a trombeta marina e o biniú acrobata

Atualizado: 10 de ago.


Collage de Pierre Rojanski para o livro O penal da noite [Le plumier de la nuit], de Hervé Delabarre (Deux Corps, 2011).


 

A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.


 

A “poesia” é inimiga da poesia — e vejam que as aspas evitam a aparente tautologia. Quando grafo “poesia” entre aspas estou marcando e me referindo a uma das expressões do estetismo literário, e acentuadamente retórico, que não passa de um passatempo, quando muito um pequeno e breve agrado aos sentidos e às faculdades mentais, que por certo move milhões em prêmios e festivais literários, mas que sobretudo contribui para sustentar personalidades ególatras com os palanques de seu pântano. Estas são algumas das razões da existência de uma série de mecanismos de circulação e, sobretudo, de comércio, que nada tem a ver com a poesia propriamente dita. Por sinal, é importante sublinhar aqui que a poesia — digamos, a verdadeira — não se restringe ao seu aspecto por vezes escrito ou verbal, que costuma ser o único contemplado por prêmios e coleções literárias.


Em várias ocasiões André Breton, designado por Aimé Césaire [1] como um “detector de poesia”, sinalizou a inflação do signo poético. Dentre estas, umas das mais significativas me parece quando nos anos 1960, como lembra Claude Courtot, ele alertou a alguns dos surrealistas do grupo de Paris que eles estavam submergindo em poemas, isto é, em pequenos construtos verbais pretensamente capacitores de poesia [2]. Se naquela ocasião o grupo surrealista de Paris, e o movimento surrealista como um todo, se encontrava sob a ameaça de uma enchente desta ordem, temos de notar que no interior das panelinhas literárias, onde as faíscas poéticas não somente são raríssimas como também costumam estabelecer uma relação inversamente proporcional com os poemas que deveriam permitir sua eclosão, este fenômeno é muito mais grave e flagrante. Sem querer fazer aqui um cálculo e tampouco uma analogia econômica para a qual meu conhecimento de Karl Marx, Adam Smith, Tocqueville e outros é muito limitado, poderíamos deduzir que justamente uma enchente como esta poderia estar diretamente relacionada à desvalorização do signo poético. Embora diga respeito a uma conjuntura diferente, algo daquela ameaça, sob a qual no início dos anos 1960 se encontrava o grupo surrealista de Paris, pode ser acompanhado atualmente em versão ad absurdum, como observamos na matéria “Instapoetas, o fenômeno que tirou a poeira da poesia [sic]”, publicada pela revista Veja, onde lemos que

“Com centenas de milhares de seguidores, os poetas do Instagram migraram para o papel e, rapidamente, chegaram à lista de best-sellers. Na comparação entre os meses de janeiro a agosto de 2017 com o mesmo período de 2018, os livros de poesia [sic] nacionais cresceram em venda 107%*, fenômeno diretamente causado pelos autores virtuais” [3]

Contudo, hoje e do nosso lado, existem alguns que, justamente pela sua aventura, são capazes de apresentar algo novo e de abrir seus abismos em nós, nos elevando “ao longo da catarata” [4], elevação que também poderíamos denominar poesia.


Ainda de acordo com Breton, dentre os principais poetas integrantes do movimento surrealista no pós-Segunda Grande Guerra — e poderíamos investigar o que caracteriza esta conjuntura, que deu à luz figuras brilhantes, porém obscurecidas pelo brilho de seus predecessores [5], a qual aliás, a partir do que afirma Alexandre Kojève, se estenderia até hoje [6] — encontram-se Jean-Pierre Duprey, Joyce Mansour e Guy Cabanel. Figuras cuja obra é profundamente marcada pela mensagem automática ou pelo automatismo, assim como o é Hervé Delabarre.


No prefácio “Elementos de prova”, que antecede A noite sucumbe de Hervé Delabarre, Alain Joubert conta que André Breton, um mês depois de receber o manuscrito Perigo à margem [Danger en rive], deixado por Delabarre na portaria do 42 Rue Fontaine no final de 1962, endereça uma carta a Hervé, dizendo:

“Eu adoro estes poemas que você me fez ler, o movimento que os anima é o único que considero apto a mudar a vida, seu ardor é aquilo que continuo a ter em mais alta conta”.

Essa afirmação de Breton nos interessa não somente pelas reflexões que ocasiona à luz do alerta referido anteriormente, o que poderia fornecer-nos um prisma para uma observação em detalhe da dialética praticada pelos surrealistas, mas que foge ao escopo desta apresentação. Ela é também muito interessante pois o “movimento (...) apto a mudar a vida” ao qual ele se refere é o da prática da escrita automática, que por tudo aquilo que traz de ganga e escória [7], poderia ser, pelo contrário, encarada como um método que provocaria uma produtividade excessiva, a qual justamente incorreria na manutenção do estado de coisas, estado decadente, diga-se de passagem. Essa produtividade exagerada incorreria forçosamente na desvalorização do signo e rarefação tanto do seu sentido quanto do seu potencial de maravilhamento [8]. Ou seja, poderíamos então supor que praticar a escrita automática seria jogar ainda mais água no caudal da enchente, contribuindo para a deflação e a baixa tanto do valor de face quanto do valor real do poético. No entanto, ao contrário daquilo que o senso comum parece crer, e ao que ele poderia induzir-nos mediante sua amplificação em rede, se a escrita automática está intimamente relacionada ao transbordamento e ao excessivo [9], ela não tem nada que ver com a facilidade do vale-tudo. Ou melhor: a escrita automática não é uma solução fácil para um problema difícil. Ela possui autonomia e busca, sim, uma espontaneidade que no ocidente estava há muito tempo soterrada e reprimida sob a parafernália das letras belatrinas, no cafarnaum dos racionalismos mais empedernidos e das religiões mais hediondas. Face a isso, sim, a escrita automática faz parte da busca por um fluxo que é o do voo amanteigado da borboleta [10], mas também o da violência das Cataratas do Iguaçu.


Além disso, o que é importante reforçar aqui é que a escrita automática não é um dado ou uma informação, mas objeto de uma conquista, cujo alcance exige uma ascese e uma Bildung, isto é, uma formação com ou pela imagem. Ou seja, a escrita automática e seus resultados são o topo de um enorme iceberg, a ponta visível de um cristal cuja maior parte do seu todo é apenas e sempre suposta, permanecendo inelutavelmente oculta junto à raízes, memórias e tesouros esquecidos. Somente apreendida dessa maneira a escrita automática pode devolver cintilações, como o faz o magma do manto terrestre, vindo à tona através de frestas e, sob a regência do acaso, alcançando o encontro na superfície em cristais de quartzo, ágatas, esmeraldas e outros minerais de grande valor que, depois de serem submetidos a altíssimas pressões e temperaturas, vem à luz graças ao achado [trouvaille]. Do contrário, a prática da escrita será apenas pretensamente automática, muito provavelmente consistindo em uma ação na qual a fantasia não corresponde à realização do fazer, e na verdade não passando de uma escrita no máximo espontânea. Com frequência o resultado disso é uma tediosa coleção de clichês “confessionais” ou um sapateado titubeante — ou como uma vez ouvi um amigo dizer sobre certos poemas, uma “ladainha confusa” — face aos bloqueios [11] que facilitam com que o sujeito evite a enunciação e a implicação, com todas as borboletas de sua barriga, naquilo que está sendo dito. É preciso ainda apontar que alguns dos mais afobados e mal-sucedidos coveiros que rondam o movimento surrealista se outorgam a condecoração de “surrealistas” para, ao que tudo indica, e dentre outras finalidades escusas, esconderem — e se esconderem de — suas deficiências e fazerem carreira sem trilharem um caminho, configurando-se assim paradoxalmente como traidores de um movimento do qual sequer fazem parte — e do qual inclusive jamais poderão fazer parte adotando atitudes como estas. Aliás, vale notar que estes traidores, ou melhor, sabotadores, até podem ser úteis para incitar à discussão e re-visão de vários pontos de tensão, desvio, desgaste ou mesmo falha de atuação no âmbito do movimento surrealista, embora aqui tenhamos de reforçar que eles são os grandes responsáveis por muitos dos piores momentos — se é que podemos qualificar isso de momento — da escrita desde sua invenção. Principalmente por produzirem e apresentarem como espetáculo uma enorme quantidade de resíduos e dejetos, que têm como consequência a interferência destrutiva e o ocultamento daquilo que é efetivamente digno de interesse e que deveria vir à luz e ser apresentado ao público no proscênio e em todo seu brilho, instigando ao enigma das coxias e, quem sabe, chamuscando cortinas e cílios.


Poderíamos elaborar aqui uma longa lista com exemplos de asneiras, das mais ridículas às mais vexatórias, publicadas e falsificadas com o selo de “surrealista”, mas não é o papel desta coluna servir de palco a isso. Aliás, como lembrava Gérard Legrand em 1977 no programa Apostrophes, nos anos 1930 Breton e Man Ray, sem renunciar a uma certa ironia refinada, diziam que o termo “surrealista” deveria ser empregado como selo de qualidade, da maneira com que faziam os filmes Paramount, onde um anúncio assegurava que aquele era “um filme Paramount” [12], isto é, um filme de qualidade [13]. Pelo contrário, infelizmente o que pode ser sentido hoje é que com frequência, ao encarar-se o surrealismo como uma hashtag — cuja cerquilha que o representa não por acaso evoca as grades de uma prisão —, o termo “surrealista” identifica algo de qualidade no mínimo duvidosa, quando não verdadeiros embustes, calúnias covardes, vale-tudo rasteiro e etc., o que não só é uma lástima e motivo de sentimentos reativos de ordem descendente, como também um sinal que indicaria a “sobrevivência do signo à coisa significada” [14]. No entanto, para nossa alegria, ainda são muitos os que naturalmente e graças ao seu compromisso com a vida e que o ela possui de mais exaltante mantém o surrealismo e o que é surrealista ardente e vigoroso em todo seu movimento.