"amore", de sergio lima

Atualizado: 29 de jun. de 2021


Colagem por Fabiana Vieira Gibim


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores. Por Natan Schäfer

 

De acordo com a Fundação Cupertino de Miranda, Ernesto Sampaio (1935, Lisboa - 2001, Lisboa), foi uma “figura incontornável da cultura portuguesa da segunda metade do século XX” e um dos principais teóricos do surrealismo em Portugal. Seus textos publicados na imprensa foram reunidos em O Sal Vertido (Hiena Editora, 1988). Traduziu Carlo Emilio Gadda, Pieri Paolo Pasolini, Paul Éluard, André Breton, dentre outros. O texto abaixo foi publicado por Ernesto Sampaio no Jornal de Letras e Artes (ano VII, nº 258, Dezembro de 1967, p. 21) e constitui a primeira leitura crítica em língua portuguesa do livro Amore, uma das pedras-fundamentais — inscrita de símbolos, como as pedras rúnicas — da obra de Sergio Lima, publicado por Massao Ohno em 1963. Atualmente, Elvio Fernandes Gonçalves Jr. vem dedicando-se ao estudo de Amore, dando continuidade ao caminho aberto por Sampaio.


“AMORE” DE SERGIO LIMA POR ERNESTO SAMPAIO

Encontrar “o lugar e a fórmula” confunde-se com “possuir a verdade numa alma e num corpo”; esta suprema aspiração basta para abrir à sua frente o campo alegórico segundo o qual todo o ser humano foi lançado na vida à procura dum ser do outro sexo, dum ser único que o complete sob todos os aspectos, ao ponto de um sem o outro aparecer como o produto da dissociação, da desagregação dum único bloco de luz. Bem-aventurado as que conseguem reconstituir esse bloco. André Breton, Arcane 17

Como Breton afirma em relação à arte, a qualidade específica da poesia é a imaginação, independentemente das motivações exteriores, objetivas ou subjetivas, que a originaram. Numa época em que não se lê para satisfazer uma das mais violentas necessidades humanas, nem para avivar o incêndio dum homem em flagrante ruptura com a sorte que lhe está reservada, mas sim para domesticar o espírito, um livro como este, onde o autor é o único depositário dos mecanismos que determinaram a sua criação, aparece-nos como um corpo estranho, um verdadeiro aerolito caído nestas desoladas plagas literárias. A parte mais relevante da vida poética que anima o homem no âmago primitivo da sua condição, restitui à poesia os seus prestígios de potência emancipadora e anunciadora, mantendo o poeta, para além de todos os limites e contingências, na via vital do grande encontro com essa presença ou ausência que é a razão única, num mundo de e para a morte, da vida e dos esforços humanos. A poesia de Sergio Lima, mais do que um alinhar certeiro de frases apaixonadamente reveladores ou de belas imagens para ver e dar a ver (e isto ainda é literatura), transformou-a ele antes numa contextura de meios que dialeticamente se transcendem, vindo a servir a investigação superior de um espírito que rigorosamente pretende recuperar-se e conhecer os limites, a natureza da sua possibilidade, seu erro próprio: mito ou raiz de um Desejo transformado em instrumento de desocultação apaixonada. Se de uma certa maneira é verdade, como afirmava Heráclito há mais de 2000 anos, que o Sol tem a largura de um pé humano, ou, como dizia Paracelso, que o escorpião cura o escorpião, é preciso passar pelas extremas experiências de ter um Sol nos pés e um escorpião no sexo (e este humano não está fixado obrigatoriamente onde é normal que esteja: voa, aloja-se na cabeça, nos olhos, muitas vezes no peito; será essa a famosa essência a que chamam alma?). Mudar o corpo, o espírito, a vida exige que se seja senhor de si e dessa parte do universo — única paisagem à altura de homem —ocupada pelo nosso amor. Esta exigência, esta necessidade mágica, saldada ou não por um fracasso, mesmo em toda a sua radiosa frustração, mesmo em todo o seu esplêndido rebentar, é o único e duro caminho para o conhecimento, primeiro, para a liberdade, depois. Saudemos em Sergio Lima um desses efêmeros portadores de leis negras, impetuosas e sem justificação capazes de recusar tudo — sentimentos, valores, ilusões, esperanças — por aquilo a que Artaud chamava o “éter de um novo espaço”. Saudemos nele um desses homens-radar que não aceitam a brusca coagulação do mundo, que nunca perdem a fé na sua possibilidade exorbitante, que nunca (apesar do nevoeiro que dificulta a navegação ao largo) deixam de corresponder ao convite da aventura nem renunciam à devassa dum espaço aberto embora irrevelado. “Depende de nós que o mundo seja conforme à nossa vontade”, dizia Novalis, mas é o desejo que torna viável este postulado mágico, é o desejo que torna a magia possível. Em Amore, o desejo é uma sonda que rasga todos os véus da noite e conduz o ser à sua revelação, ao seu início, a esse lugar onde a sombra do homem ainda consegue projetar-se sobre a natureza, liberta das escórias do bem e do mal, da morte e da vida.

Ernesto Sampaio

Nota do autor: 1 - Amore, tomos I e II, e AMADOR (o terceiro tomo, AAMADA, encontra-se ainda inédito), de Sergio Lima. Massao Ohno, S. Paulo, Brasil.



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