aniversário

Atualizado: 10 de ago.


Aniversário [Birthday] (1942), por Dorothea Tanning. © Artists Rights Society (ARS), New York.
 

A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.


 

Quem olha para o Aniversário de Dorothea Tanning (1910, Galesburg - 2012, Manhattan) olha para si, para ela e para tudo o mais que é desconhecido.


Só podemos contemplar nosso rosto em um objeto externo a ele.


Quem nos lembra disso é Marion Zilio, autora de Faceworld, o rosto no século XXI [Faceworld, le visage au XXIe siècle] (PUF, 2018) que iluminará o percurso a seguir. Suas luzes projetam a questão: por que, como nota Georges Bataille, em meio aos desenhos da caverna de Lascaux não há sequer um que podemos identificar como um rosto humano?


Ao que tudo indica, o rosto singularizado, portanto aquilo que hoje chamaríamos de retrato, aparece ao redor do século I d.C, como parte dos ritos funerários egípcios, o que indicaria sua relação fundamental com o sagrado. De acordo com Marion, é após o advento destes retratos, conhecidos como “retratos de Fayoum”, que a justiça romana irá estipular uma pragmática do rosto enquanto um direito do cidadão, embora anteriormente a isso os romanos já tivessem preocupações de individualização representadas pelas imagines majorum penduradas nos átrios das casas. Embora em 21 séculos a noção de cidadão tenha se modificado, a pragmática ocidental do retrato continua o associando ao registro civil, fazendo-lhe assim figurar em documentos como RG, carteira de trabalho e passaporte.


Zilio indica que, diferentemente da maioria de nós, ocidentais contemporâneos, os gregos antigos não possuíam a noção de cogito, a qual poderíamos aproximar daquilo que hoje entendemos vulgarmente por eu. Sua identidade era fragmentária e fluida, talvez mais próxima daquela de certos povos ameríndios[1]. Isto pode ser demonstrado pela sua relação com as máscaras — em grego as prosopa (plural de prosopone), que em latim dará persona —, as quais eram consideradas uma identidade em si mesma, apenas portada por aquele que a vestia. Posteriormente, revogando o politeísmo pagão e seus rastros orientais, o monoteísmo judaico-cristão institui o sujeito uno e não dividido que figurará na cédula de identidade, nas fichas criminais e nos avatares das redes ditas sociais.


Esta vulgarização do rosto ocorrerá com uma maior intensidade a partir do século XIX, que dispara a popularização do acesso à contemplação de uma figura fixada num suporte material de memória — ou seja, a fotografia. Isto que podemos chamar de “tecnoimagem”[2], como proposto por Vilém Flusser para diferenciá-la da imagem ou image como fenômeno do ser[3], segundo Marion estabelece a passagem “de um rosto aos rostos”, conduzindo a fotografia do mel ao enxame. Assim, o autorretrato “artístico”, ou realizado a partir de uma creação[4], quando permite o trânsito entre o interior e o exterior, é capaz de desempenhar um papel crucial no processo de individuação, em franca oposição à massificação ocasionada pelos registros multitudinários.


Tomando como exemplo a pintura em tela, temos que os corpos aí conjugados, — i.e. as tintas, os membros, os gestos, as sensações, etc. — e o processo de sua elaboração vetam a submissão imediata, ou seja, sem intermediários, à interface comercial de uma empresa para a qual se presta um trabalho voluntário. O tempo para a elaboração da pintura decanta a alma no espelho que vem a ser a tela tramada fio a fio não como rede, mas sim como sede de laços.


Um autorretrato como o Aniversário, de Dorothea Tanning, renuncia ao controle de si justamente na exposição daquilo que é enigma para o próprio eu e suas cogitações. Trata-se de um caminho que, transbordando tanto a opressão interna quanto externa, é capaz de restituir este eu à sua fragmentação fundamental, passando ao largo daquilo que só é capaz de reivindicar na pólis um clichê de si e a renúncia à exposição do abismo e seus desconcertos. Para Tanning, o rosto é extensão do corpo-alma e vice-versa: um corporosto, cujos cromos e porosidades conduzem diretamente “à curva da esponja das Filipinas”, de que fala André Breton em A cavaleiro na via de São Romano[5], a qual não é senão outra que aquela do próprio desejo.


Autorretratos como os de Dario Vellozo trajado de cavaleiro templário[6], Claude Cahun como halterofilista[7], Pierre Molinier travestido de moça mágica[8], Leonora Carrington com o cavalo da aurora[9] e Sergio Lima aos dezoito anos[10], trazem à crosta o maravilhoso dos ínferos e súperos.


O que estas imagens revelam são rostros prontos para se libertarem das âncoras[11]. Pois aqui se navega em alto-mar. Aos que preferem limitar-se à orla, oferecemos a sombra de nossos lenços.


*


Venho sublinhando reiteradamente n’A Fresta que para os surrealistas não há fronteiras entre os fazeres, sejam eles verbais, plásticos ou sonoros. Porém com sua reflexão, Dorothea nos conduz com firme delicadeza para além desse aspecto evidente. Eis que então alcançamos outro pilar do movimento surrealista: o amor.


A certa altura de sua vida, o caminho de Dorothea cruza com o de Max Ernst[12] e ambos aproximam-se. É claro que um encontro como este apresenta um alto risco, haja vista a voltagem das energias em jogo.


Contudo, ao contrário do que afirmam muitos críticos e historiadores — os quais pertencem justamente à categoria capaz de a duras penas ocultar com sua sombra diminuta talentos brilhantes —, ao invés de ser eclipsada por Max, Dorothea tem com ele uma profícua relação que manteve as singularidades ao mesmo tempo que permitiu a mútua influência e alofagia[13]. Dorothea e Max pintavam em cômodos separados e um convidava o outro a visitar seu atêlie, quase como se não estivessem sob um mesmo teto e numa mesma casa. O amor que se expressa na imagem da casa do casal — e lembremos da casa filosofal de que falavamos na apresentação das Pequenas prosas infinitivas-derivantes, de Jacques Lacomblez, publicada na últim’A Fresta[14]—, habitada por duas trajetórias de vasta órbita, é diretamente vinculado ao Grande Desejo e à Grande Obra alquímica, constituindo, como afirma André Breton, a “busca pela verdade que está na base de toda atividade válida” e a única ideia “capaz de reconciliar toda humanidade com a ideia de vida”.