alguns laços de imagia - parte II

Atualizado: 30 de jun. de 2021




A Fresta é uma coluna — uma colinade periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores. Por Natan Schäfer



 

O texto abaixo é a segunda parte da discussão publicada por Robert Guyon (Lyon, 1941) no segundo número da revista L’Archibras, em outubro de 1967. Neste texto, Guyon dá continuidade à reflexão sobre a imagem e o pensamento analógico, colocando em primeiro plano o potencial transformativo e libertador da poesia.


 

Alguns laços de imagia [continuação]


FAÇA O FAVOR DE CONFUNDÍ-LOS POR UM INSTANTE.

Nos olhares baudelairianos, concentrados com emoção na contemplação de uma dália azul ou animados pelos afluxos contínuos do poente ao nascente sinfônicos, brilha esta flor selvagem, peculiar àqueles para quem as coisas não são nada antes de serem confrontadas na balança analógica. Uma avaliação destas conta: trata-se da questão de saber se é preciso orquestrar as imagens da mais curta ou da mais longa faísca. Em favor da segunda, depositemos o Convite à viagem entre as páginas da pasta transparente na qual forja-se, às vista de alguns, a chave de sua relação secreta. Os poetas amam o metal, mesmo que hesitem um pouco quanto ao seu uso. Pelo menos eles concebem o “além nupcial” aberto por ela como uma ideia muito mais orgulhosa, por não tomar como extremamente suspeito o casamento precoce das palavras. A busca pela confusão harmoniosa de dois termos faz decair a atividade poética no domínio comum, aquele dos coitados que crêem em seus olhos, que veem estas frondes, estas pradarias e estas florestas dedicadas e devotadas ao signo do verde, enquanto elas não parecem o que elas são na verdade: amarelo e azul. As imagens fortes ao contrário declaram sua dependência em um ponto superior do espírito, onde elas lançam seus amorosos paralelos. E na zona encantada que elas aí delimitam, o advérbio como não tem objetiva neutralizar seus termos em uniões tão vivas quanto efêmeras, mas impregnar cada um destes termos com propriedades do outro, ao qual ele não poderia assimilar-se antes que da sua vizinhança não tenha sido emitido o milésimo eco possível. Assim, como toda comparação, como lembra Octavio Paz, “leva a pluralidade do real à unidade”. A meu ver, há na implicação oculta desta fórmula o conhecimento de certas comunicação de Eliphas Lévi:

“O movimento e a vida consistem na tensão extrema (de) duas forças… A revelação é o binário; todo verbo é duplo e supõe dois… A unidade manifesta-se somente pelo binário…”

Retenhamos que a atitude poética elabora-se inteiramente na dualidade. “Chamo de tabaco o que é orelha”, declara Bénjamin Péret. O maravilhoso aqui não é que as palavras partilham uniformemente sua significação, mas que conservando sua significação própria elas também participam do sentido de qualquer outra palavra. Vejam que abraços de uma página à outra do dicionário! O ato amoroso na linguagem começa em estado de listas alfabéticas, contanto que, com todas as virtudes da imaginação amordaçadas, o poeta esteja disposto a deixar estender nele o império de alguma coisa que detém o poder de grande trânsito, de potência intercessora. Esta alguma coisa um dia nos responderá com muita inteligência. Uma tal alavanca, capaz de erguer o mundo inteiro, aciona-se no prolongamento do produto das associações de palavras. Ah, não maior que o amor humano, este das palavras nos propõe acasalamentos que são em todos os sentidos exemplares. Se não esperamos nada na medida dos seus encontros, é porque um grande luar jorra de seus arredores analógicos. Mas este luar é muito itinerante. Podemos constatar. Está fora de questão submetê-lo. Acalma-se a esperança de que as imagens toquem a unidade servindo-lhe de medida. As palavras dormem. Levadas a uma determinada altura, acordam, munindo o homem do dom da verdadeira palavra. Mais alto fica claro que nos falta um degrau e que somente um último salto libertador pode elevar- nos ao patamar de onde podemos cingir num só golpe de vista todo campo mental.

É verdade que o essencial é que o sentido de um afrontamento entre todas as realidades, que a juventude orgulha-se erguendo como lei universal, foi inesquecivelmente sentido aqui e acolá. Eu repito: a imaginação é uma das invenções mais refinadas, destinada a derrubar o silêncio no banquete de imagens no qual qualquer um deve poder sentar-se, desde que adivinhe que estas festividades consomem as frutas de um longo comércio, que as antinomias são um oásis e que fazem imagem quando nossa sonhação parte em caravana. O meio medíocre no qual evoluímos é uma miragem. Ele só encontra realidade quando começa a perdê-la para partilhá-la com outra coisa. O céu não é nada para mim. O céu indisciplina-se do azul ao verde-bêbe celulóide. O céu me é. Até quando os arbustos aquáticos vão ficar abrindo os olhos das marmotas em suas moradias sublimes? Até quando as ruas sem ódio a partir do momento em que circula o carro vermelho bicudo, reversivelmente tanto no que diz respeito aos estudos das metrópoles quanto ao estudos de alhures, por não mais muito tempo na periferia? Até quando os espelhos assim como a presa do verso e do reverso como a combustão dos beijos de uma parte e outra dos lábios, que me oferecerão o posto de Sem Reserva para a tradução reservada? Até quando a seca verdadeiramente seca se seu passado pode ser o futuro do mar? A luz verdadeiramente luz no momento que seu passado recobre toda a noite? Você verdadeiramente você: seu presente bem que era o futuro do raio…

Houve um modo em literatura: os romances de formação. Seus heróis passavam vinte e cinco anos de sua vinda perguntando em quais uniformes iriam mostrar-se. E que uniformes! Eu, que sobre a educação (deles) não consigo fazer-me uma ideia mais lisonjeira do que a atribuição de peles sob as quais os educadores criam o bicho social com dignidade de cidadão, ainda assim eu sou mais sensato do que eles. Eu sei que se não aprendo a ver, por exemplo, em um objeto tão anódino quanto uma mesa outra coisa que uma mesa, eu não teria feito nada para desfazer esta conjuração de todas as coisas e de todos os seres, graças ao que tentam fazer-me endossar o costume miserável de identificação de realidades. Assim, eu não conhecia nada desta luva antes de Giorgio de Chirico suspendê-la num céu de sete horas da noite, no verão. Nada: quero dizer que eu não discernia sequer a aparência de couro mole com cinco galhos disto que uma luva é de acordo com toda evidência: um seio de onde posso extrair “todo suco da vista”.

Permito-me voltar mais tarde a Giorgio de Chirico. Com dezoito anos, a educação oficial está pronta para orientar-nos em direção à via ignara. Ora, não era por acaso que Chirico fazia parte da facção que tinha felizmente restabelecido as sinalizações adequadas quando numa bela manhã eu desembocava no cruzamento do aleatório. Ali pude ouvir a canção da mais alta torre. Contavam que para deixar de ser uma simples construção de tijolos esta torre teve de esperar que Chirico a magnetizasse com suas teorias sobre o infinito.

Com este mesmo golpe deixei de perder anos da minha vida nomeando borracha, isqueiro, cachimbo, reconhecendo Pedro. Certamente eu jamais tinha visto alguma borracha, isqueiro e jamais encontrei-me com Pedro. Afirmo que estes objetos intrometeram-se diante do meu olhar e é por isso que não puderam penetrar no interior da minha vista. Para isso seria preciso a intervenção de uma coisa bem outra que o simples recorte de superfícies encerrando a platitude das cores. Seria preciso que eles urdissem um cabala com os lambris do cenário, como por exemplo este salão no qual eu não poderia verdadeiramente permanecer caso não fossem recriadas as condições naturais do seu meio: o fundo de um lago; ou como estas questões que tomam um amplo impulso quando chocam-se “com os vestígios metálicos da alta e inexplicável construção de forma distantemente piramidal… cujo uso não podemos determinar”; ou ainda como esta perna oferecendo-se e cujo o amante consentia em apreciar o modelado somente “numa tal posição na qual ela desenhava nitidamente seu contorno sobre o sol poente.”[1]

Colocar o corpo da mulher à prova do sol poente. Que programa magnífico! O vulgar volta para seu quarto cinzento, este espetáculo não é para ele. Uma mulher, nua, conseguiu fazer-se visível e o ouro de um fim de tarde levantou seu incógnito: Nefertiti, a noiva do dia. Noite eufórica soprando suas brasas, Ofélia tão indispensável ao ribeirão quanto o ribeirão aos peixes, tomar a precaução de sonhar pois somente a chuvarada atingindo os homens de chapéu-coco pega fogo; um dos nossos que passa agora está bem próximo de amar. Muitos sucessos e alguns fracassos atribuem aos poetas a tarefa sempre enobrecedora, jamais enobrecida, de inventar uma língua. Para uma maior alegria dos “ratos de biblioteca” que, desde que eles tomam gosto pelo projeto, fingem espantar-se que ainda não podemos claramente (claramente para eles!) configurar o mapa do espírito, podemos prever que partidas serão incansavelmente tomadas como referência para a definição de Rimbaud, à qual ele mesmo e toda a evolução da poesia deste tempo autorizam propor esta variante: palavra afixando palavra e puxando. Na extremidade aporta a imagem, de modo que o arcano 7 do tarô fornece uma evocação excelente: “um guerreiro coroado portando um triângulo em sua couraça e de pé sobre um cubo ao qual estão atreladas duas esfinges, uma branca e outra negra, que puxam em sentido contrário e viram a cabeça olhando-se” (Éliphas Lévi). Este guerreiro coroado, que é também o horrível trabalhador, se ele quer brandir um pouco mais alto a espada flamejante como o caduceu de Hermanubis, verá no mesmo momento em que chicoteia a esfinge preta, a esfinge branca correndo atrás de seu corpo de eclipse em direção ao equilíbrio perigosamente adquirido com as analogias e os contrários. Com o que põe-se em jogo o destino do mundo.

Março de 1966.

TOME NOTA DESTE PENSAMENTO DE MALCOM DE CHAZAL: SE O OLHAR PUDESSE FAZER UMA PONTE ENTRE AS DUAS MARGENS DE UM RIO, VERÍAMOS O RIACHO CORRENDO EM SENTIDO CONTRÁRIO. É COMO TENTAR VER DUAS COISAS DE UMA VEZ, PARA COLOCAR COM OLHAR DE PONTA-CABEÇA.


MULHER TIRANDO A ROUPA NA LUZ DE GIOTTO.