Björk apresenta Sjón, seu amigo de infância e colaborador frequente


À esquerda Sjón e à direita Bjork como Johnny Triumph e os Sugarcubes em novembro 1987. Créditos: Sigurdur Mar Halldórsson/Reykjavík Museum of Photography.




A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.



 

Em julho de 2022 assisti a O Homem do Norte, cujo roteiro é assinado pelo diretor Robert Eggers e por Sjón (Reykjavík, 1962). Este último nome e seu prestígio me levaram a sair do cinema satisfeito depois de permanecer desperto ao longo de todo um filme cujo gênero, apesar de interessar-me, não é dos meus preferidos.


Embora siga os protocolos de filmes e séries inspiradas no medievo e na cultura nórdica e indiscutivelmente configure-se como um blockbuster, O Homem do Norte parece oriundo de uma visão cristalizada em detalhes que, a meu ver, o tornam diferente de vários de seus pares. Percebo que muitos aspectos do filme poderiam ser relacionados à orientação de um fazer a partir da imagem enquanto fenômeno do ser, como proposto por Sergio Lima. Daí que tanto o acentuado caráter kitsch aparentemente proposital de algumas cenas quanto a sensibilidade para com o desenho de som e o rigor no que diz respeito à objetos complexos como a Islândia arcaica, o maniqueísmo e a magia, certamente são em grande parte tributários da participação de Sjón na elaboração da obra. Ele que, tendo conhecido pessoalmente Elisa Breton e outros dos tempos de André Breton, foi o principal responsável por fazer o movimento surrealista vir à tona também na Islândia.


Convidado da FLIP em 2017, Sjón é autor de A raposa sombria (Hedra, 2014) e Pela boca da baleia (Tusquets, 2017), e também colaborou com o legendário filme Dançando no escuro, de Lars von Trier (2000). Entretanto, sua trajetória ainda é pouco conhecida do público brasileiro. Por isso hoje publicamos aqui nest’A Fresta uma tradução inédita da apresentação que sua amiga Björk, ela sim bastante conhecida não somente aqui no Brasil como ao redor do mundo, fez dele em uma mesa-redonda mediada por Hari Kunzru ocorrida em maio de 2013 na Scandinavia House em Nova Iorque.


É interessante notar que nesta apresentação, Björk dá a ver ao público, além de sua íntima relação com Sjón, a influência do movimento surrealista sobre sua própria vida e obra. Pois como ela mesma diz, a leitura de livros como A história do olho, de Georges Bataille, e o que ela denomina “o lado mais impulsivo, cru e feminino do surrealismo” — e aqui não podemos deixar de pensar em figuras como Marianne Van Hirtum, Joyce Mansour e Antonella Gandini — nela “plantou plantas bem teimosas”.


Também é importante sublinhar que a apresentação de Björk expõe alguns dos típicos clichês insistentemente associados ao movimento surrealista, sobretudo no que diz respeito à uma suposta frieza de André Breton — aliás diametralmente oposta aos vários relatos dos que o conheceram assim como àquilo que podemos testemunhar ao longo da leitura de sua obra. Esses clichês, perpetrados pelo senso comum da sociedade do espetáculo e por vários setores empedernidos da assim chamada cultura, obstruem a recepção e os movimentos dialéticos, ocasionando uma má-recepção ou mesmo não-recepção, sustentada por custosas negações, imprecisões e ocultamentos.


Portanto, alinhando-se não somente com o cartaz de O Homem do Norte, mas também com Fossora, o mais recente disco de Björk, lançado em 30 de setembro de 2022, sentimos que uma apresentação de coração como esta é capaz de assumir as mais variadas funções, dentre elas muitas que ainda desconhecemos.


Por isso com vocês, Björk apresentando Sjón n’A Fresta.

 

Björk apresenta Sjón, seu amigo de infância e colaborador frequente


Caros amigos, gostaria de apresentar-lhes o meu querido amigo Sjón.


Na primeira vez que o encontrei eu tinha dezesseis anos. Juntamente com outros, ele fundou o primeiro e único movimento surrealista da Islândia, um grupo de mais ou menos seis membros chamado Medúsa. Naquela época eu tinha uma banda punk. Medúsa escrevia poemas, fazia performances escandalosas pela cidade usando comida, administrava uma galeria (que na verdade estava mais para uma garagem), fazia exposições de pinturas, desenhos e esculturas, e tocava música. Todos tinham por volta de vinte anos, o que para minha idade naquela época era muito mais velho.


Eu acho que então me tornei a única mulher que era um membro extra-oficial do grupo.


Sjón era o líder. Lembro de gostar muito dele. Mas também uma das primeiras memórias que tenho dele é a gente debatendo sobre André Breton em um bar. Breton era seu ídolo. Naquela época eu devia ter uns dezessete anos. Sentia que André era todo teoria e estilo — frio —, vendo as coisas de fora e não por dentro. Ele se concentrava inteiramente em teoria intelectual a despeito das coisas que eu preferia, como impulso, emoção e instinto. Então Sjón começou a apresentar-me a livros: A História do olho de Georges Batailles, The Demon Flower de Jo Imog, O mestre e Margarida de Mikhail Bulgákov, e acho que de alguma maneira ele me mostrou o lado mais impulsivo, cru e feminino do surrealismo. Como você pode imaginar, isso plantou plantas bem teimosas em mim, sobre as quais construí minha obra, desde aquela época até hoje.


Mas ele não me guiou apenas intelectualmente. Também montou uma banda de rockabilly chamada “Rocka Rocka Drum”, na qual eu tocava bateria e ele cantava. Acho que sem saber essa foi a primeira semente de nossa futura colaboração escrevendo juntos letras de canções pop. Lembro de ficar incrivelmente impressionada diante de como ele fazia para escrever letras pop curtas e explosivas sem diluir nada. Também lembro muito bem quando Ólafur Engilbertsson, um dos membros surrealistas, voltou de Barcelona com uma garrafa de absinto genuíno, que ajudou o grupo a andar na linha — em cima do teto dos carros, sem sequer tocar o chão — durante os vinte minutos de caminhada até o “Safari”, a balada daquele tempo. Ao chegar lá sentimos um ímpeto e não usamos a porta, mas entramos sem

titubear através de uma grande janela diretamente até a pista de dança. Os seguranças vieram e Sjón resistiu à detenção mordendo a enorme coxa de um deles. Isso fez a polícia aparecer e Sjón foi algemado e jogado de bruços no chão do camburão. Entrei com ele e fiquei segurando seus óculos enquanto ele performava o Manifesto Surrealista de André Breton inteirinho.


Sinto que Sjón e eu temos muitas raízes em comum, ainda que nossos trabalhos sejam diferentes. Ambos desenvolvemos uma espécie de espírito punk “faça-você-mesmo” para sobreviver, publicando poemas e músicas desde os vinte anos.


Sem dúvida a Islândia formou a nós dois: o isolamento, apenas trezentas mil pessoas em uma ilha menor do que o estado de Nova Iorque, muito espaço e um caráter de silhueta bem, bem definida! Reykjavik é pequena o suficiente para ser uma cidadezinha, mas ainda é uma capital na Europa.


Também temos em comum uma forte relação com a natureza. Tanto Sjón quanto eu sabemos que você não precisa escolher entre natureza e civilização. Ambos podem coexistir. E desta maneira sinto que estamos mais bem equipados do que alguns que estão áreas urbanas do mundo para imaginar um século XXI mais esperançoso. Tanto na realidade quanto na ficção.


E talvez nosso mútuo envolvimento com o surrealismo na adolescência tenha deixado uma marca em nós. Talvez pareça meio absurdo que Sjón e seu grupo Medúsa tenham introduzido o surrealismo francês dos anos 1920 em uma Islândia punk dos anos 1980, mas de alguma maneira ele se harmonizou muito bem com a fé dos islandeses em magia e no sobrenatural. Isso criou um coquetel potente e de certa maneira nos deu alguma munição para desenvolver uma narrativa moderna para o jovem islandês e para nos lançar além da velha Europa (somos uma nação que foi colônia por 600 anos). Sjón e eu fazemos parte da segunda geração da Islândia independente. E precisávamos de um ponto de partida novinho em folha.


Portanto quando comecei a fazer meus próprios discos, me pareceu muito natural convidá-lo a escrever as letras comigo. Sempre escrevi a maioria delas eu mesma, mas de alguma maneira sempre tinha ao menos uma letra por álbum com relação à qual eu poderia falar por horas do que deveria se tratar a música, mas não conseguia escrevê-la eu mesma. Minhas músicas que têm uma linguagem mais intrincada, como “Isobel” e “Bachelorette” foram escritas por Sjón. E quando Lars von Trier me pediu para fazer um musical, concordei, desde que pudéssemos fazer as letras com Sjón. Ele tinha a inteligência, a elegância e o talento para catalisar colaborações do qual precisávamos. Quando me pediram para escrever a música-tema para as Olimpíadas [de Atenas em 2004], vocês bem podem imaginar a quem pedi para escrever as letras.


Mas chega de falar sobre o meu trabalho.


Os livros do Sjón são únicos. Sinto que ele conseguiu agarrar o fio da literatura clássica e continuá-lo futuro adentro. Conseguiu ligá-lo às raízes da autêntica Islândia antiga e então trazê-lo como um facho até o século XXI. Conseguiu pegar a forte relação da Islândia com a natureza e fazê-la vibrar nas mãos dos tempos modernos. Mas o mais importante é que ele conseguiu unir a inteligência ao coração.


Porque para mim Sjón antes de mais nada sempre disse respeito ao coração.


Sjón tem um talento incrível. Estou muito orgulhosa de apresentá-lo e desejo-lhe a maior sorte na América. Desfrutem dele.

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