a poetisa e a deusa ou essas maravilhosas mulheres orientais

Atualizado: 12 de ago.




 

Prefácio de Katia Pozzer para o livro "Inana - Antes da poesia ser palavra era mulher"


No ano passado fomos surpreendidos com um texto que irrompeu ao nosso olhar com a potência de séculos - Inana.


Existem milhares de constelações que atravessaram nosso olhar para este livro mas a mais preciosa delas foi pensar o quão encantado é o vínculo que a poesia teceu com a recusa dos governos da palavra, o encarceramento dos registros e a insustentabilidade das formas ordenadas e regimentais do pensamento.


Inana desbravou seu caminho até nós como quem se entrega ao desconhecido e ao mistério. Graças à Guilherme Gontijo Flores, Adriano Scandolara e Katia Pozzer, podemos hoje materializar esta poesia magnética em nosso tempo.


"Homero, o profeta Moisés, o sábio Viasa, – os nomes, masculinos, a quem foram atribuídas a Ilíada e a Odisseia, a Torá e o Mahabharata, essas vastas revisitações de material épico, prévio e anônimo – foram superados, com vários séculos de vantagem, por uma mulher, em louvor a uma divindade também feminina – Inana, rainha do céu e da terra, e senhora das mulheres". Há 4.000 anos, no império mesopotâmico, Enheduana, uma princesa, poeta e sacerdotisa exilada pediu socorro a Inana, rainha dos céus e da terra, deusa do amor, do sexo e da guerra.


Seu apelo ficou gravado como a primeira poesia assinada, marcando o nome de Enheduana na história humana. "A exaltação de Inana" não é apenas um poema de louvor divino, mas uma obra sobre tensões político-religiosas e sobre a própria feitura poética. Uma "profissão de fé no poder das palavras".


Composta pela tradução de "A exaltação de Inana", por Guilherme Gontijo Flores, e "A descida de Inana ao Mundo dos Mortos", por Adriano Scandolara, a edição da sobinfluencia traz, também, uma rica apresentação da historiadora Katia Pozzer, que disponibilizamos aqui para sua leitura.


Conversamos também com os tradutores e Katia em nosso canal no YouTube. Você pode assistir clicando aqui.

 

O trabalho de tradução e adaptação de textos literários mesopotâmicos realizado a quatro mãos, por Adriano Scandolara e por Guilherme Gontijo, deve ser comemorado pelo público brasileiro, pois eles oferecem a integralidade dos poemas antigos em uma versão inédita em língua portuguesa.


Os autores trazem uma grande contribuição que chega para diminuir a enorme distância que nos separa do imaginário antigo-oriental e de suas deliciosas narrativas. Com isso, eles também resgatam duas figuras femininas da maior importância no universo cultural mesopotâmico. Uma divina: Inana. Outra humana: Enheduana.


Enheduana foi, sem dúvida, a mais proeminente sacerdotisa do deus Nana (o deus lua, divindade masculina) em Ur, durante o reinado de seu pai, o poderoso rei Sargão de Acade (2332– 2279 AEC). Ela é conhecida por suas composições literárias e vários objetos contendo inscrições cuneiformes, incluindo um disco de alabastro, atualmente conservado no Museu da Universidade de Philadelphia.


A deusa Inana/Ishtar é considerada como a mais célebre da Mesopotâmia. Esta concepção foi construída ao longo dos séculos, a partir de uma fusão de três divindades diferentes: uma guerreira e quase viril, de origem semita, Ishtar; outra, suméria, feminina e padroeira do amor livre e do sexo, Inana; uma terceira, identificada ao planeta Vênus, estrela da manhã e do entardecer. Sua simbologia numérica estava associada ao número 15, que é a metade do número 30, atribuído a seu pai, o deus Nana, não por acaso, a divindade à qual Enheduana é devota e sacerdotisa.


Em “A Exaltação de Inana”, a princesa-poetisa Enheduana glorifica a divina Inana em um hino composto por ela, que, provavelmente, seria declamado ao som de liras e flautas, como parte integrante de uma complexa liturgia realizada nos templos.


Mas esse texto, além do seu aspecto lírico, apresenta uma narrativa elogiosa de Enheduana, exaltando sua exímia capacidade performática nos cultos. É interessante notar que a escolha de Enheduana para louvar Inana não é casual. No universo simbólico mesopotâmico Inana/Ishtar é retratada como uma figura poderosa e independente, como a antítese da ideia de uma mulher submissa de uma sociedade patriarcal. Assim como a princesa Enheduana, que se destacou como intelectual e líder religiosa, desempenhando um importante papel político na sociedade da época, Inana rompeu padrões normativos de uma divindade feminina.


Para explicar esta aparente contradição o historiador francês Jean Bottéro (1987, p. 256) afirma que “os mesopotâmicos criaram seus deuses à semelhança dos homens, pois eles tinham aparência, qualidades e defeitos, eram movidos à paixão e ao ódio como os humanos”. Além disso, possuíam uma força extraordinária, poderes sobrenaturais e um dom único, o da imortalidade, uma vez que a morte era o destino inelutável e universal para toda a humanidade.


O segundo documento traduzido, conhecido como “A descida de Inana aos Infernos”, é um texto sumério, datado da primeira metade do II milênio AEC e foi reconstituído a partir de mais de trinta manuscritos encontrados em escavações arqueológicas nas cidades de Nippur e Ur. Esse trabalho de identificação, deciframento e tradução das fontes foi realizado pelo assiriólogo estadunidense Samuel Noah Kramer, ainda nos anos 30 do século passado (Kramer, 1937). Mais tarde o texto foi retomado e atualizado por outros especialistas.

A figura-chave desta narrativa é a deusa Inana, a entidade feminina mais importante do panteão sumério. Segundo essa mitologia, Inana, que habitava os céus, resolve descer ao mundo subterrâneo, onde reina a deusa Ereshkigal, sua irmã e rival. O pretexto para tal visita era assistir às cerimônias fúnebres em honra de Gugalana (literalmente, o grande touro celeste), marido de Ereshkigal, que fora assassinado.


Como podemos compreender este extraordinário documento antigo de mais de três mil anos? Como fonte histórica, ele pode ser interpretado de várias maneiras, a partir de inúmeras abordagens. Uma primeira lição é que a protagonista da narrativa, a deusa Inana, dispensa qualquer apresentação. Isto sugere que todos os que são capazes de ler e/ou ouvir o poema já a conheciam de antemão. Trata-se, pois, de uma divindade popular, ainda que ela faça parte da categoria superior das divindades mesopotâmicas.


A descida de Inana ao mundo inferior é apresentada como uma viagem a um lugar distante, desconhecido e perigoso. Paradoxalmente, porém, essa viagem ameaçadora é resultado de uma decisão intempestiva da própria deusa, aludindo a uma de suas características, sua volubilidade emocional.


A organização da viagem se inicia com a enumeração dos setes poderes com os quais ela se aparelhou: o turbante; as mechas de cabelo; o colar de lápis-lazúli; as pérolas-duplas, os braceletes, o peitoral e a maquiagem. Estes elementos representam verdadeiros talismãs mágicos que garantem sua proteção em um ambiente hostil. A menção ao número sete expressa que ela se abrigou com o conjunto de amuletos disponível, pois na numerologia mesopotâmica o número sete significa a totalidade. É importante ressaltar que os “sete poderes” são, eminentemente, adereços da indumentária feminina, dizem respeito ao penteado, ao uso de jóias, mantos e à maquiagem dos olhos, reforçando uma representação da mulher associada à feminilidade.


Porém, assim como nos dias atuais, o tema central desta narrativa é a morte, esse destino implacável da humanidade que fora imposto pelos deuses e era tão temido pelos povos da terra entre rios. Acreditamos que o ato de criar poemas e mitos que evocasse essa realidade foi uma maneira poética e simbólica que eles encontraram para lidar com o me