a sonâmbula

Atualizado: 16 de set. de 2021


A Sonâmbula (La Somnambule), 1957.

 

A Fresta é uma coluna — uma colinade periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

Foi como Toyen [1] (Praga, 1902 — Paris, 1980) que Marie Čermínová deu a ver os mais profundos avessos. Deixando a casa de sua família aos 16 anos para trabalhar como operária numa fábrica de sabões, nos anos 1920 Toyen entra para a Escola Superior de Artes Aplicadas de Praga. E é ainda nesta década, mais exatamente em 1922, que ela conhece Jindřich Štyrský, que se tornará seu cúmplice nos labirintos do sonho e do amor. Depois de várias idas e vindas, em 1947, uma vez finda a Segunda Grande Guerra, Toyen se transfere para Paris, onde passa a participar do grupo surrealista, no seio do qual irá ligar-se por uma admiração mútua e forte amizade principalmente com Breton e Péret. Um dos frutos — uma cereja? — desta amizade é o texto de alta voltagem que André Breton dedica à pintura igualmente eletrizante A sonâmbula (La somnambule, 1957), publicado em 1958 no catálogo da exposição Toyen, na Galerie Furstenberg, e depois coligido no legendário Le surréalisme et la peinture, e que agora é traduzido e apresentado pela primeira vez em português n’A Fresta desta semana. De acordo com Annie Le Brun, que apesar da diferença de idade foi uma amiga próxima de Toyen, esta última possuía “um desprezo pela pintura como negócio estético e pelos pintores como produtores de pintura, o que ela chamava de ‘fabricantes’. Era como se para ela se tratasse de uma necessidade vital de reafirmar até no domínio artístico sua irredutível distância para com o mundo no qual os outros tão bem se acomodavam, graças à separação, por exemplo, da arte e da vida”. Em 1976, numa de suas raríssimas declarações por escrito, Toyen, uma mulher de poucas palavras e imagens intensas, amante da sétima arte e assídua frequentadora de cinemas x-rated, diz: “Na sala escura da vida, observo a tela de meu cérebro”. * A sonâmbula Me terás e não me terás, toda à meia-luz surgindo do mais profundo das capelas de Eros repicando no campo, posta a perder de vista, só para ti o segredo do avesso das falenas. E em direção à ti teus amantes, do pântano lívido do seu leito, o sangue dando uma só volta, bem que tentaram descrever mil curvas convulsivas, eu por mim só teria de deslizar para fazer eclodir em teu coração grãos de fúcsia e bolhas de Füssli[2]. É para ti que minha cabeça tomba para trás, sob o radar alto do pente. Ao teu encontro, avanço entre luz e sombra: faz de mim o que não irás querer. Se o avesso de meu véu se cobre de geada no cruzamento, não levante-o por nada neste mundo, sofrereis com as trevas da memória, mas, sim, beija meu mule cereja[3].


*


[1] Nota do tradutor: Apelido extraído por aférese da palavra “citoyen” (“cidadão”). [2] N. do t.: o pintor suíço Johann Heinrich Füssli. A menção às bolhas (em francês “bulles”), ecoa o radical ao substantivo que intitula a pintura (“somnanmbule”), radical este que por sua vez é um parônimo de “mule” (palavra que pode significar tanto o calçado mule, quanto o animal mula). [3] N. do t.: “cereja” (“cerise”) pode ter várias acepções, além da fruta e da cor, como por exemplo, “rosto”, “primavera”, “começo da existência” (“o tempo das cerejas”) e “virgindade” (em francês canadense).



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