anos, contou com a colaboração do secretário colonial van Meel e de outros habitantes proeminentes do Suriname para este livro, enquanto também pôde ler os arquivos, resoluções, cartazes e portaria de consulta do governo colonial. Como resultado, seu trabalho é totalmente confiável (Nota do Autor). [2] J. Wolbers. 1861. Geschiedenis van Suriname. Amsterdam, p. 17. Nos referiremos muitas vezes a esta excelente obra sobre o Suriname, cuja objetividade e senso de justiça e verdade são ainda mais impressionantes quando se considera que foi escrita em uma época em que a escravidão no país ainda não havia sido abolida. Do prefácio deste escritor verdadeiramente piedoso e liberal, que vigorosamente defendeu a abolição da escravatura, tomamos as seguintes passagens para estabelecer a credibilidades dos fatos: “[...] Uma fonte rica em particular foi disponibilizada para mim nos Arquivos Reais. Lá encontrei os detalhes mais importantes nas atas dos Governadores e Conselhos, nos diários dos governadores e em outros documentos oficiais, espalhando uma luz brilhante sobre pontos até então obscuros” (p. II). “Eu sempre quis declarar a verdade [...] Jamais serei acusado de ter escrito inverdades ou distorcido ou deturpado os fatos” (p.IV). (N.d.A.). [3] Werner Sombart. 1913. Der Bourgeouis. Leipzig. [4] Os condotierri (sg. condotiero), era um mercenário a cargo do comando de milícias, vigorando da Idade Média até os séculos XIV e XV, principalmente (Nota do Tradutor). [5] Wolbers. Op. Cit. pp. 26-27. [6] Las Casas foi um padre espanhol que viveu nas Américas. Pleno de piedade pela vida miserável dos nativos, especialmente aqueles nas minas de ouro, que eram brutalmente atormentados por seus mestres, ele propôs a importação de escravizados negros. Seu trabalho “Brevisima relación de la destrucción de las Indias” (1552), se encontra traduzida para todas as línguas europeias.

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