black dada nihilismus - a imaginação radical de amiri baraka

Atualizado: há 5 dias




 

A Missa Negra é uma coluna — um culto — de periodicidade quinzenal dedicada a publicação de textos que investigam a verve da imaginação radical negra, conduzida por Nathalia Grilo. Aqui germinam a música, a literatura e as estéticas escuras do mundo.

 

A fúria rebelde dos ardilosos timbres de Imamu Amiri Baraka fizeram de seus versos um incontestável chamado à revolução. Suas palavras escarradas em forma de poesia carregavam uma energia tão desafiadora e convicta que de modo inevitável atiçou o decoro das hegemonias artística e política estadunidenses. E foi assim que, fortemente armado, Baraka passou a nutrir diante do mundo uma ousadia febril, transformando sua turbulenta jornada de vida numa profunda busca pela compreensão das sensibilidades éticas e estéticas amefricanas. [1]


Muito dado às prodigiosidades, ainda jovem Baraka percebeu a potência da poética como matriz de uma expressão legítima na interpretação da vida negra diaspórica. Neste sentido, reuniu a musicalidade, o corpo e a palavra para iluminar brilhantemente a influência dos descendentes de africanos na cultura e na história; invariavelmente, seus caminhos criativos o levaram a se tornar escritor, poeta, ensaísta, crítico inovador, músico e esteta cuja obra ajuda a descrever e documentar vividamente os 80 anos que sua presença integrou este mundo, com as nuances raciais e desdobramentos implicados a partir de sua (sobre)vivência por entre os perigos que circundam um corpo preto masculino na diáspora.


Our world is full of sound

Our world is more lovely than anyone's

tho we suffer, and kill each other

and sometimes fail to walk the air.


We are beautiful people

With African imaginations

full of masks and dances and swelling chants

with African eyes, and noses, and arms

tho we sprawl in gray chains in a place

full of winters, when what

we want is sun.

We have been captured,

and we labor to make our getaway, into

the ancient image; into a new

Correspondence with ourselves

and our Black family. We need magic

now we need the spells, to raise up

return, destroy, and create. What will be

the sacred word? [*]


Com as elaborações barakianas mergulhamos não somente na história existencial das populações melanizadas, como também enfrentamos uma contundente denuncia à estrutura racista que perversamente moldou a supremacia branca norte-americana. Em seus passos, Baraka nos oferece uma lente através da qual podemos inquirir tanto a imaginação radical negra quanto a brutalidade da segregação na diáspora, ele fez de seu método criativo um cálculo impetuoso de choque e provocação ao público e à crítica e, mesmo sofrendo diante da invisibilidade e do apagamento ao qual foi severamente condenado, invariavelmente Baraka se tornou uma das vozes mais proeminentes da literatura das Américas. Sua verve, germinada no fecundo negrume jazzístico, pariu poemas, peças teatrais, ficções, críticas musicais e discursos que foram feitos para serem ouvidos, muito além que lidos. Sua voz transgressora fez jorrar um furioso spoken word [2], carregado de linguagem afiada, scats e ódio empunhados na perfeita junção entre revolta, poesia, performance e improvisação.


Pois bem, para investigar os caminhos deste homem negro que viveu as contradições inerentes à conjunção humana de forma plena e sem embaraço, busquei mirar naquilo que torna manifesto as muitas fases que orientaram as cinco décadas de sua produção e estilo. Em busca de completude, escolhi apresentá-lo a partir dos quatro aspectos ou quatro movimentos que, a cada etapa de sua vida, fertilizaram a cosmogonia imaginal de Baraka: no ato I revela-se a pessoa de Everett Leroy Jones, um jovem de classe média de Newark que sonhava um dia poder tocar "Autumn Leaves" [3]; no ato II temos LeRoi Jones, um poeta da geração Beat que teve sua consciência forjada nos ritmos elípticos do Bebop; já no ato III, nos deparamos com o borbulhar incandescente de Imamu Amiri Baraka, um homem com dignidade esculpida na fúria e na libertação do Free Jazz e do nacionalismo negro; no último ato anuncio a figura de Amiri Baraka, um homem já amadurado que abraçou o marxismo-leninismo, um maoísta cansado que buscou, em seu verbo, a libertação do terceiro mundo.