a noiva exposta a nu pelos seus solteiros, inclusive

Atualizado: 17 de ago. de 2021


Marcel Duchamp por Arnold Rosenberg, 1958/2015
 


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

Marcel Duchamp (1887-1968) é um incontestável desbravador dos caminhos que permitiriam uma renovação radical do olhar e, consequentemente, da arte ocidental como um todo.

Embora presente na grande maioria dos manuais de história da arte, com frequência o potencial da obra de Duchamp, assim como sua participação no movimento surrealista — e consequentemente a influência mútua ou, melhor dizendo, os vasos que aí se comunicam — é reduzida ou expressamente ocultada. Portanto, n’A Fresta desta semana publicamos — e até onde temos notícias pela primeira vez em português — uma das notas realizadas por Marcel Duchamp no processo de criação da sua famosa obra A Noiva exposta a nu pelos seus solteiros, inclusive ou O Grande Vidro (La Mariée mise à nu par ses célibataires, même ou Le Grand Verre), definida por Octavio Paz, em Marcel Duchamp ou o Castelo da pureza (Perspectiva, 1977), como “uma das obras mais herméticas do nosso século”.

Este texto, antecedido por um breve comentário de André Breton, veio a público pela primeira vez no número 5 da revista Le surréalisme au service de la révolution, em 1933. Atualmente a obra encontra-se no Philadelphia Museum of Art.

 

A NOIVA EXPOSTA A NU PELOS SEUS SOLTEIROS, INCLUSIVE

O texto de Marcel Duchamp que vamos ler a seguir é um trecho duma abundante e inteiramente inédita coleção de notas, que deveria servir de acompanhamento e comentário (à maneira de um catálogo de exposição ideal) ao “Vidro” (objeto pintado sobre vidro transparente) conhecido sob o título: A NOIVA EXPOSTA A NU PELOS SEUS SOLTEIROS, INCLUSIVE (1915-1918), que figura na coleção de K.S. Dreyer, em Nova-Iorque.

A situação histórica excepcional desta obra plástica permite aos surrealistas conferir um valor documental considerável às páginas a seguir, em razão da luz inteiramente nova que elas projetam sobre as preocupações de seu autor.

A.B. [1] Para afastar o pré-concebido em série do puro-achado. O afastamento [2] é uma operação.

AVISO Sendo dados 1º a queda d’água 2º o gás da iluminação

Determinar-se-á as condições de um Repouso instantâneo (ou aparência alegórica) de uma sucessão [de um conjunto] de crônicas policiais que parecem necessitar-se mutuamente por leis, para isolar o signo da concordância entre, de um lado esse Repouso (capaz de todas as excentricidades) e, de outro lado, uma escolha de Possibilidades legitimadas por estas leis e também ocasionando-as.

Ou: Determinar-se-ão as condições de [da] melhor exposição do Repouso extra-rápido [da pose extra-rápida] (= aparência alegórica) de um conjunto… etc. Ou:

Sendo dadas na escuridão 1º a queda d’água 2º o gás de iluminação,

determinar-se-á (as condições da) exposição extra-rápida (= aparência alegórica) de várias colisões [atentados] parecendo sucederem-se rigorosamente uns aos outros — seguindo leis — para isolar o signo da concordância entre essa exposição extra-rápida (capaz de todas excentricidades) de um lado e a escolha das possibilidades legitimadas por estas leis de outro lado.

Comparação algébrica:

a a sendo a exposição

b b sendo as possibilidades

a relação a sobre b de modo algum dá-se num número c (a sobre b igual c), mas no signo que separa a e b; desde que a e b são “conhecidos”, tornam-se unidades novas e perdem seu valor numérico relativo (ou de duração); resta o signo — que os separava (signo da concordância ou melhor da… ? pesquisar).

Sendo dado o gás de iluminação

Progresso (melhoria) do gás de iluminação até os planos de escoamento

Moldes malchônicos (malchônico) [3]

Pela matriz de Eros compreende-se o conjunto de uniformes ou librés vazadas e destinadas [a receber] o gás de iluminação, que assume oito formas malchônicas (policial, couraceiro, etc).

Os moldes de gás assim obtidos escutariam as litanias recitadas pela carruagem, refrão de toda máquina solteira, sem que eles possam jamais ultrapassar a Máscara. Eles teriam sido como envelopes ao longo de seus arrependimentos por um espelho que teria enviado-lhes sua própria complexidade a ponto de alucinar-lhes deveras onanisticamente (Cemitério dos uniformes ou librés).

Cada uma das 8 formas malchônicas é construída acima e abaixo de um plano horizontal comum, o plano do sexo que as corta no ponto do sexo.

Ou:

Cada uma das 8 formas malvachas é cortada por um plano horizontal imaginário num ponto denominado ponto do sexo.

INSCRIÇÃO DO ALTO

Obtida com pistões de corrente de ar (indicar a maneira de “preparar” estes pistões).

Em seguida “colocá-los” durante um certo tempo (2 a 3 meses) e deixá-los imprimirem sua marca enquanto [3] fios, através dos quais passam os comandos do pendente fêmea (comandos cujo alfabeto e os termos são regidos pela orientação dos 3 fios [uma espécie de grelha tripla através da qual a vozeria láctea traz os — e é condutora dos ditos — comandos].

Retirá-los em seguida, de modo de que reste somente sua marca rígida, isto é, a forma permitindo todas as combinações de letras enviadas através desta dita forma tripla, comandos, ordens, autorizações, etc. Devem unir as tiragens e a mancha.

Marcel DUCHAMP (1915). Tradução de Natan Schäfer.

 

Notas: [1]: Nota do tradutor: André Breton. [2]: N. do t.: novamente, como pudemos observar em textos anteriores publicados nesta Fresta, podemos observar o uso do termo “écart”, o qual pode ser traduzido por diversas palavras como desvio, erro, descarte, etc. [3]: “Mâlic” e “mâliques” são neologismos de Duchamp, criados a partir de “male” (“macho”).

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