black dada nihilismus - a imaginação radical de amiri baraka

Atualizado: 5 de ago.




 

A Missa Negra é uma coluna — um culto — de periodicidade quinzenal dedicada a publicação de textos que investigam a verve da imaginação radical negra, conduzida por Nathalia Grilo. Aqui germinam a música, a literatura e as estéticas escuras do mundo.

 

A fúria rebelde dos ardilosos timbres de Imamu Amiri Baraka fizeram de seus versos um incontestável chamado à revolução. Suas palavras escarradas em forma de poesia carregavam uma energia tão desafiadora e convicta que de modo inevitável atiçou o decoro das hegemonias artística e política estadunidenses. E foi assim que, fortemente armado, Baraka passou a nutrir diante do mundo uma ousadia febril, transformando sua turbulenta jornada de vida numa profunda busca pela compreensão das sensibilidades éticas e estéticas amefricanas. [1]


Muito dado às prodigiosidades, ainda jovem Baraka percebeu a potência da poética como matriz de uma expressão legítima na interpretação da vida negra diaspórica. Neste sentido, reuniu a musicalidade, o corpo e a palavra para iluminar brilhantemente a influência dos descendentes de africanos na cultura e na história; invariavelmente, seus caminhos criativos o levaram a se tornar escritor, poeta, ensaísta, crítico inovador, músico e esteta cuja obra ajuda a descrever e documentar vividamente os 80 anos que sua presença integrou este mundo, com as nuances raciais e desdobramentos implicados a partir de sua (sobre)vivência por entre os perigos que circundam um corpo preto masculino na diáspora.


Our world is full of sound

Our world is more lovely than anyone's

tho we suffer, and kill each other

and sometimes fail to walk the air.


We are beautiful people

With African imaginations

full of masks and dances and swelling chants

with African eyes, and noses, and arms

tho we sprawl in gray chains in a place

full of winters, when what

we want is sun.

We have been captured,

and we labor to make our getaway, into

the ancient image; into a new

Correspondence with ourselves

and our Black family. We need magic

now we need the spells, to raise up

return, destroy, and create. What will be

the sacred word? [*]


Com as elaborações barakianas mergulhamos não somente na história existencial das populações melanizadas, como também enfrentamos uma contundente denuncia à estrutura racista que perversamente moldou a supremacia branca norte-americana. Em seus passos, Baraka nos oferece uma lente através da qual podemos inquirir tanto a imaginação radical negra quanto a brutalidade da segregação na diáspora, ele fez de seu método criativo um cálculo impetuoso de choque e provocação ao público e à crítica e, mesmo sofrendo diante da invisibilidade e do apagamento ao qual foi severamente condenado, invariavelmente Baraka se tornou uma das vozes mais proeminentes da literatura das Américas. Sua verve, germinada no fecundo negrume jazzístico, pariu poemas, peças teatrais, ficções, críticas musicais e discursos que foram feitos para serem ouvidos, muito além que lidos. Sua voz transgressora fez jorrar um furioso spoken word [2], carregado de linguagem afiada, scats e ódio empunhados na perfeita junção entre revolta, poesia, performance e improvisação.


Pois bem, para investigar os caminhos deste homem negro que viveu as contradições inerentes à conjunção humana de forma plena e sem embaraço, busquei mirar naquilo que torna manifesto as muitas fases que orientaram as cinco décadas de sua produção e estilo. Em busca de completude, escolhi apresentá-lo a partir dos quatro aspectos ou quatro movimentos que, a cada etapa de sua vida, fertilizaram a cosmogonia imaginal de Baraka: no ato I revela-se a pessoa de Everett Leroy Jones, um jovem de classe média de Newark que sonhava um dia poder tocar "Autumn Leaves" [3]; no ato II temos LeRoi Jones, um poeta da geração Beat que teve sua consciência forjada nos ritmos elípticos do Bebop; já no ato III, nos deparamos com o borbulhar incandescente de Imamu Amiri Baraka, um homem com dignidade esculpida na fúria e na libertação do Free Jazz e do nacionalismo negro; no último ato anuncio a figura de Amiri Baraka, um homem já amadurado que abraçou o marxismo-leninismo, um maoísta cansado que buscou, em seu verbo, a libertação do terceiro mundo.


Mas, antes de iniciarmos essa jornada, preciso afirmar sem encabulações que, não fosse a obstinação de Amiri Baraka, o termo "Black Aesthetics" [4] raramente teria sido proferido nos meios artísticos ocidentais.


Ato 1. A Nova Arka

Para falar sobre a chegada de Everett Leroy Jones ao mundo, é preciso primeiro situar esta leitura na espacialidade a partir da qual os caminhos sociais, raciais e ideológicos atravessaram sua existência antes mesmo de seu nascimento. Filho de uma família negra de classe média que residia na cidade de Newark em New Jersey, foi no ano de 1934 que o personagem principal de nossa história estreou no mundo. Precedido pela década de 1920 - um período decisivo para a história estadunidense - os anos 30 chegam um tanto conturbados após uma fase de intensa prosperidade econômica e do surgimento de novas estéticas significativas para o dinamismo econômico, artístico e cultural do ocidente.


O despontar da mídia, financiada pela nova indústria de publicidade massificada, impulsionou o Jazz que, aos poucos, foi atingindo o status de música clássica da América, um modo poderoso de definir e afirmar seu valor artístico nacional quando finalmente passa a ser reconhecido pelas populações brancas como uma das principais formas de expressão artística do globo. À medida que os aparelhos de rádio foram ocupando o cotidiano dos lares comuns, a indústria fonográfica ampliou o potencial da venda de discos; a introdução de inovações modernas, formas rítmicas de improvisação e um aspecto criativo bastante evidente no Jazz trouxeram à tona uma extrema sensação de liberdade e alegria para os salões dos bairros nobres. Assim, elevado à categoria de arte, este gênero musical passaria a ser visto como um influente elemento cultural ajudando a difundir valores e costumes por meio de sua exposição.


O ponto decisivo entre passado e futuro da música negra norte-americana foi chamado The Jazz Age, uma fase que seguiu do início do século até os anos 40. Segundo Alain Locke, a Era do Jazz foi “um amadurecimento espiritual” para artistas e pensadores negros norte americanos, que aproveitaram suas “primeiras chances de expressão coletiva e autodeterminação” para dar vazão à grandeza de suas produções artísticas. Pela primeira vez na história, as escuras sonoridades dos guetos foram aceitas pela classe média branca. Foi durante esse período, por exemplo, que a Velha Hollywood e seus musicais escapistas encontraram no Jazz a sua trilha primordial. O alcance do cinema fez com que o Swing [5] influenciasse o visual da época trazendo ao mundo uma estética renovada, o que contribuiu para uma visibilidade nunca antes alcançada na música. Enquanto isso na Europa, fronteiras raciais eram cada vez mais questionadas, a popularidade das artes negras atingia imensa amplitude e levava músicos de jazz e outros artistas norte-americanos a receber grandes homenagens, como no caso da talentosa e irreverente Josephine Baker, a primeira mulher negra a tornar-se ícone popular mundial. A partir daí, as batidas do Jazz estariam irremediavelmente entrelaçadas à juventude branca de uma geração que ansiava curtir os chamados “Roarin' 20s” [6].


A era do Harlem Renaissance vivia seu auge com o "New Negro Movement" [7], uma onda de energia criativa entre artistas, músicos e escritores diaspóricos surgida das mudanças drásticas que ocorreram na comunidade afro-americana desde a abolição da escravatura. A filosofia dos direitos civis foi reajustada, da abordagem conciliadora de Booker T. Washington para o posicionamento militante de WEB Du Bois, essas forças convergiram para ajudar na criação de um movimento que promoveu um sentimento renovado de orgulho racial, auto expressão cultural, independência econômica e política progressista. O “Novo Negro”, anunciou Locke, diferia do “Velho Negro” em assertividade e autoconfiança, o que levou os artistas dessa época a questionar padrões estéticos tradicionalmente brancos impostos de modo secular.


A industrialização também ajuda a explicar a ascensão do Harlem, com a dispersão de milhares de pessoas das áreas rurais para as cidades do Norte, configurando o que ficou conhecido como a Grande Migração. Nesse mesmo compasso, os descendentes de africanos de comunidades caribenhas também foram para os Estados Unidos na esperança de uma vida melhor. Essa confluência cultural concentrou numa mesma espacialidade artistas ambiciosos que passaram a encorajar uns aos outros, dando origem a uma nova cultura de massa, fazendo surgir uma poderosa manifestação que transmutou para sempre as estruturas raciais do ocidente. É nesse momento que o desenvolvimento econômico transforma o Harlem numa Meca das artes negras, o que durou aproximadamente da década de 1910 até meados da década de 30, período considerado a idade de ouro da cultura negra norte-americana. Na literatura, na música, no teatro e nas artes, ícones do Renascimento Negro como Langston Hughes, Claude McKay e Georgia Douglas Johnson, exploraram a beleza e a dor da vida melanizada através do Jazz e do Blues buscando definir a si mesmos e sua comunidade fora dos estereótipos brancos, deixando um poderoso legado para os talentos que surgiriam no decorrer do século XX. Nascia aos poucos a ética do Jazz, sugerindo um modo de vida repleto de atitude, uma forma audaciosa de encarar o mundo a partir da música e da literatura negra.


Já no final dos 20, exatamente em 1929, a Grande Depressão surge como um fenômeno que gerou um forte clima de pessimismo econômico, se estendendo até a Segunda Guerra Mundial com a ascensão do nazismo e do fascismo na Europa. Essa fase ficou conhecida como a pior recessão da história dos Estados Unidos, marcando um momento tenso que fez desmoronar a prosperidade crescente e a sensação de movimento e velocidade que precedeu o crash da Bolsa de Nova York. Nesses tempos difíceis, o Jazz que anteriormente simbolizou a prosperidade econômica, serviria agora como elemento pacificador dos ânimos de milhares de miseráveis e desempregados que arrastavam pelas ruas suas desesperanças. Ou melhor, nas palavras de Hughes:


“(...) But jazz to me is one of the inherent expressions of Negro life in America; the eternal tom-tom beating in the Negro soul—the tom-tom of revolt against weariness in a white world, a world of subway trains, and work, work, work; the tom-tom of joy and laughter, and pain swallowed in a smile.” [**]


Não obstante, a linguagem do Swing fez surgir o início do que hoje conhecemos por cultura Pop, no sentido de uma obra musical universal dotada de apelo popular, mostrando-se capaz de criar uma espécie de ligadura na música estadunidense, unindo pessoas e culturas. Por isso, apesar de ter sido uma verdadeira catástrofe, a Grande Depressão não fora capaz de ofuscar o brilho de figuras lendárias como Louis “Satchmo” Armstrong, que nesse período atingiu proporções épicas através da verve improvisada de seu trompete e do incomum scat singing [8] que o consagrou como um dos músicos mais importantes da história. Junto com outros nomes de igual influência como Earl Hines, Coleman Hawkins, Count Basie e Duke Ellington, esses artistas configuram a vanguarda do Swing Jazz, atingindo a fama mundial através das primeiras turnês realizadas na Europa, atuando como autênticos representantes das culturas estadunidenses.


Após anos de dedicado trabalho, músicos negros finalmente puderam colher os frutos daquilo que já vinham há algum tempo definindo como as estruturas de desenvolvimento do que faria o Jazz ser reconhecido como arte. Esta convergência teve total impacto na imagem que a figura do solista passaria a ter na cena musical, atingindo um nível supremo de invenção melódica, impulso rítmico e habilidade técnica acima de qualquer coisa que tivesse vindo antes. A partir daí as inovações das sonoridades negras se expandiram num campo de liberdade onde homens retintos passariam a ser respeitados e invejados por reesculpir essencialmente a qualidade da música a partir de suas próprias personalidades, ecoando o sentimento de grandeza de suas existências artísticas, criando a estética de uma masculinidade inventiva e refinada, numa forte reverência e celebração à autenticidade.


Contudo, não demorou muito para que a violenta desigualdade racial evidenciasse a apropriação cultural e os acessos privilegiados que músicos brancos ostentavam. Aos poucos a cena do Swing foi invadida pelo esvaziamento e pelo desejo recreativo da população burguesa. Ainda assim, os artistas negros cintilaram em meio a uma produção sensível repleta de rebeldia, improvisação e inovação, iniciando no final dos anos 30 a abertura de caminhos para os jovens expressionistas que muito em breve fariam brotar no Minton's Playhouse a ousada proporção arrebatadora do Bebop, reconfigurando para a eternidade a figura do jazzman como um símbolo modernista numa proposta de mundo realmente radical.


É em meio a essa nova arca fecunda que o espírito criativo do garoto Everett Leroy Jones florescerá. Ele, que teve a linguagem musical como interesse primeiro desde a infância, evocará a magia africana da blue note nas funduras de sua sensibilidade, tornando inegável a influência das poéticas negras em todas as suas criações ao longo da vida.


Dentro em pouco o menino Leroy se tornará o ícone maior da chamada Jazz Poetry, sob as auspiciosas bênçãos de seu mais velho, Langston Hughes.


Continua…

 

Traduções: [*] Trecho do poema Ka’Ba escrito por Baraka em 1972.


Nosso mundo é abundante de sons

Nosso mundo é tão encantador quanto qualquer outro

Mesmo sofrendo, nos matando

E por vezes falhando em nos alegrar.


Somos um povo fantástico

De Africanas imaginações


Cheios de máscaras e danças e cantos prenhes

Com Africanos olhos e narizes e braços


Mesmo que dispersados com algemas cinzas num lugar

Repleto de invernos, quando o que

Desejamos é sol.


Nós fomos capturados, 
e nós maceramos a fuga, até

a imagem anciã; até o novo


Encontro com nós mesmos

E com nossa família Negra. Precisamos de mágica

agora precisamos dos cantos, para irromper

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