alta frequência

Atualizado: 29 de jun. de 2021


Colagem por Rodrigo Corrêa


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

“Alta frequência” é um panfleto — originalmente ilustrado por Toyen — que foi publicado pelo grupo surrealista de Paris em 1951 e republicado posteriomente no volume Tracts Surréalistes Et Déclarations Collectives, 1940-1969, Tome II, organizado por José Pierre. Após uma série de polêmicas envolvendo o grupo surrealista, neste panfleto são esclarecidos alguns princípios básicos do movimento e reafirmadas algumas de suas posições, sendo sublinhada sua definição enquanto uma aventura.

 

Uma parte da imprensa, com seus habituais objetivos, tentou explorar os recentes incidentes ocorridos no seio do Surrealismo, tornando necessário um mínimo de esclarecimentos e especificações da nossa parte.

O surrealismo não é nem uma escola, tampouco uma panelinha e é muito mais que uma atitude. O surrealismo é, no sentido mais agressivo e total do termo, uma aventura. Aventura do homem e do real lançados um pelo outro no mesmo movimento. Apesar dos espíritos aproveitadores da crítica apagando todas as luzes para evocar sua sombra, o Surrealismo continua a definir-se com relação à vida, da qual ele jamais deixou de exaltar as forças, combatendo sua alienação secular. Ele não tem obrigação de parecer ao pé da letra com aquilo que ele foi outrora. Muito menos com a caricatura proposta por seus adversários. Falsificando uma versão de seu passado histórico ritualmente expurgada pelos seus zelos, eles teriam tentado em vão tomar como limites do Surrealismo aqueles, deveras estreitos, do seu entendimento.

Hoje em dia muitos defendem-se acreditando constatar a usura de certas formas de “escândalo” postas em vigor pelo Surrealismo, sem perceber-se de que elas não poderiam ser nada além de formas temporárias de resistência e luta contra o escândalo que constitui o espetáculo do mundo tal como ele é resultante de suas instituições. Este escândalo alcança hoje seu cúmulo e justifica um protesto não menos ativo da nossa parte, ainda que necessariamente diferente dos primeiros. Quem poderá ser convencido de que a degenerescência das formações políticas tradicionais é suficiente para tornar platônica nossa paixão pela liberdade? Os recentes acontecimentos na Espanha provam uma vez mais que a ausência de palavras de ordem partidárias não impede o gênio revolucionário de sacudir toda servidão, começando pela sujeição provisória da reivindicação humana à uma ideologia regressiva, reinando despoticamente sobre as multidões.

Diante deste flagelo, sustentamos mais do que nunca que as diferentes manifestações da revolta não devem ser isoladas umas das outras, nem submetidas à uma hierarquia arbitrária. Mas sim, que constituem faces de um só prisma. O Surrealismo, com melhor conhecimento de causa do que no passado, dedica-se à resolução dos principais conflitos que separam o homem da liberdade, ou seja, do desenvolvimento harmonioso da humanidade em seu conjunto e suas inumeráveis manifestações — da humanidade que enfim alcançou um sentido menos precário de seu destino, curada de qualquer ideia de transcendência, libertada de qualquer exploração. Assim permitindo com que hoje estes fogos de diferentes cores, mas igualmente intensos, reconheçam nele seu lar comum.

Não é nem preciso dizer que, para nós, a religião judaico-cristã continua, literalmente, sendo o inimigo “encarniçado” do homem, chegue ou não a incorporar-se às ideologias totalitárias. Com seus cúmplices “trabalho-família-pátria”, ela não fecharia muito menos sua fábrica de estropiados e de cadáveres. Para acabar com ela, convocamos sistematicamente as forças que ela tenta sufocar no psiquismo humano.

É a essas forças que se alia, em sua eterna disponibilidade, a juventude ávida por tudo aquilo que combate um utilitarismo a cada dia mais cego. São elas que conjugam-se e exaltam-se no amor, anunciando uma idade de ouro onde o ouro não teria idade, onde a flor da idade, para viver, prescindiria do ouro. São elas ainda que fazem da poesia o princípio e a fonte de todo conhecimento, em oposição permanente à estupidez (metafísica, política, etc.) e às suas manifestações jornalísticas, radiofônicas, cinematográficas, etc.

A vontade do Surrealismo de devolver ao homem os poderes dos quais ele foi espoliado não deixou de conduzi-lo a interrogar todos os aspectos do conhecimento intuitivo, em particular aqueles que abarcam as doutrinas esotéricas, cujo interesse é de desvendar no espaço e no tempo certos circuitos ininterruptos. Ele repugna ainda mais tudo que pode aparentar certos sistemas “ocultos” à um conjunto de receitas de genuflexão e reafirma com relação a isso sua irredutível hostilidade a qualquer fideísmo.

Ultrapassando de longe a simples hipótese de pesquisa, o Surrealismo — cuja existência orgânica tornou-se muito mais leve, para que ao espírito da presente declaração pudesse ser associado o conjunto de nossos camaradas estrangeiros — oferece à nova prospecção um terreno suficientemente vasto e magnético para que desejo e liberdade aí recriem-se um ao outro a perder de vista.

Paris, 24 de maio de 1951

Jean-Louis Bédouin, Robert Benayoun, André Breton, R. Brudieux, Jean Brun, J.-B. Brunius, Adrien Dax, G. Doumayrou, Jacqueline e J.-P. Duprey, Jean Ferry, Georges Goldfayn, Jindrich Heisler, Adonis Kyrou, Alain Lebreton, Gérard Legrand, André Liberati, André Pieyre de Mandiargues, Jehan Mayoux, Nora Mitrani, Octavio Paz, Henri Parisot, Benjamin Péret, Maurice Raphaël, Man Ray, Claude Rochin, B. Roger, Anne Seghers, Jean Schuster, Toyer, Clovis Trouille, François Valorbe, Michel Zimbacca.

Tradução de Natan Schäfer



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