a trombeta marina e o biniú acrobata


Collage de Pierre Rojanski para o livro O penal da noite [Le plumier de la nuit], de Hervé Delabarre (Deux Corps, 2011).


 

A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.


 

A “poesia” é inimiga da poesia — e vejam que as aspas evitam a aparente tautologia. Quando grafo “poesia” entre aspas estou marcando e me referindo a uma das expressões do estetismo literário, e acentuadamente retórico, que não passa de um passatempo, quando muito um pequeno e breve agrado aos sentidos e às faculdades mentais, que por certo move milhões em prêmios e festivais literários, mas que sobretudo contribui para sustentar personalidades ególatras com os palanques de seu pântano. Estas são algumas das razões da existência de uma série de mecanismos de circulação e, sobretudo, de comércio, que nada tem a ver com a poesia propriamente dita. Por sinal, é importante sublinhar aqui que a poesia — digamos, a verdadeira — não se restringe ao seu aspecto por vezes escrito ou verbal, que costuma ser o único contemplado por prêmios e coleções literárias.


Em várias ocasiões André Breton, designado por Aimé Césaire [1] como um “detector de poesia”, sinalizou a inflação do signo poético. Dentre estas, umas das mais significativas me parece quando nos anos 1960, como lembra Claude Courtot, ele alertou a alguns dos surrealistas do grupo de Paris que eles estavam submergindo em poemas, isto é, em pequenos construtos verbais pretensamente capacitores de poesia [2]. Se naquela ocasião o grupo surrealista de Paris, e o movimento surrealista como um todo, se encontrava sob a ameaça de uma enchente desta ordem, temos de notar que no interior das panelinhas literárias, onde as faíscas poéticas não somente são raríssimas como também costumam estabelecer uma relação inversamente proporcional com os poemas que deveriam permitir sua eclosão, este fenômeno é muito mais grave e flagrante. Sem querer fazer aqui um cálculo e tampouco uma analogia econômica para a qual meu conhecimento de Karl Marx, Adam Smith, Tocqueville e outros é muito limitado, poderíamos deduzir que justamente uma enchente como esta poderia estar diretamente relacionada à desvalorização do signo poético. Embora diga respeito a uma conjuntura diferente, algo daquela ameaça, sob a qual no início dos anos 1960 se encontrava o grupo surrealista de Paris, pode ser acompanhado atualmente em versão ad absurdum, como observamos na matéria “Instapoetas, o fenômeno que tirou a poeira da poesia [sic]”, publicada pela revista Veja, onde lemos que

“Com centenas de milhares de seguidores, os poetas do Instagram migraram para o papel e, rapidamente, chegaram à lista de best-sellers. Na comparação entre os meses de janeiro a agosto de 2017 com o mesmo período de 2018, os livros de poesia [sic] nacionais cresceram em venda 107%*, fenômeno diretamente causado pelos autores virtuais” [3]

Contudo, hoje e do nosso lado, existem alguns que, justamente pela sua aventura, são capazes de apresentar algo novo e de abrir seus abismos em nós, nos elevando “ao longo da catarata” [4], elevação que também poderíamos denominar poesia.


Ainda de acordo com Breton, dentre os principais poetas integrantes do movimento surrealista no pós-Segunda Grande Guerra — e poderíamos investigar o que caracteriza esta conjuntura, que deu à luz figuras brilhantes, porém obscurecidas pelo brilho de seus predecessores [5], a qual aliás, a partir do que afirma Alexandre Kojève, se estenderia até hoje [6] — encontram-se Jean-Pierre Duprey, Joyce Mansour e Guy Cabanel. Figuras cuja obra é profundamente marcada pela mensagem automática ou pelo automatismo, assim como o é Hervé Delabarre.


No prefácio “Elementos de prova”, que antecede A noite sucumbe de Hervé Delabarre, Alain Joubert conta que André Breton, um mês depois de receber o manuscrito Perigo à margem [Danger en rive], deixado por Delabarre na portaria do 42 Rue Fontaine no final de 1962, endereça uma carta a Hervé, dizendo:

“Eu adoro estes poemas que você me fez ler, o movimento que os anima é o único que considero apto a mudar a vida, seu ardor é aquilo que continuo a ter em mais alta conta”.

Essa afirmação de Breton nos interessa não somente pelas reflexões que ocasiona à luz do alerta referido anteriormente, o que poderia fornecer-nos um prisma para uma observação em detalhe da dialética praticada pelos surrealistas, mas que foge ao escopo desta apresentação. Ela é também muito interessante pois o “movimento (...) apto a mudar a vida” ao qual ele se refere é o da prática da escrita automática, que por tudo aquilo que traz de ganga e escória [7], poderia ser, pelo contrário, encarada como um método que provocaria uma produtividade excessiva, a qual justamente incorreria na manutenção do estado de coisas, estado decadente, diga-se de passagem. Essa produtividade exagerada incorreria forçosamente na desvalorização do signo e rarefação tanto do seu sentido quanto do seu potencial de maravilhamento [8]. Ou seja, poderíamos então supor que praticar a escrita automática seria jogar ainda mais água no caudal da enchente, contribuindo para a deflação e a baixa tanto do valor de face quanto do valor real do poético. No entanto, ao contrário daquilo que o senso comum parece crer, e ao que ele poderia induzir-nos mediante sua amplificação em rede, se a escrita automática está intimamente relacionada ao transbordamento e ao excessivo [9], ela não tem nada que ver com a facilidade do vale-tudo. Ou melhor: a escrita automática não é uma solução fácil para um problema difícil. Ela possui autonomia e busca, sim, uma espontaneidade que no ocidente estava há muito tempo soterrada e reprimida sob a parafernália das letras belatrinas, no cafarnaum dos racionalismos mais empedernidos e das religiões mais hediondas. Face a isso, sim, a escrita automática faz parte da busca por um fluxo que é o do voo amanteigado da borboleta [10], mas também o da violência das Cataratas do Iguaçu.


Além disso, o que é importante reforçar aqui é que a escrita automática não é um dado ou uma informação, mas objeto de uma conquista, cujo alcance exige uma ascese e uma Bildung, isto é, uma formação com ou pela imagem. Ou seja, a escrita automática e seus resultados são o topo de um enorme iceberg, a ponta visível de um cristal cuja maior parte do seu todo é apenas e sempre suposta, permanecendo inelutavelmente oculta junto à raízes, memórias e tesouros esquecidos. Somente apreendida dessa maneira a escrita automática pode devolver cintilações, como o faz o magma do manto terrestre, vindo à tona através de frestas e, sob a regência do acaso, alcançando o encontro na superfície em cristais de quartzo, ágatas, esmeraldas e outros minerais de grande valor que, depois de serem submetidos a altíssimas pressões e temperaturas, vem à luz graças ao achado [trouvaille]. Do contrário, a prática da escrita será apenas pretensamente automática, muito provavelmente consistindo em uma ação na qual a fantasia não corresponde à realização do fazer, e na verdade não passando de uma escrita no máximo espontânea. Com frequência o resultado disso é uma tediosa coleção de clichês “confessionais” ou um sapateado titubeante — ou como uma vez ouvi um amigo dizer sobre certos poemas, uma “ladainha confusa” — face aos bloqueios [11] que facilitam com que o sujeito evite a enunciação e a implicação, com todas as borboletas de sua barriga, naquilo que está sendo dito. É preciso ainda apontar que alguns dos mais afobados e mal-sucedidos coveiros que rondam o movimento surrealista se outorgam a condecoração de “surrealistas” para, ao que tudo indica, e dentre outras finalidades escusas, esconderem — e se esconderem de — suas deficiências e fazerem carreira sem trilharem um caminho, configurando-se assim paradoxalmente como traidores de um movimento do qual sequer fazem parte — e do qual inclusive jamais poderão fazer parte adotando atitudes como estas. Aliás, vale notar que estes traidores, ou melhor, sabotadores, até podem ser úteis para incitar à discussão e re-visão de vários pontos de tensão, desvio, desgaste ou mesmo falha de atuação no âmbito do movimento surrealista, embora aqui tenhamos de reforçar que eles são os grandes responsáveis por muitos dos piores momentos — se é que podemos qualificar isso de momento — da escrita desde sua invenção. Principalmente por produzirem e apresentarem como espetáculo uma enorme quantidade de resíduos e dejetos, que têm como consequência a interferência destrutiva e o ocultamento daquilo que é efetivamente digno de interesse e que deveria vir à luz e ser apresentado ao público no proscênio e em todo seu brilho, instigando ao enigma das coxias e, quem sabe, chamuscando cortinas e cílios.


Poderíamos elaborar aqui uma longa lista com exemplos de asneiras, das mais ridículas às mais vexatórias, publicadas e falsificadas com o selo de “surrealista”, mas não é o papel desta coluna servir de palco a isso. Aliás, como lembrava Gérard Legrand em 1977 no programa Apostrophes, nos anos 1930 Breton e Man Ray, sem renunciar a uma certa ironia refinada, diziam que o termo “surrealista” deveria ser empregado como selo de qualidade, da maneira com que faziam os filmes Paramount, onde um anúncio assegurava que aquele era “um filme Paramount” [12], isto é, um filme de qualidade [13]. Pelo contrário, infelizmente o que pode ser sentido hoje é que com frequência, ao encarar-se o surrealismo como uma hashtag — cuja cerquilha que o representa não por acaso evoca as grades de uma prisão —, o termo “surrealista” identifica algo de qualidade no mínimo duvidosa, quando não verdadeiros embustes, calúnias covardes, vale-tudo rasteiro e etc., o que não só é uma lástima e motivo de sentimentos reativos de ordem descendente, como também um sinal que indicaria a “sobrevivência do signo à coisa significada” [14]. No entanto, para nossa alegria, ainda são muitos os que naturalmente e graças ao seu compromisso com a vida e que o ela possui de mais exaltante mantém o surrealismo e o que é surrealista ardente e vigoroso em todo seu movimento.



Um destes é Hervé Delabarre, ferrenho e valente praticante da escrita automática. Em 2018, ao falar para o público presente no encerramento da exposição Le 22 mars 68, organizada pelo coletivo de artistas CoEF 180, na Maison Internationale des Poètes et des Écrivains de Saint Malo, ele a precisa da seguinte maneira: “ou a escrita automática se limita a um episódio de juventude, até mesmo de formação para alguns; ou segue como (...) um jogo que se produz de tempos em tempos; ou ela se torna uma presença constante e permanente — o que é o meu caso”.


É essa presença que eclode pulsante como fruto de uma aventura, de um caminho, de um transbordamento, de uma escuta de algo outro que finalmente encontra passagem naquilo que a angústia tem de “angosta” e que não retrocede nem diante de sabores amargos e nem face ao gozo mais vertiginoso. O interior e o exterior se interpenetram e eis o acontecimento da escrita automática, seguindo-se a ela a abertura da possibilidade de cristalização [15] de algo novo e inédito — de uma potência inaudita. No entanto, esta realização exige do leitor um compromisso correspondente, para que de fato o circuito se feche, as luzes se acendam e a correia de transmissão seja ativada, trazendo consigo todas as gamas da luz e da escuridão, como uma revoada de borboletas no lusco-fusco.


A meu ver, é isso o que Hervé Delabarre consegue alcançar com A trombeta marina e o biniú acrobata, publicado em 2017 no volume A noite sucumbe [La nuit succombe] pela editora Les Hommes sans Épaules — dirigida pelo também poeta Christophe Dauphin —, e que traduzimos e apresentamos pela primeira vez em português aqui nest’A Fresta.


O que vemos neste escrito é, no interior do fio vermelho da narrativa, as “palavras sem linhas” [16] numa espécie de ziguezague entomológico que evoca a dupla-hélice do código genético apontando para as raízes e para aquilo que de misterioso e original [ursprünglich] carregamos em nós e nos nós de nosso navio.


Porém, antes de seguirmos adiante com A trombeta marina e o biniú acrobata, gostaríamos de registrar que, ao ser interpelado por Annie Robine naquela mesma exposição Le 22 mars 68, que mais uma vez coloca a questão: “O surrealismo, então, como você o definiria? (...)”, pergunta que os próprios surrealistas se fazem desde o início do movimento, Delabarre prontamente responde, não sem uma risada prológologica: “para mim é muito simples, surrealista é antes de mais nada uma maneira de ser, uma maneira de viver a existência (...)” [17].


Natan Schäfer

Abril de 2022

 

A trombeta marina e o biniú [18] acrobata Hervé Delabarre


Quebramos como um pretzel, damos um nó como a uma gravata, lambemos como a uma ânfora e transforma o dia em noite, o que é o que é?


Diante de um tal enigma, o Sir de Baradel ficou grogue, ou quase, a ponto de limpar sua lâmpada com a aba de um penhoar, último alívio da noite, perguntando a si mesmo se mais uma vez a sombra iria fazer companhia às garras morenas ou loiras, mais frequentemente ruivas, emergindo das ruínas, dos escombros de templos, de igrejas e de mesquitas que, como larvas, abrem caminho em meio às cabeleiras derramadas no mármore dos balcões onde os tinteiros haviam-nas precedido e liberado a tinta de suas vertigens. Existe algo mais triste do que um dia sem castigo, do que uma hora abandonada junto a uma ave de rapina, quando o sangue começa a investir os locais de prazer perante os quais, lembrava-se o Sir, Olímpia, mais majestosa do que nunca, entretinha sua fome? Mas o que há também de mais voluptuoso do que quando ela decidia sorrir? De verdade, o que há de mais voluptuoso?


Enquanto esperava, a via havia adquirido a tez dos abatedouros, ao que as roupas de baixo femininas ainda crepitavam, destilando um perfume de orgia. E o Sir não se surpreendeu ao ver que sob tais clarões o cavaleiro Bayard vinha em sua direção, agitando uma escumadeira que uivava, demência adquirida, com todos seus olhos, perversos ou não, de qualquer modo similares aos da Górgona com a qual o cavaleiro desde sempre mantinha estranhas relações. Quantos palavrões, quantas sentenças de colocarem os interfones aos berros! Nos altares as torrentes só ofereciam sacrifícios.


Depois desses séculos passados e suas últimas aventuras, com aqueles cachos amados e os velos que glorificavam suas bocas e desde então não cessavam de acompanhar-lhes, era possível ouvir vindo como um vago ritornelo, como uma suspeita de um lai [19] bretão pronto para deixar-se esvair feito uma lembrança, nobres donzelas cujos nomes, que pena!, não evocavam mais nada e sem que a rima, de uma asa à outra, estivesse aí para alguma coisa e sem que um velho calvário nos arredores de Guimiliau viesse acordar-lhes, apesar de todas aquelas gavotas [20] que deveriam ter feito os ossos estralarem e saltarem.


Ao aproximar-se do Sir, o cavaleiro concordou, afinal ele mesmo não tinha pego os últimos brilhos do Bósforo para arrastá-los atrás de si? Não tinha pego para si todos os quilates do Nilo? Sua glande engastada de joias merecia mais do que um retoque de arrependimento. “E depois, disse ele, a gente sempre precisa de um pouco de sonho para apimentar os olhos”. Quanto à resolução do enigma que o Sir acabava de expor-lhe, ele se esforçava em responder, consultando para isso o raio de sol que tinha escondido no bolso desde que havia renunciado ao monóculo, uma vez que este último havia se mostrado incapaz de reproduzir em seu hemiciclo os carneiros do mar e seu balido.


“Poderia ter sido, disse ele, o ancestral do tromblom ou do trabuco [21], a menos que se trate de um cofrinho pronto para gravar os vícios e iniciar os Noturnos de Chopin ou, aliás, com o jogo das línguas, ou ainda de uma rede-fole lançada numa poça em algum lugar perto de Saint-Malo, para capturar o belo rosto de uma mulher que ainda não nascera mas que talvez um dia atenderia pelo nome de Beyla [22].


— Ah, Beyla, Beyla! Sempre adoro tanto esses pezinhos que você tem, e você também, acariciados e debaixo dos quais às vezes você se compraz em ser dominada. Sabia que conservei seu sapatinho que me acompanhava?, certamente você não se esqueceu dele, do tempo em que eu praticava atletismo quando, de sua parte, você adulava sem vergonha o cavalo com alças, sob o olhar, é verdade, de uma imponente halterofilista cujos peitorais amplamente abertos facilitavam teu voo. Mas abandonemos todas essas façanhas passadas aos profetas e aos seus adeptos que vão se sucedendo um atrás do outro com a Bíblia, o Corão, a Torá, e a parafernália toda. Esperemos que eles saibam tirar partido disso, felizes de morrer, bem quando Joana D’Arc vai tratar de deixar seus desejos se arrepiarem sobre um balcão herdado de Ingres, onde o fio de sua espada faz os desnudados cantarem, acompanhados pelo coral perfumado das calcinhas fio-dental. Por mais atraente que pareça sua sugestão, no entanto duvido que seja essa a solução para o enigma. De minha parte, pensei que poderia tratar-se de um penhoar, especialmente concebido para manter as estrelas no aveludado da pele, tendo por única partitura as lágrimas mais musicais que nunca, debulhadas a facadas. De algum modo, a melopeia dos dedos no corpo branco de Joana.


— De fato, reconheceu Bayard, isso me daria uma grande satisfação, mas novamente acho que você está meio lírico demais e, não tenhamos medo das palavras, alguns até mesmo acrescentariam poético. Isso é um insulto ou não? Como estamos falando de tiques, poderíamos dizer que tudo depende da linguística, que alguns estudiosos continuam a reivindicar, amantes do Verbo que fazem cair dos seus babadores palavras mais ressequidas que tolete em ânus constipado, para sempre privados de emoção. Mas fiquemos por aqui com a diversão. O melhor, mais uma vez, seria interrogar Olímpia, que infelizmente perdemos de vista há algum tempo, talvez muito ocupada brincando de pega-pega com os fantasmas no escuro, ou então enriquecendo sua coleção de incestos para decorar as paredes de seus quartos.

— Nós a reencontraremos, pode ter certeza; morrer sem ela não é possível.

— Quanto a isso não tenho mais dúvidas do que você. Não faz muito tempo, percorrendo uma loja de quinquilharias usadas [23], depois de encontrar inopinadamente uma roda de bicicleta e um aquário, enquanto um abridor de latas aureolado tentava se enfiar na minha lapela, descobri um livro antigo espremido entre uma bigorna e um chapéu que deve ter servido de cestinha para trocados e chaves. Seu título, “Olímpia”, me interpelou de repente. Que piscadela satânica para condenar o santo que não sou! Se ela ainda estivesse viva, minha mãe ia ter engolido a língua, o que eu logo teria retido na memória com avidez. Como você bem imagina, assim espero, o título me havia simplesmente levado, ainda que para isso eu tenha de por minha vez convocar o lirismo, ao caminho dos astros. E sigamos adiante!


— Meu caro Bayard, levarei minha mão comigo para que ela seja lida, mas não vou deixar cortarem-na [24].


— Não lhe peço tanto; quero somente ver você estrear os sonhos do primeiro amante.


— Que será também o último, se eu acreditar no juramento de Olímpia quando, venerada por garras e celebrada, é claro, por Joana, desde sempre ocupada em oficiar em suas gavetas para aí saborear diversos assuntos, ela se entrega ao olhar desesperado dos adolescentes na noite das criptas.


— Mas seus lábios de todos os tempos não continuaram a ensinar-nos seu saber?


— Até se perderem nas ondas.


— Até naufragarem descaradamente.


— Que continue assim, belo Sir, mesmo que eu tenha cada vez mais dificuldades em caminhar direito. Ando claudicando tanto que os rasgos do céu não mais amontoam sobretudos sobre si. Eis que me tornei um rival de Lord Byron ou de Mefisto.

— E eu, então! Mal e mal ainda sou capaz de voar, como você pode notar. Enquanto outrora eu tirava sarro das nuvens, agora se me elevo um centímetro ou dois caio logo em seguida.


— De fato, e é bem por isso que se nos entregamos a uma lógica, seja ela a mais incontestável, os cavalos de madeira vão se parecendo cada vez mais com catacumbas.


— E também é por isso que não estão mais aí aquelas raposas velhas mercenárias para incensar freiras e ensaboar a virtude, ainda que conferissem à sua chaga o que é necessário de benção.


— De fato, constatei isso com frequência.


— É então que a noite bate em minha porta, que o oceano que cai do teto resolve proclamar minha morte, e que em cada quebra-mar uma criança nua está a caminho para afeiçoar-se e proclamar meu nome. Quase tinha esquecido da pequena Hervine [25], de Chateaubriand, que por ocasião das marés montantes, arrastando violência e carícia, teria podido tornar-se a companheira do sedutor rapazinho que eu fora, ainda que ocultada nas Memórias do grande homem.

— Também me acontece de conhecer tais momentos e devemos a eles a partilha de uma mesma emoção, a comunhão, meu caro, a comunhão!


— As trevas então deslizam sobre nossos ombros e fazem as mortalhas cantarem, talvez até mesmo os saca-rolhas, isso com Joana, que veio juntar-se a nós e cobrir-nos com sua saliva.