a guerra contra as "coisas"

Atualizado: 2 de mar.


Arte por Lucas Mello

A guerra, em pelo menos uma de suas definições, apareceu na história como conflito justo e armado, extensão política para um conflito de Estados, ou sua própria forma interior na guerra civil. Do ponto de vista de sua construção moderna, a guerra se dava entre humanos. As comparações atuais do combate a pandemia provocada pela aparição do Sars-cov-2 e a doença produzida pelo vírus que ganha a nomenclatura COVID-19, desloca o combate, a guerra, o inimigo, para outro tipo de ser.

Quem tem a minha idade, e talvez outras idades, deve se lembrar de livros didáticos que traziam o vírus como algo que não era vivo. Debates mais atuais provocam que ele é vivo por ser capaz de reproduzir seu material genético a partir do hospedeiro. Trava-se uma luta entre adversários que, no fim, reduzem a vida a seu aspecto biológico.

O vírus habita um curioso status entre o mundo dos vivos e o outro mundo, entre o animado e o inanimado. Tomando o seu aspecto inanimado, reativo, que se reproduz porque entra em contato, a declaração de “guerra às drogas”, emanada pela boca de Richard Nixon na década de 1970 e capaz de sintetizar toda uma era recente de proibição das drogas, parece poder ecoar algum tipo de pensamento.

A ação das drogas também é vista como certo tipo de reação. Elas agem porque o corpo humano produz algo quando entra em contato com aquele substância. É o humano que age, enquanto a substância dispara. Na comparação com o nosso “gato de Schroedinger”, meio vivo e meio morto, o Brasil também colocou as drogas na esfera do contágio com a “expressão” “epidemia de drogas”, fomentada na ocupação do Estado pelo Partido dos Trabalhadores e aprofundada na atual ocupação de Jair Messias Bolsonaro, agora na Voz de Osmar Terra.

Além destas conexões estranhas, disparatadas, a guerra às drogas também é retraduzida em guerra às pessoas humanas. Esta expressão já foi tão utilizada que parece gasta. Entretanto, é sempre bom lembrar que a proibição de certas drogas – a minoria delas, diga-se de passagem – se focava em proibir costumes de povos específicos, como na vinculação entre a maconha e os mexicanos nos Estados Unidos, e, no Brasil, com os africanos escravizados. Toda essa articulação política entre proibição, ação do Estado com seu braço policial e, também, a saúde, aqui fortemente vinculada à psiquiatria, culminou em um exercício de racismo de Estado.

A guerra às drogas não é só uma guerra a humanos específicos, por mais que a incida sobre estes corpos via medicalização, execução, sistema carcerário... No Brasil, especificamente, pessoas pobres, pretas e periféricas dão a imagem do traficante que alimentará o racismo de Estado e superlotará os presídios, aquecendo uma lógica punitiva que alimenta o Estado e transborda para subjetividades, habitando o Estado como categoria do Entendimento. Entretanto, olhando para a genealogia desse processo, pode-se ver que além deste efeito, existe uma ação sobre a relação entre povos e drogas específicas, incluindo aqui a alteração da nomenclatura relativa ao que usavam para uma leitura capaz de repensá-las enquanto patologia social.

No século XIX, o Escritor Thomas De Quincey reivindicava os direitos do ópio. Disto é possível extrair que o ópio apresentava uma pessoalidade. A produção do uso habituado, conceito da época para o que hoje chamaríamos de dependência, e suas derivadas torturas, consideradas efeitos de terror, se dava por meio do abuso desta pessoa. O ópio tinha personalidades: poderia ser benevolente ou vingativo, exercer a mão da soberania que pesa ou uma relação mais horizontalizada. Aqui, era a relação que estava em jogo. Para pensar a relação, para pensar uma ação do ópio sobre a pessoa, era preciso retirá-lo da categoria de objeto, de inanimado.

Pensar o vírus como mero reprodutor genético diz algo sobre o que entendemos como vida. Campo da reprodução biológica. Quando estendemos isso para o humano, acrescentamos ainda sua excepcionalidade como agente de um mundo muito pouco povoado, sua grandeza em ser, talvez, o único animal dotado de linguagem, de razão, de alma, de espírito, de ir para o céu... seu demasiado humano.

Mesma reinterpretação capaz de fazer um mercado de animais vivos na China, de explorar animais como máquinas, de reproduzi-los em grande escala como celulares de última geração, de confiná-los como uma mercadoria de vitrine pronta para o abate. Nossa relação específica com a carne alimentícia é não ter relação com sua própria produção, entendendo que se compram bifes embalados que nos afastam da morte. Bifes como plástico. Mata-se com higiene cirúrgica. É todo um campo que desloca relações entre as várias vidas e permite a produção da própria pandemia. Um vírus nunca é só um vírus.

O corpo dito como humano vaza. Isto não é uma metáfora. Nestes corpos transbordam-se saliva, fezes, urina, gozos, suor. Ultrapassam qualquer invólucro da unidade mais unitária possível e desejada, seja esta qual for. Escapa-se a cada corte de instante de uma interioridade humana, na psiquê ou na biologia. Não há lacunas. Tem-se algo da ordem de uma fita de moebius que não separa ambiente de ambientado. Este mesmo designado humano é povoado de bactérias, vírus, e outros seres, danosos ou não, aceleradores de alguma morte ou não. Só se produz o que se chama de vida, mesmo no sentido biológico, por constelação.

As relações estão mais para uma história de Philip K. Dick do que uma leitura filosófica de Kant. Sars-cov-2 lembra mesmo o nome de um androide, talvez T1000, de uma outra história. Em Andróides sonham com ovelhas elétricas? O escritor desenvolve a narrativa de ficção científica em um mundo pós-guerra, onde a aparição de uma poeira extinguiu a maior parte dos animais, aqueles humanos selecionados especialmente – os quais o capitalismo sempre trouxe na produção de sua hierarquia – foram para marte e androides foram produzidos com biotecnologia para serem seus servos. Ocorre que androides fogem, agem, não sabem se são humanos ou emulam os humanos, no fim os humanos não sabem exatamente se são humanos ou androides. “I may be paranoid but not an android”, canta Thom Yorke. As neurociências admitem que os celulares, as telas e os jogos mudem a rede neuronal, assim como as drogas. Dependência de eletrônicos! As mensagens vibram, as conversas por vídeo afetam a pele, um personagem de ficção perturba, um filme de terror tira o sono. A lua estava bonita ontem.

Trata-se de um princípio de colonização. Pierre Clastres definia a marca do etnocídio provocado como a junção entre a máquina de unificação do Estado com a máquina de expansão sem limites, do mercado. De um lado tudo se expande e de outro tudo se corta pelo um. O ilimitado que retraduz na mercadoria e o corte que esquarteja do bezerro ao corpo de cada um. A unidade que só observa um único método, uma única revelação possível diante do inerte natural. A grande interpretação do livro sagrado proveniente das alturas humanas. A vida do simples ao complexo, distribuída em seu caráter exclusivamente biológico lembra mesmo os antigos esquemas que defenderam esta empreitada. Os povos ameríndios eram selvagens, os negros escravizados sub-humanos, a civilização era evolução sócio-natural das coisas. Além da vida, e dos corpos, é o mundo de um povo que tenta se quebrar.

Uma guerra ao inanimado nunca é somente ao inanimado. Neste mundo humano ela afeta as relações destas pessoas. Uma ação policial, uma receita médica, uma UTI, tudo isso incide sob corpos desses humanos. Uma declaração de guerra que gera a competição pelos equipamentos necessários para a manutenção deste mesmo bios que se pretende manter, salvar, reproduzir e produzir. Uma “coisa” inimiga sempre se acopla em algum corpo, e as seleções nesta história do capitalismo tem sido claras, abrindo novos leques para o racismo de Estado e para seu exercício de Terror. Revigora-se a moral do humano, em que algum povoamento é retirado da grande civilização: indígenas, aborígenes, negros, queers, mulheres, etc. Que o vírus pode se acoplar a qualquer um, provocando ou não a forma grave da COVID-19, está claro. A pergunta que fica é: a qual corpo se acoplará mais um discurso do inimigo proveniente do Estado? Seu consequente desdobramento: como nos mantemos sendo perigosos?

Willian Burroughs afirmava que a linguagem é um vírus. Isto porque as palavras foram produzidas nos nossos ventres. Elas se reproduzem. Toda uma história que repete Estado, machismo, sexismo, heteronormatividade, família, tudo isso é gestado nas entranhas. Reproduz-se sem material genético. Uma palavra não é só uma palavra. Um vírus não é só um vírus.

Se é preciso pensar com o fim de um mundo, talvez fosse o caso de lembrar dos wild boys de Burroughs, garotos queer, também habitantes de um apocalipse.

“Temos a intenção de destruir a máquina policial e todos os seus registros. Temos a intenção de destruir todos os sistemas verbais dogmáticos. (...) Nós não queremos mais ouvir a família que fala, a mãe que fala, o pai que fala, o policial que fala, o padre que fala, o país que fala ou o partido que fala. (...) Já ouvimos merda suficiente”


Corta.


Uma pequena história zen:

Um viajante seguia seu caminho pela estrada quando se deparou com um tigre. Começa a fuga movimentando a musculatura da perna até que sua velocidade geográfica acelere. A corrida é interrompida quando se depara com o precipício. Agarrou-se aos galhos de uma videira. Em baixo o tigre rugia, acima dois ratos começaram a roer o galho em que estava agarrado. Cima e baixo. Olhar fixo. Foi ao virar para o lado que viu uma uva e começou a comê-la. “Mas que delícia!”.

Corta.


Laurie Anderson toca ao fundo com um beat de funk, sua voz some até que fique apenas a batida. Uma criança de sorriso selvagem passa naquele lugar.

...



Texto por Wander Wilson.

114 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo