black dada nihilismus - a imaginação radical de amiri baraka



 

A Missa Negra é uma coluna — um culto — de periodicidade quinzenal dedicada a publicação de textos que investigam a verve da imaginação radical negra, conduzida por Nathalia Grilo. Aqui germinam a música, a literatura e as estéticas escuras do mundo.

 

Ato III - A Suicide Note

Por Nathalia Grilo


Era 1956 e o mundo andava encoberto por uma atmosfera estranha. Rebentava nos Estados Unidos o célebre boicote dos ônibus de Montgomery [1], numa nítida radicalização das lutas políticas das populações negras norte-americanas. Aquele era o início dum movimento reivindicativo que anunciava uma nova era: o movimento dos direitos civis. Nesse cenário, explodia também a Guerra do Vietnã como um conflito de resistência anti-estadunidense que fervilhava no auge da Guerra Fria, gerando um forte alvoroço em torno de uma corrida armamentista que investia pesadamente no desenvolvimento de armas de destruição em massa. Onde quer que fosse não havia outro assunto pelas casas, na tv e nas rádios, era impossível não ouvir o zum zum zum causado pelas alucinações espaciais que fariam surgir a NASA. Em meio à loucura desse turbilhão, os caminhos de LeRoi Jones também sofriam mudanças significativas. Aos 22 anos, aquele improvável intelectual recém saído do 73º esquadrão antibombas tinha como meta alcançar o posto de artista, mesmo que àquela altura pouco compreendesse a real essência dessa palavra.


Jones finalmente havia se livrado das garras do exército e de forma muito natural foi em busca de liberdade. Em seu espírito germinava o desejo febril de encontrar seu próprio estilo de escrita, deixando pra trás as heranças elitistas da academia e os resquícios racistas e hierárquicos das forças aéreas. Num ímpeto alucinado, decidiu se mudar para New York sem um puto no bolso, sem casa e sem emprego, carregando consigo apenas a ideia romântica de se perceber livre num mundo onde secularmente a ideia de alforria jamais caminhou de mãos dadas com a existência de um homem negro.


Foi no intenso Greenwich Village que o jovem aspirante a escritor fincou raízes, um bairro famoso localizado em Manhattan, considerado o epicentro da contracultura. A espacialidade ali era povoada por boêmios que bebiam e fumavam em livrarias e cafés lendo livros sobre Zen Budismo enquanto escandalizavam a ordem antiquada de heranças italianas que fundou o entorno. Para Jones tudo era fascínio, ele ficou realmente impressionado com o ambiente tão diferente do clima industrial de Newark. No Village as pessoas tinham roupas e cabelos estranhos e ostentavam uma suposta liberdade que atraia Jones, mesmo que ainda se sentisse perdido como um garoto suburbano na cidade grande. Sua incursão por Manhattan foi como sair de um extremo oposto - de repente estava livre, pelo menos foi assim que se sentiu - essa era a vida que ele queria. Aos poucos foi ganhando a malícia das ruas, começou a trabalhar em livrarias famosas e criou o seu próprio círculo de amizades, iniciando uma tímida e inocente escrita de artigos que seriam publicados em jornais locais.


Logo conseguiu um emprego na revista Record Trader e apesar de ganhar uma miséria, com o tempo pôde avançar seu conhecimento musical para além de Louis Armstrong, o que foi fundamental para inseri-lo no hall de estudiosos da história formal da música norte-americana. A função da revista era fazer comentários, análises e ao mesmo tempo realizar leilões de antigas coleções voltadas para apreciadores brancos do Jazz das eras pré-swing e pré-big band, aquilo que a elite chamava de material "original", a música antes de se tornar nova e estranha. Esse trabalho na Trader o levou ao encontro de colecionadores, críticos e fotógrafos de jazz. Jones ficou impressionado quando se deparou com uma casta de jovens brancos abastados formados em universidade nobres que eram não só críticos musicais, mas os mais avançados da época.


Jones começou a perceber que não havia muitas vozes escuras focando (ou pelo menos sendo publicadas) na música negra, então estar inserido nesse ambiente fez seu desejo de conhecer e escrever mais sobre as sonoridades negras florescer. Todos os dias no trabalho ele vasculhava pilhas de discos procurando os pedidos dos clientes e consequentemente aprendia sobre bandas e músicos de diferentes épocas, gravadoras e tendências. Conheceu as personalidades-chave nos distintos períodos do jazz e começou a entender quando e como a música mudou. Mais tarde, ele faria sua própria pesquisa, muito mais profunda para descobrir por que a música negra se transformou - o que permaneceu sendo a questão mais importante em suas obras semióticas. Nascia nesse período também sua respeitável coleção de Jazz tradicional, Swing e Blues, e foi aí que publicou seu primeiro artigo musical numa das melhores revistas daquele período, a Jazz Review, editada por seu amigo Martin Williams, o escrito versava sobre o saxofonista tenor Buddy Tate e teve uma boa aceitação dos leitores.


A secretária da Record Trader era Hettie Cohen, uma jovem excêntrica não muito popular, que mais tarde se tornaria uma importante escritora beat. Ela foi se achegando devagar e Jones, que no início nem sonhava em sair com uma garota branca de origem judaica, se viu aos poucos construindo uma relação de companheirismo e amizade com Hettie. Começaram a sair de forma descompromissada até que tiveram uma filha e decidiram se casar, assim sem pensar muito. Escolheram um templo budista para a cerimônia e firmaram aquela que viria a ser uma das parcerias mais produtivas do universo literário independente daquela época - juntos eles tiveram uma revista, um selo e duas filhas.


Nesse tempo Jones começou a entender o que realmente significava vivenciar uma relação interracial no Greenwich Village. Através dos olhares das pessoas na rua, a tensão que crescia dentro dele em certas situações, embora na maioria das vezes não desse a mínima para o que ninguém, pelo menos nenhum branco, pensasse sobre seu casamento. Essas situações desconcertantes o levaram a perceber além do subjetivismo fictício que ele tinha sobre aquele lugar. Jones se permitiu espiar a estupidez e o racismo dali, afinal ele chegou ao Village pensando que as pessoas de lá, aqueles intelectuais que arrotavam arte, não poderiam ser racistas.


Bob Thopmson. LeRoi Jones e sua família. 1964.

Aos poucos LeRoi Jones foi se tornando uma figura familiar nas livrarias, nos clubes e bares do Village, onde aconteciam leituras noturnas de poesia. Esse circuito foi ganhando força e ele começou a se aliançar a outros poetas como Jack Micheline e Howard Hart que liam suas poesias com jazz sendo tocado simultaneamente, o que Jones achou uma ideia ultra moderna. Também nesse período passou a acompanhar apresentações de Jazz com frequência, e num desses inferninhos até teve a sorte de assistir Langston Hughes lendo seus poemas com Charles Mingus tocando ao fundo em um clube recém inaugurado chamado Five Spot. Mais tarde, quando Jones começou a publicar poemas, Langston o endereçou um bilhete dizendo que gostava deles, e seguiu acompanhando suas publicações escrevendo de vez em quando dizendo o que pensava. Mais tarde, Langston enviou um poema autografado, "Backlash Blues" [2], que Jones emoldurou e ostentou na parede de casa até o final da vida.


Nessa época, ouviu falar sobre a figura de Allen Ginsberg pela primeira vez. Se sentiu muito emocionado com seu poema "Howl" [3], um marco na poesia Beatnik que falava de um mundo com o qual ele podia se identificar e se relacionar, a linguagem, os ritmos e o conteúdo do poema eram reais para ele, porque soavam como Bop. Tudo isso era bem diferente das arestas frias que desenhavam os poemas com os quais estava acostumado, Ginsberg falava de um mundo palpável, muito mais próximo do seu. Isso foi um avanço para Jones, agora ele sabia que poesia poderia ser algo sobre coisas com as quais estava familiarizado, que não precisava ser sobre banhos de pássaros dourados e mitologia grega. Sentiu que deveria buscar uma aproximação, e querendo soar tão estranho para Ginsberg quanto achava que ele soava para si, escreveu uma carta em papel higiênico perguntando se sua pessoa era verdadeira. Ginsberg devolveu numa carta, também escrita em papel higiênico - nascia ali uma amizade muito produtiva. Foi nessa época que brotou em Jones o desejo de publicar uma revista e Hettie ficou muito animada com a ideia de ser co-editora.


Àquela altura ele já conhecia todos os jovens poetas e escritores da época e sabia que esses artistas não publicavam suas obras por conta da insegurança que sentiam diante das prováveis recusas que viriam das revistas tradicionais e suas páginas pueris. A ideia de editar uma revista já estava firme em sua cabeça quando decidiu nomear a publicação de Yugen, uma palavra Zen que sugeria uma qualidade especial de existência, uma textura refletida pela percepção do mistério. Tinha algo a ver com alcançar um estado elevado de graça e um relacionamento com o divino em tudo o que se faz, especialmente nas artes. Jones estava lendo bastante coisa sobre a filosofia japonesa, e para ele essa era a qualidade que a revista deveria ter e tentaria divulgar - a obtenção de uma graça misteriosa ligada à revelação espiritual - e assim o fez.


Ginsberg enviou quatro poemas curtos para aquela primeira edição e apresentou pessoas como William Burroughs, Jack Kerouac, Philip Whalen, Ed James, Judson Crews, Tom Postell, Allen Polite, Stephen Tropp, Bobb Hamilton, Diane Di Prima e Ernest Kean. Ginsberg era como um publicitário de poesia daquela época, o papel que Ezra Pound desempenhou durante os anos 20, levando as pessoas umas às outras, tentando publicar as palavras de um novo tempo. Ele foi um elemento muito importante de comunicação e mobilização para que todas aquelas jovens forças poéticas encontrassem alguma expressão concreta, e isso inspirava Jones de forma muito potente.