arte terra homem

Atualizado: 2 de mar.


Ensaio fotográfico em Porto Seguro. Foto: LUZ, Hamilton. Etsedron. 1977. 1 fot., p&b. 10 cm X 15 cm.


Quantas horas de trabalho fazem um produto ter valor? Quanto trabalho tem o valor do trabalho? Quem é essa carne rugosa que trabalha por valor da mesma cor do chão? Quanto sobre trabalho nos diz a mão calosa que verga a natureza? A realidade concreta está circunscrita nos mesmos princípios de uma estruturação dialética do natural - será o trabalho como processo de vergar a fibra o verdadeiro triunfo do natural do homem? Esqueçamos os momentos fenomênicos, “nada pode criar sem a natureza, sem o mundo exterior sensível” (MARX, 1932, p. 512). O metabolismo do ser natural está na mão que o modifica. Veja atentamente. Agradecemos de peito transbordante nossos queridos camaradas da GLAC Edições, primeiramente pelo companheirismo e afeto comum e depois por nos ter apresentado ao trabalho genuíno e duro do Etsedron. Leonardo Araujo Beserra, editor da GLAC, assina o texto de apresentação de nosso post, publicado primeiramente em decorrência da exposição Passagem Etsedron, organizada por ele no Centro Cultural São Paulo entre 17/05 e 17/07/19. Delineamos aqui e sempre nosso afeto incendiário por nosso elo e por seu alimento em arte por nós. Este é o texto número #02 da nossa parceria com a GLAC edições, Maio Insurgente. Textos inflamáveis produzidos nos ecos revolucionários de Maio ao redor do mundo. Nesta semana, apresentamos brasil.


Anagrama da palavra Nordeste, ETSEDRON foi um grupo interdisciplinar baiano que obteve larga passagem no cenário contra cultural artístico brasileiro, especialmente no sudeste do país, ao ter participado das Bienais Internacionais e Nacionais de São Paulo entre 1969 e 1979. Pelo grupo Etsedron passaram mais de 20 participantes, que foram exclusivamente concentrados ao redor da figura de Edison da Luz, artista gravador emergente durante as décadas de 1950 e 1960. Quem caracterizou o grupo pelo largo empreendimento na pesquisa etnográfica em se descolar e permanecer por alguns meses em regiões rurais do sertão nordestino, a fim de realizar seus Projetos Ambientais, grandes ambientações instalativas que desejavam apresentar a realidade mais coerente possível à vida cotidiana do nordeste agrário. Era comum escutar seus integrantes dizerem que o anagrama de seu nome e a metodologia formal de representação artística que desenvolviam era “o avesso do Nordeste”. Interessados em transformar a visão cultural do país à região, outorgada no período unicamente como produtora de folclore e dona de praias paradisíacas, o grupo aprofundou seus conhecimentos sobre o sertão, a cultura de subsistência e a ruralidade familiar, produzindo uma gama de obras viscerais que expunham a miséria e as técnicas de sobrevivência nordestinas por meio da música, artes visuais, dança, teatro, medicina, sociologia, antropologia, religião e até mesmo astronomia. Tais ações fizeram do próprio grupo um espaço de refúgio à produção conceitual da época, proporcionando-lhes prêmios, polêmicas na mídia, críticas reflexivas e profunda inserção subversiva no circuito de arte paulistano. Com pouca ou quase nenhuma representação na região de onde eram provenientes, Etsedron encontrava dificuldade estrutural e de circulação, pois não obteve largo apoio governamental e privado. Foi em meio a desentendimentos internos e a falta de folego que o grupo encerrou suas atividades em 1979, apresentando na XV Bienal Internacional de São Paulo uma ambientação lacrada, fechada por sacos de areia e com a representação simbólica de um caixão construído em cipó e raízes secas. Mas antes mesmo disso, em 1978 o grupo ateou fogo em todas esculturas e objetos remanescentes de seus projetos que estavam em frente ao Solar do Unhão, edifício que ainda abriga o Museu de Arte Moderna da Bahia, esperando pela primeira exposição individual de Etsedron em Salvador, o que nunca ocorreu. As cinzas, foram colocadas no Projeto Ambiental V - Instalação Ambiental, apresentada na I Bienal Latino Americana de São Paulo, com o título de A Morte do Mito. Antiglobalização, antirracista, anti-colonial, anti-ocidental, anti-embranquecimento, contra tudo que não lhes pertenciam, em uma luta contínua em se reapropriar de si mesmo, expropriando a alta cultura de seu aparente lugar autolegimado, Etsedron pode ser mais atual do que durante sua passagem. Se torna ainda mais importante sua reatualização na contemporaneidade por meio dos registros que ele deixou e dele foi produzido. Por isso, esta exposição apresenta um material selecionado no acervo do Arquivo Multimeios do CCSP, especificamente relativos às XIV e XV Bienal Internacional de São Paulo, além da Latino-americana, que engloba a produção do extinto IDART (Departamento de Informações e Documentação Artística) e conta as últimas três apresentações do grupo. Que a mais nova passagem do Etsedron se recorde sempre!


Maio Insurgente * Leia também o outro texto do programa, publicado pela GLAC Edições, Público Idiota, produzido em mimeógrafo em 1978 e sendo o primeiro documento do grupo interdisciplinar Viajou sem Passaporte, formado por Beatriz Caldano, Celso Santiago, Carlos Alberto Gordon, Luiz Sergio Ragnole Silva (Raghy), Marli de Souza, Márcia Meirelles, Marilda Carvalho e Roberto Mello. As provocações e insurgências genuínas do grupo se escutam nos becos dessa cidade até hoje e seu manifesto não poderia ser mais atual. Clique aqui para ler o post da GLAC e continuar o rastro de pólvora.

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