acerca de guy girard

Atualizado: há 4 dias



Collage colaborativa entre Guy Girard e o Grupo Surrealista de Atlanta.



Conheci pessoalmente Guy Girard em Paris, mais precisamente em Saint-Ouen, na vernissage da exposição A fotografia surrealista em 2020, na galeria Amarrage. Foi ali que à noite, ao fundo da galeria colaborativa, vi aquele sujeito de meia idade, costeletas curtas e bastas e pequenos olhos intensamente azuis usando um suéter preto de gola-alta. De fato, Guy tem algo de pássaro. Quando me apresentei ele logo me disse ter suspeitado que eu fosse um outro desconhecido que ali estava e que vim a conhecer naquele mesma noite, o tradutor Guillaume Contré. Depois de um desencontro em 2019, por conta de dois cafés chamados Café des Dames, eu então conhecia em carne e osso Guy Girard, hoje um dos principais animadores do grupo de Paris do movimento surrealista e organizador de Por uma insubmissão poética.


No dia seguinte, passeando comigo pelo mercado de pulgas de Saint-Ouen, Guy falava baixo e apontava aqui e ali, carregando debaixo do braço uma pastinha na qual eu podia ver alguns caracteres de suas escrita cursiva escapando pelas bordas, escritos que até hoje suponho serem indícios e anotações de alta poesia. Recupero essa memória pois Guy parece ter sabido fundir suas paixões, manias, fixações e aventuras mentais no forno de uma aventura maior, que é a aventura surrealista. Suponho que foram estas convergências que fizeram com que nos encontrássemos e o que possibilitou que o Por uma insubmissão poética cruzasse o atlântico, agora vindo à luz sob os cuidados da editora Sobinfluência e se expressando como uma confluência de desejos e de diferenças vibrantes. Como afirma Jean-Pierre Lassalle, Guy é um dos poucos que ainda vivem no seio do cometa surrealista. Porém, mais do que um epígono ou aluno exemplar, Guy é um daqueles que sustenta a chama, conduzindo-a adiante enquanto se apresenta como um ermitão e faroleiro em meio às tempestades de alto mar.


Aos críticos e autocríticos sempre alertas, dentre os quais pretendo me encontrar, anoto que aqui, neste breve texto, não me cabe discutir em minúcia as atitudes e posições assumidas por Guy Girard ao longo de sua trajetória, tampouco me compete tecer um longo panegírico ovacionando sua atuação. Importa, sim, de alguma maneira situar, a partir de minha experiência, este sujeito nascido em 1959 em Flamanville, na Normandia, que até hoje às vezes sonha com o mar e que tem um percurso e um perfil talvez similar ao de muitos que virão a encontrar-se com a insubmissão poética surrealista e seus panfletos. Isto é, situá-lo como aquele que também foi um jovem do interior que por algum misterioso motivo em algum misterioso momento começou a buscar e se aventurar pelos enigmas da vida — se é que neste caso podemos falar em começo —, encontrando primeiramente naquilo que se convencionou denominar “artes” uma fonte, para logo em seguida encontrar também ali — e mais adiante e mais acima — a sede e sede de mais.


De certa maneira este caminho guarda semelhanças com o de André Breton, Benjamin Péret, Murilo Mendes, Marianne Van Hirtum, com o meu e talvez com o seu também. Ou seja, o caminho daqueles que se debruçam nos abismos da origem, questionando e rompendo com uma certa linha ou linhagem para afirmar outras raízes pulsantes, assim se estabelecendo de maneira diversa e colocando em xeque uma série de valores que se organizam numa tábua rasa e carcomida que, diferentemente da Smaragdina, costuma deixar farpas angustiantes nas mais delicadas e calejadas mãos — porém algumas têm pólvora na ponta. Pois que agora com elas alimentemos as chamas.

Natan Schäfer
Junho de 2022