a sementeira da revolução

Atualizado: 2 de mar.


Colagem por Alex Peguinelli


Devido a uma certa legalidade, pensam alguns escritores - os intelectuais - que lhes cumpre participar dos trabalhos do Partido, na escala em que os políticos do Partido devem dar o seu esforço e o seu interesse pelo desdobramento prático da ideologia. Não cabe aqui discutir a topografia da linha política, mas a misturada irrefreável em que se esterilizarão para sempre os que se subordinam à prática do cordão, das ladainhas e dos sacrifícios rituais. A importância da legalidade, no plano em que ela agora foi oferecida e não conquistada, tem muito de relativo e de restrito para que dela precisem os representantes das letras. Sem dúvida, nestas colunas, temos colocado a independência e a liberdade e a liberdade do escritor acima de tudo… E ao fazê-lo não limitamos aquelas duas condições à contingencia do servilismo que o Partido impõe aos seus militantes. É preciso fundamentalmente distinguir entre o militante e o escritor revolucionário, para se ter a noção mais alta do que é o clima de liberdade e de independência deste último, em contraposição à deformação que automatiza o militante, no enquadramento disciplinar em que jaz esquecida qualquer noção de vitalidade democratizadora atuante. A liberdade para o escritor está acima e adiante do grupo que trabalha nas tarefas cotidianas do Partido. Poderíamos fazer mais terra a explicação se adotarmos uma imagem concreta do plano em que se desenvolvem estas fases da história do progresso humano. Sobre o chão de pedra, de areia, ou sob a neve, o trabalho do escritor revolucionário estendeu para o futuro a mão que semeia embora sáfaro, inculto e hostil o terreno.

Povos, soldados, estadistas, poderosos homens do dia passam por aquelas áreas e esmagam e espalham as tentativas da germinação. Indiferente, ou interessado, conscientemente ou não, o pensamento livre do escritor trabalha entretanto alimentando a sementeira, prodigalizando com a eloquência e a grandeza de suas insinuações vitalizadoras, elementos novos, forças fertilizantes das sementes perdidas, arrastadas pelas voragens das guerras, dos conflitos, da covardia e do temor, da opressão e o ódio… Os escritores revolucionários do passado e do presente não trabalham pelo imediatismo dos resultados efêmeros e passageiros. Eles estão muito adiante do esforço trivial, suas necessidades são muito profundas e suas sondagens estão esburacando os horizontes que cercam a visão dos contemporâneos. Como fazer pois que eles voltem atrás e se misturem com a turba para insuflar-lhe ideias por mais generosas que sejam as que lhe fervilham dentro do cérebro?

Cabe fazer em tempo uma ressalva: o escritor que está sendo objeto de nosso comentário não é este ou aquele trabalhador das letras, mas o criador de uma obra literária, poética, crítica… Pode-se estender para os próprios “desinteressados" a marca fatal da inteligência criadora: ela será sempre, até indiretamente mesmo, uma fermentado da revolução, pois qualquer posição reacionária não eleva os homens, nada lhes ensina, e assim nega automaticamente o motivo fundamental de toda a criação, que, essencialmente destina-se a arrancar do chão da realidade e do momento precário que acorrenta a condição humana, os seres envolvidos na comunicabilidade das páginas vivas do livro…

Procuremos examinar as origens dos dois revolucionários: o militante, o chamado “profissional da ação” em trabalho no Partido e o escritor revolucionário. Aquele torna-se consciente de seu papel, torna-se revolucionário e assim atua na luta que para a implantação da sua ideologia é obrigado a travar no dia-a-dia das tarefas do Partido - quando o partido luta, é claro, quando não pensa em fazer tudo no mole e deixar para as calendas as etapas da revolução -. Aos que achem difícil de compreender o que chamo luta vai aí exemplo: um militante diante de um operário não politizado tem de convertê-lo ao seu objeto de luta, tornar maleável a sua mentalidade, permeabilizá-la em “consciencia” do papel que lhe cabe na engrenagem social, e para isto, o militante tem um trabalho que é o de desbravar o caminho e debater com a indiferença, o alheamento, a preguiça moral, mental e até física do interlocutor… E tem de lutar para impor-lhe não só a consciência de classe que ele não tem em grau revolucionário mas para lhe oferecer uma saída adequada, emprestar-lhe métodos de conduta, segurá-lo com convicção, ganhar para sempre a sua confiança, de tal maneira que possa deixá-lo realizar sozinho os seus progressos, integrado na corrente ideológica, adquirindo por sua vez a experiência, fazendo-se um revolucionário…

Mas, com o escritor acontece o contrário. Sua consciência de trabalhador intelectual não mercadejando com o seu trabalho, sua responsabilidade de liderança mental, ao produzir a página autônoma, transparente pela limpidez de sua verdade, está fazendo o papel do semeador… Haja pedras no chão, haja areais ardentes ou venha a neve siberiana fazer adormecer a sementeira, o escritor revolucionário vai longe, muito mais longe às vezes do que ele mesmo possa pensar que está andando, pioneiro e solitário no mundo de sua criação. Entendem-no as vanguardas, os portadores da rebelião, a inteligência livre dos seus contemporâneos (como Jules Laforgue comentava Rimbaud), os líderes da atividade no plano da realidade política, e são estes os elementos que fazem a ligação invisível e impalpável daquelas ideias com as massas militantes a caminho da insurreição libertadora de um dia que virá… Dizer a verdade claramente, a verdade pressentida, embora apenas no murmúrio que a legenda pôs na boca de Galileu, o “eppur si muove”, ou no grito da Lettre du Voyant* ou no hermetismo dos poetas da Resistência da França, é sempre usar revolucionariamente a expressão, e o escritor como peça de Partido não é alguém que possa dizer toda a sua verdade, como homem e como revolucionário. Que seja necessário declarar o respeito a determinados bigodes e esconder dos militantes um certo documento, a conformação disciplinar funciona. E assim, tudo o mais, nas pregas da conveniência com que se veste a “verdade” da ação política do Partido. O trabalho do escritor, à margem do tempo e das tarefas imediatas é o de alimentar a sementeira da revolução, para que quando ela germine a emoção e a esperança atormentada do militante encontrem o que colher… A liberdade do escritor quebra as tábuas dos mandamentos partidários.

Vanguarda Socialista, Ano I, n. 6, 5 de Outubro de 1945.

* Obra de Arthur Rimbaud de 1871.

 

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