black dada nihilismus - a imaginação radical de amiri baraka, parte II

Atualizado: 5 de ago.



 

A Missa Negra é uma coluna — um culto — de periodicidade quinzenal dedicada a publicação de textos que investigam a verve da imaginação radical negra, conduzida por Nathalia Grilo. Aqui germinam a música, a literatura e as estéticas escuras do mundo.

 

Ato II - LeRoinology Por Nathalia Grilo


A consciência sobre a natureza espacial da segregação chegou muito cedo na percepção de mundo do garoto Everett Leroy Jones. Apesar de ter sido educado em um lar estruturado e seguro, o fato de viver numa família negra de classe média baixa não o poupou da realidade suburbana da Newark dos anos 30 e 40.


O relevo estético onde sua infância se desenhou foi um terreno um tanto confuso dissipado em caos racial que tornou a convivência forçada da comunidade negra junto à comunidade italiana, um emaranhado ininteligível de muitas contradições. Ali as crianças se perdiam nas tramas incompreensíveis dos adultos, eram amigas e inimigas, apesar de viverem nas mesmas ruas e frequentarem as mesmas escolas.


O grupo familiar ao qual Roy pertencia conseguiu a muito custo criar uma esfera protetiva no lar que habitavam. Seu avô, o patriarca da família, foi um importante presidente da escola dominical na Igreja Batista e ostentava certa influência política naquela comunidade. Sua avó, uma mulher bondosa que enrolava os cabelos das dondocas de bairros distantes, representava o afeto e a firmeza da casa. Enquanto seus pais, um pacato supervisor postal e uma ambiciosa assistente social, tentavam com muita dificuldade manter um certo status. Existia ainda a figura de seu tio, um viajante que corria o mundo sob os trilhos do trem e inspirava em Roy uma liberdade moderna. Já adulto, ele diria que sua família nutria os superficiais anseios vindos da classe média branca, os mesmos anseios que constituíram o que o sociólogo E. Franklin Frazier descreveria como "a burguesia negra" [1], mesmo que tivessem chegado a Newark sob a condição de “refugiados” vindos do sul do país junto a tantas outras famílias que buscavam escapar da fúria terrível da Klan.


Sob o calor dos conflitos raciais, Roy cultivava sua imaginação por entre playgrounds comendo doces, gargalhando e correndo pelas ruas com seu grupinho misto “The Secret Seven”, o primeiro movimento coletivo liderado por ele. Nessa fase de sua vida o rádio foi eleito a escola mais importante, e durante toda a juventude as ondas eletromagnéticas transmitiram as populares radionovelas que levariam Roy a desenvolver fortes imagens através das histórias que ele tanto admirava. Dentre seus programas favoritos estava ‘The Shadow’ [2], um super-herói que vivia sob o manto da invisibilidade na figura de Lamont Cranston, saído das histórias em quadrinhos para o rádio, ele despertou forte fascínio na maior parte dos garotos estadunidenses, perseguindo e erradicando o mal do mundo. A febre que Roy nutria pelo personagem era tão grande que seu pai até o levou para ver a gravação de um programa na Radio City. Ele pôde assistir os atores com roteiros nas mãos elaborando efeitos sonoros e teve a sorte de ver o artista que interpretava o Shadow pessoalmente.

Orson Welles, com 22 anos, estrelando como Lamont Cranston, The Shadow. Na rádio MBS.

De alguma forma essas reminiscências sonoras estariam para sempre entrelaçadas à figura de seu pai. Mais tarde, tais lembranças formariam parte central de sua escrita, tanto em sua poesia quanto em suas peças, como quando escreveu seu primeiro poema “In Memory of Radio” [3], revelando um transbordamento de referências da cultura pop norte americana para evocar ostensivamente uma sensação de nostalgia e descontentamento com os valores e costumes sociais convencionais, no melhor estilo Beat Poetry.


‘(...) Saturday mornings we listened to the Red Lantern & his

undersea folk.

At 11, Let's Pretend

& we did

& I, the poet, still do. Thank God! (...)’ [4]


Os contos de Scott Fitzgerald, as f