a vanguarda da presença

Atualizado: 2 de mar.


Arte por Fabian Gibim
 
 

A Vanguarda da Presença [1]

[…]

A dialética da história é tanta que a vitória teórica da Internacional Situacionista já está forçando seus adversários a se auto-determinarem como situacionistas. Duas tendências principais podem agora ser distinguidas na iminente revolta contra nós: por parte daqueles que se auto-proclamaram situacionistas sem ter ideia do que estão fazendo (as variantes do Nashism[2]) e aqueles que, ao contrário, decidem adotar algumas ideias situacionistas e ignorar o próprio situacionismo, sem jamais mencionar a Internacional Situacionista. A crescente probabilidade de confirmação de algumas das mais simples e menos recentes de nossas teses leva muitas pessoas a aspectos convenientes de uma ou outra tese sem ter reconhecimento de seu todo orgânico. Não estamos aqui, claramente, preocupados em obter reconhecimento ou crédito pessoal. O único interesse em apontar essa tendência é denunciar um aspecto crucial dela: quando estas pessoas se valem de nossas teses para finalmente falar de um novo problema (depois de tê-lo suprimido o quanto puderam), elas inevitavelmente as banalizam, erradicando sua violência e sua articulação com a subversão geral, desarmando-as e subtendo-as à dissecação acadêmica ou pior. Esta é a razão pela qual sentem a necessidade de suprimir qualquer menção à Internacional Situacionista.

[…]

Jogo livre confinado no terreno da dissolução artística é apenas cooptação do jogo livre. Na primavera de 1962 a imprensa começou a relatar os happenings produzidos por alguns dos artistas de vanguarda de Nova York. O happening destes artistas é um tipo de espetáculo elevado ao extremo estado de dissolução, uma improvisação vagamente dadaísta de gestos performados por uma reunião de pessoas num espaço confinado. Drogas, álcool e erotismo são frequentemente envolvidos. Os gestos dos “atores" aspiram por um encontro entre a poesia, a pintura, a dança e o jazz. Essa forma de encontro social pode ser considerada uma instância do antigo espetáculo artístico elevado ao extremo, um haxixe produzido à partir da união de todas as velhas sobras artísticas; ou como uma tentativa esteticamente demasiado grave de renovar a festa surpresa comum ou a orgia clássica. Em seu impulso ingênuo de "fazer algo acontecer", sua ausência de espectadores desvencilhados do happening e seu desejo de animar (embora muito fracamente) as dimensões empobrecidas das relações humanas atuais, este happening pode até ser considerado como uma tentativa de construir uma situação isolada sob uma base de pobreza (a pobreza material, a pobreza dos encontros, a pobreza herdada do espetáculo artístico e a pobreza da “filosofia" que consideravelmente tenta “ideologizar” a realidade desses eventos). Em contraste, as situações definidas pela internacional Situacionista apenas podem ser construídas sobre uma base de riqueza material e espiritual. Isso significa dizer que prioritariamente a construção de situações deve ser o trabalho/jogo da vanguarda revolucionária; pessoas que renegam de todas as formas à passividade política, ao desespero metafísico, ou mesmo a serem submetidas a uma arte de total não-criatividade e são incapazes de participar delas.

[…]

As pessoas nos insistem em apresentar projetos triviais que seriam úteis e convincentes. Mas por que deveríamos estar interessados em convencê-los? Em todo caso, se tentássemos os obrigar, eles imediatamente virariam esses projetos contra nós, seja os alegando como provas de nosso utopismo, seja correndo para disseminar versões diluídas deles. Na verdade, aqueles que estão interessados e satisfeitos com tais projetos distorcidos e parciais podem solicitá-los para quase qualquer outra pessoa, mas não a nós. Nós reivindicamos que uma revolução cultural fundamental não será provocada por uma acumulação de mudanças de detalhes, mas apenas em sua totalidade. Nós obviamente estamos em uma boa posição para descobrir, alguns anos à frente de outras pessoas, todos os potenciais artifícios da atual decomposição cultural extrema. Como estes artifícios são úteis apenas para o espetáculo de nossos inimigos, nós apenas fazemos algumas anotações sobre eles e os mandamos para longe. Muitos deles eventualmente são descobertos de forma independente por uma pessoa ou outra e ostensivamente são lançados no mercado. Porém, a maioria deles ainda não foi “flagrada" pela história. Talvez, alguns deles nunca o sejam. Este não é simplesmente um jogo, é mais uma verificação experimental de nossas perspectivas.

Nós acreditamos que a arte moderna, de qualquer forma que possa ser verdadeiramente crítica e vanguardista em todas as condições de sua manifestação, cumpriu o seu papel de enorme importância; e que, apesar da especulação sobre seus produtos, ela ainda é detestada pelos inimigos da liberdade. Basta notar o medo que ela inspira até hoje entre os governantes cautelosamente des-Stalinizadores, como eles entram em pânico ao menor sinal de seu reaparecimento em seu domínio após anos de total repressão. Eles a denunciam como um vazamento em sua ideologia, pois seu poder depende do monopólio de informação dessa ideologia em todos os níveis. Mas as pessoas do Ocidente que lucram com prolongamentos respeitosos e reavivamentos artificiais dos empreendimentos culturais que foram bloqueados há muito tempo, são os verdadeiros inimigos da arte moderna. Nós somos seus únicos herdeiros.

Somos contrários às formas convencionais de cultura, mesmo em seu estado mais moderno; mas obviamente não somos favoráveis à ignorância, o neoprimitivismo ou o senso comum pequeno-burguês. Estas são atitudes anti-culturais que favorecem um retorno impossível para os mitos antigos. Contra essas correntes nós, naturalmente, nos posicionamos a favor da cultura. Nós nos posicionamos no outro lado da cultura. Não diante dela, mas além dela. Afirmamos que é necessário materializar a cultura, superando-a como uma esfera separada; não apenas como um domínio reservado a especialistas, mas sobretudo como um domínio de uma produção especializada que não afeta diretamente a construção da vida - nem mesmo a vida de seus próprios especialistas.

Não nos falta completamente humor; mas nosso humor é de um tipo bastante novo. Se alguém quer saber como abordar nossas teses, sem entrar nos pontos refinados e sutilezas, a atitude mais simples e apropriada é nos levar completamente a sério e de forma literal. Como vamos falir a cultura dominante? De duas maneiras. Gradualmente no início, e aí então, repentinamente.[3]

INTERNACIONAL SITUACIONISTA, 1963 Tradução de Fabiana Gibim.

 

NOTAS: [1] “The Avant-Garde of Presence”: o artigo começa com uma resposta à Lucien Goldmann, que referiu-se a artistas niilistas de maior ou menor teor (Beckett, Ionesco, etc.) como uma “vanguarda da ausência”, no original “avant-garde of absence”. [2] “Nashism” é uma derivação da Internacional Situacionista cujo nome remete ao Jørgen Nash. É um termo utilizado de forma pejorativa para denominar aqueles que eram acusados de usar sua conexão com a Internacional Situacionista para beneficiar suas carreiras pessoais. [3] Esta linha foi adaptada de uma passagem de “O sol também se levanta” de Hemingway. (Capítulo 13) "L'avant-garde de la présence" foi publicada originalmente na Internationale Situationniste #8 (Paris, janeiro de 1963).

 

Conheça o canal no youtube da sobinfluencia edições:


41 visualizações0 comentário