animais

Atualizado: 28 de jul. de 2021


Colagem por @at0falho

último crime: A intenção dessa coluna é trazer material crítico, preferencialmente inédito em nossa língua, para contribuir com as discussões que permeiam seres não humanos e humanos em sua luta pelo fim da exploração do trabalho, sua busca por autonomia e a superação do modo de produção em que [sobre]vivemos. Os textos que publicados neste espaço examinam as diferentes relações estabelecidas, na história e no momento atual, entre animais humanos e os animais não-humanos, dentro da perspectiva dialética, materialista histórica e anticapitalista.

 

Eva Meijer trabalha como pesquisadora pós-doutora no projeto “Ética Animal no Antropoceno” (Wageningen University and Research) e leciona filosofia (animal) na Universidade de Amsterdã. . Defendeu recentemente sua tese de Phd em Filosofia, intitulada Political Animal Voices (Vozes Políticas dos Animais, em tradução livre) na Universidade de Amsterdã. O presente artigo foi originalmente publicado na revista Krisis (2018, volume II, Marx from the margins: a collective project, from a to z).


Tradução de Alex Peguinelli

 

Animais

Eva Meijer


Animais não humanos comumente não são considerados um fator importante no pensamento marxista, e as percepções elaboradas pelo pensamento marxista frequentemente são consideradas irrelevantes para o estudo animal (animal studies) (Cochrane, 2010). O próprio Marx não escreveu sobre não-humanos em muitos detalhes e via os seres humanos como distintos dos demais animais. Embora Marx tenha lido Darwin (Benton, 1993), que ficou conhecido por argumentar que as diferenças entre os animais não humanos e os humanos é de grau e não de tipo, reconhecendo a capacidade dos não humanos de produzir, bem como a natureza animal dos humanos (Cochrane, 2010), ele via os humanos como animais especiais e sua teoria é antropocêntrica de diversas maneiras. Seu relato histórico concentrava-se exclusivamente em história e teleologia humana, não reconhecendo a autonomia (agency) [a] animal ou a importância do trabalho animal não humano (ou interespécies) no capitalismo. Ele também aborda explicitamente a capacidade humana de transcender sua natureza animal, em contraste com outros animais (ibid.). O foco está na na libertação humana, e a ideia de justiça para os não humanos parece irrelevante sob essa perspectiva.

No entanto, como inúmeros autores já apontaram (Benton, 2003, Noske, 1989, Painter, 2016, Perlo, 2002), os conceitos marxistas podem lançar luz sobre características específicas da posição dos animais não humanos na sociedade capitalista, e um foco em animais não humanos pode trazer à luz dimensões do capitalismo que, de outra maneira, permaneceriam obscuras. De início, vou me concentrar brevemente no último ponto mencionado, a relevância de se pensar os animais sob o ponto de vista marxista, depois pretendo retornar ao primeiro ponto com mais detalhes.

Nossa economia, cultura e estruturas sociais encontram-se, em grande parte, construídas por meio do trabalho e dos próprios corpos de animais. A ascensão do capitalismo está conectada com a exploração de não humanos, e os restos de seus corpos são onipresentes na maioria de objetos e artefatos produzidos pelos seres humanos. O livro PIG 05049 do artista holandês Christien Meindersma ilustra esse processo documentando o que ocorre com o corpo de um porco após o abate. Algumas partes do corpo são transformadas em comida para humanos, no entanto, seus ossos, pele, e tudo mais que tenha restado, são utilizados para produção de todo tipo de objetos e materiais, variando de aspirina a gasolina e porcelana. Se alguém retirasse os restos destes animais transformados em produtos, sem colocar nada em seu lugar, o mundo físico que conhecemos entraria em colapso. Além disso, este uso material conecta-se à produção de símbolos culturais no capitalismo (Shukin, 2009).

O trabalho animal não humano (nonhuman animal labor) também é uma força econômica importante na sociedade (Hribal, 2003). As granjas estão cheias de galinhas trabalhando para nos oferecer ovos, vacas estão sendo engravidadas para continuar criando nosso leite, e assim por diante. Embora muitos animais não humanos sejam utilizados como objetos, isso não significa que não tenham autonomia (agency). O historiador, Jason Hribal (2003, 2007), reivindica que os animais não humanos fazem parte da classe trabalhadora. Ele argumenta que esses animais instigaram a revolução industrial por serem trabalhadores não confiáveis (unreliable workers) além de serem uma força essencial na ascensão do capitalismo. Sua cooperação e resistência também moldaram o trabalho humano e os instrumentos utilizados. Repensar a produção e o trabalho, portanto, exige repensar as relações com outros animais. Aqui é importante também reconhecer que as vidas dos trabalhadores humanos e não humanos estão intimamente interligadas (ver por exemplo Hovorka e Geiger, 2015). Trabalhadores humanos em abatedouros frequentemente sofrem de grandes problemas de saúde [b]. Para famílias pobres, usar trabalhadores animais não humanos é, muitas vezes, sua única maneira de sobreviver. Grupos vulneráveis de humanos e não humanos são afetados coletivamente pelo capitalismo. Os hábitos de consumo ocidentais prejudicam os animais na agricultura industrial, juntamente com os animais humanos e não humanos não ocidentais cujos habitats são destruídos no cultivo de soja para estes animais de criação. Para analisar ou melhorar a posição de um destes grupos, é necessária uma abordagem interseccional. Uma maior atenção à forma como diferentes grupos são coletivamente afetados pode também levar a uma maior solidariedade, o que pode ajudar a promover uma mudança social.

Isso nos leva ao segundo ponto, a relevância da crítica marxista para teorizar a respeito da posição social e política dos animais não humanos. Primeiramente, embora o capitalismo não seja necessário para que a exploração animal ocorra - a opressão humana e o uso de animais não humanos parece ser o padrão da maioria, senão de todos os ambientes sociais, políticos e religiosos - o foco marxista nas condições materiais e nas estruturas econômicas pode ajudar na crítica das formas específicas de opressão que os animais não humanos são vítimas em nossas sociedades capitalistas. A escala de sua opressão é sem precedentes e o foco do capitalismo no lucro está interconectado com a falta de progresso em trazer mudanças sociais. O filósofo Dinesh Wadimel (2016) mostra que, sob o capitalismo, os animais são objetificados (objectified) e transformados em mercadorias (commodified) para o consumo humano, por exemplo, ao passar por por modificações materiais para se tornarem carne. Eles [os não-humanos] não apenas possuem valor de uso para os seres humanos. Eles possuem valor de troca. Esse fato beneficia os humanos econômica e simbolicamente, uma vez que ao usar outros animais, o valor do ser humano é reificado.

Ademais, o foco no trabalho animal não humano é importante porque, ao contrário do que Marx pensava, outros animais não humanos também trabalham. Esses animais trabalham para e com os humanos, por exemplo, no mercado de entretenimento, sendo cobaia de experimentos, com a ação policial, com o exército, na área da saúde. Eles trabalham para si mesmos e por conta própria, por exemplo, para construir ninhos, pontes, habitats e jardins, para alimentação e por razões artísticas (Bekoff, 2002): também trabalham coletivamente na caça e na construção. Algumas espécies de animais não humanos fazem outros animais trabalharem para eles; espécies de formigas, por exemplo, manejam pulgões mantendo-os por perto por meio do uso de produtos químicos em suas patas. Animais não humanos não podem realizar certas tarefas que os animais humanos podem, mas animais de diferentes espécies são capazes de fazer coisas que o ser humano é incapaz, tal como tecer teias.

Teorizar a respeito das relações de trabalho entre humanos e animais sob o capitalismo é importante por razões de justiça e para que se trabalhe na construção de novas sociedades interespécies (Meijer, 2017).

Essa dimensão de suas vidas não recebeu muita atenção na filosofia que pensa os animais (animal philosophy) até agora (Cochrane, 2016, Kymlicka, 2017). O foco neste campo tem sido o sofrimento e/ou a libertação, ao invés da formulação de novas relações. Abordagens recentes que enfocam a autonomia (agency), relações e a subjetividade dos animais não humanos, no entanto, apontam precisamente para a importância de se formar novas relações e comunidades com outros animais, argumentando que a relação com outros animais são inevitáveis e que relações melhores são possíveis. O foco no trabalho não humano pode ajudar a alavancar os estudos animais de diferentes maneiras. Por reconhecer que outros animais também trabalham, pode ser que os humanos os entendam melhor como co-habitantes em uma comunidade (veja Kymlicka, 2017, para exemplos). Aqueles que pensam sobre relações justas entre espécies precisam levar em consideração que o trabalho, para muitos outros animais, faz parte de viver uma vida satisfatória. Isso tem um significado diferente para diferentes espécies, mas o tédio é um dos maiores problemas para animais que vivem em zoológicos e animais domesticados vivendo em condições de pecuária industrial, juntamente com a solidão. Esses animais frequentemente encontram-se em uma posição de alienação (Noske, 1989).

Finalmente, é importante reconhecer que as condições em que os animais não humanos vivem sob o capitalismo certamente podem ser melhoradas, mas nunca o suficiente para produzir uma mudança substancial. Não é suficiente dar aos não humanos jaulas maiores ou comidas melhores: é preciso desafiar as condições que permitem sua exploração em larga escala, começando com o fato de que muitos desses animais, ainda que sejam seres sencientes, permanecem sendo considerados propriedade privada humana e os seres humanos continuam a considerar proprietários do planeta em que todos nós (humanos e não humanos) vivemos.

 

Notas do Tradutor: [a] Outra possível tradução seria o termo “agência”. No entanto, correríamos o risco de perder a dimensão que mais nos interessa em agency, que é a capacidade não meramente de executar tarefas, mas de pensar o mundo enquanto se relaciona com ele ativamente. [b] ver documentário “Carne e Osso” (2011), dirigido por Caio Cavechini.

 

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