a pária

Atualizado: 2 de mar.


Foto por Alex Peguinelli


Hoje, dia 7 de Abril, seria mais um aniversário de Flora Tristan. A celebramos na fúria de sua vida e esperamos perpetuá-la até onde a nossa alcançar.

*** “A Igreja dizia que a mulher era o pecado; o legislador, que por ela mesma ela não era nada, que não devia gozar nenhum direito; o filósofo erudito que por sua organização ela não tinha inteligência, concluímos que ela era um pobre ser deserdado de Deus e assim os homens e a sociedade a tratavam. [...]

Acreditando que à mulher, por sua organização, faltava força, inteligência e capacidade e que era imprópria para trabalhos sérios e úteis, se conclui logicamente que seria perda de tempo lhe proporcionar uma educação racional, sólida, severa, capaz de fazer dela um membro útil para a sociedade. Então ela é educada para ser uma bonequinha boazinha e uma escrava destinada a distrair seu mestre e o servir. [...] Que suplício pavoroso este de sentir em si a força e a potência de agir e se ver condenada à inação!”

Se arrastava na miséria um caracol imundo. Comia os miseráveis restos daquela miserável rua, como um rasgo de limo fundia suas linhas nos rastros dos carros que vão velozes enquanto, na contramão das luzes, recolhia alguma miséria para trocar por outra. Um caracol lento, suprimido e febril - suga os buracos de seus dentes a procura do resto de comida vencida que lhe sustentou ontem. Uma existência deplorável, mensageira do diabo que porta chagas.

Se aproxime do caracol ou de sua casa dura, veja o cancro em sua pele se espalhar, veja o negro da mancha da história pendular em baixo da sua língua seca, veja bem o caracol atravessando a rua, molhando o papelão de urina, veja ali o caracol vivo até a morte, veja de longe e fora da sua casa, cuidado para não deixar o caracol entrar, veja como aquela lesma grotesca irrompe do pequeno bolo orgânico que chama de corpo, veja que nem mereceu o espaço do próprio útero que o geriu, certamente é um aborto vivo, uma criatura de pavor expelida, veja que horror é dividir essa rua, veja com os olhos de seu Pai essa criatura tecida no tormento, ungida na comédia da morte.

Veja, mas não se aproxime. Veja e logo vire o rosto.

Nunca olhe bem.

“Pobres operárias! Elas têm tantos motivos para se irritar! Primeiro o marido. (Convenhamos, há bem poucos lares de operários que sejam felizes). – O marido tendo recebido mais instrução, é o chefe por lei e também graças ao dinheiro que traz para casa, ele se acha (e ele de fato é) superior à mulher, pois ela só aporta o pequeno salário de sua jornada e na casa não passa de uma humilde serva. Assim, o marido trata sua mulher com muito desprezo. – A pobre mulher que se sente humilhada a cada palavra, a cada olhar que o marido lhe dirige, se revolta aberta ou secretamente, segundo seu caráter; daí decorrem cenas violentas, dolorosas, que terminam por criar entre o mestre e a serva (podemos mesmo dizer escrava, pois a mulher é por assim dizer propriedade do marido) um estado de constante irritação.

[...] – Acrescente a isto, essa irritação incessante causada por quatro ou cinco crianças barulhentas, turbulentas, irritantes que correm em volta da mãe em um pequeno quarto de operário onde não há lugar para se mexer. Oh! É preciso ser um anjo que desceu à terra para não se irritar, não se tornar bruta e rude em tal situação [...] Operários, vocês sabem o que se passa em seus lares no estado atual das coisas. Vocês, homens, mestres que têm direitos sobre sua mulher, vocês convivem com elas satisfeitos de coração? Digam: vocês são felizes?”

A pária. Da ordem do fracasso veja ali descer a rua, a pária.

Ao entrar em sua casa, pária, existe um mestre para comer sua carne, um mestre para ordenar seu tempo e o mestre do seu sofrimento. Veja sua casa, pária, agraciada pela servidão - fale, fale sim, sem cobrar de mim, pária, a vida que não te foi entregue. Fale, fale sim, mas fale com as batatas de abandono bem fundo em sua garganta, fale sim, pária, fale de sua proletarização, fale de sistemas de explorações econômicas e políticas que realizaram o sequestro de sua vida, fale sim, mas fale até o meio dia, porque depois disso tenho outras coisas pra fazer. Fale sim, fale sim, com seus dois dedos na garganta pra fazer o remédio sair.

Mas claro, fale, fale sim.

Veja ali a figura de seu mestre, de seu pai, de seu marido e de seu legislador. Veja ali neste quadro de arabescos na parede de seu frágil caracol. Faça ali, pária, suas cerimônias, lembre-se da cristandade, pária, lembre-se de ter receio. Lembre-se que por três votos a menos no Concílio de Mâcon a mulher teria sido reconhecida como animal selvagem, pária, tal qual um caracol imundo.

Cá estou eu escrevendo sobre você, Caracol, que vem depois da chuva lamber o resto da civilização. O que será que isso quer dizer?

Onde já se viu o homem, o mestre e o senhor obrigados a coabitar com tal animal selvagem? Passe pelo outro lado da rua, pária, vire o olhar, não o ofenda. Veja como habitam os homens o domínio de suas próprias classificações. Veja como se tornam irredutíveis em seu orgulho. Pária. Materialização do sujeito revoltado que designa e denuncia o rebaixamento ou a repressão dos impulsos genuínos do explorado.

A pária, inexistente fora da chaga, veja como é assassinada atrás da cortina, veja como recolhe-se na sua casinha, medrosa.

Culpada.

Mendiga.

Escorre a pária pelas vielas da vida. Escorre arrastando e sendo arrastada pela sua casinha imunda. Para longe de tudo que pode ver.

“Entre o mestre e o escravo, não há nada mais que o cansaço do peso da corrente que liga um ao outro. – Lá, onde não há liberdade, a felicidade não poderá existir [...]

[...] É então a vocês, operários, que são as vítimas da desigualdade de fato e da injustiça, é a vocês que cabe estabelecer enfim sobre a terra o reino da justiça e da igualdade absoluta [...]”

Trechos entre aspas são do capítulo “Porque eu menciono as mulheres”, de Flora Tristan, em União Operária.


Texto por Fabiana Vieira Gibim.

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