black flower



Colagem por Rodrigo Corrêa




A Fresta é uma coluna — ou colina — de periodicidade quinzenal dedicada a publicação de textos e imagens realizados no seio do movimento surrealista e arredores. Por Natan Schäfer



“Ted Joans (1928 - 2003) foi poeta, artista visual e trompetista. Foi um surrealista, também associado à Beat Generation. Porém Ted era verdadeiramente original e seu trabalho desafia categorizações.” - nota biográfica extraída do site https://www.tedjoans.com/ [1] O texto abaixo, publicado na revista L’Archibras 3, de março de 1968, cuja capa foi dedicada ao movimento Black Power, representa bem as afinidades do movimento americano com o grupo surrealista parisiense, o qual então apoiava radicalmente as revoltas em curso.


Flores pretas cresceram em todas as capitais e cidades dos Estados Unidos. Estas flores pretas são um enorme perigo ao Sonho Americano. Elas não estão cobertas de alegria, como seus irmãos e irmãs pretas no Paraíso, obra-prima de Hieronymus Bosch. Estas flores pretas estão transformando o Sonho Americano num pesadelo vivo. Não há como escapar das flores pretas. Elas foram plantadas (ou melhor, transplantadas por traficantes de escravos) e foram forçadas a trabalhar, a combater e morrer pela América. A geração atual vem trazendo as frutas mais fortes e mais ativas. As flores pretas de hoje são o Mau-Mau[1] da América. Guerrilhas surrealistas à la “Metrópolis”. Homens Maldoror com tez de arco-íris brandindo em suas bandeiras somente a cor preta! Jovens “hippies” (bem informados) cheios de sabedoria, que não acreditam nem um pouquinho na religião do homem branco. Flores pretas não aceitam brancos “liberais” como amigos ou dirigentes. Eles estendem a mão da amizade somente aos brancos revolucionários. O homem branco escolhido como amigo deve estar pronto para pegar em armas para ajudar as flores pretas a destruir o sistema americano. O sistema americano é o sistema imperialista mais diabólico que existe na superfície terrestre. A destruição do planeta é seu objetivo final. As flores pretas acabam de atingir uma força de vinte e cinco milhões. Elas podem dirigir e ser a vanguarda do ataque para barrar a América. As flores pretas não são como estas flores de plástico coloridas (Roy Wilkins, Withey Young, Sammy Davis Jr., Ralf Bunch, etc.) que qualquer um pode comprar na lojinha da esquina. As verdadeiras flores negras são vivas, suas raízes são profundas e suas sementes resistentes e prontas para se infiltrar. Muitos críticos brancos dizem que as flores pretas dos Estados-Unidos não têm poder político suficiente para realizar uma revolução social. Mas o que estes críticos não querem ver é o impacto da ação negra contra o sistema bipartido que existe na América. Há americanos brancos, intelectuais e outros, que se unirão às flores pretas para combater os status quo da máquina política. Estes brancos sabem que eles devem estar prontos para combaterem com outras armas que não só as palavras. O racismo nos Estados-Unidos é um problema branco, não é um problema negro. Portanto, os intelectuais brancos deveriam se ocupar em corrigir suas comunidades brancas, ao invés de tentarem guiar ou de darem conselhos ao povo negro. As flores pretas se deixaram pisotear por muito tempo para agora fazerem acordos ou se contentarem com certificados de garantias. Eu sou um negro americano, nasci pobre, morei nos guetos e tive sorte suficiente para sobreviver. Escolhi o surrealismo quando era muito jovem, antes mesmo de saber do que se tratava. Sentia uma camaradagem, como a que tinha encontrado no Jazz. Era a única coisa que levava jeito de perturbar os poderes que me dominavam. Nasci flor preta e consequentemente revolucionária, apesar da minha pessoa insignificante. Hoje em dia nos EUA há dois tipos de revolução em curso: a revolução oficial e consentida, e a revolução do Poder Preto. Esta última é levada ou inspirada pelas flores pretas. Algumas dessas flores pretas são Stockley Carmichael, Rap Brown, Leroi Jones, Floy McKissic, Ron Karenge. A outra revolução, que chamo de oficial e consentida, é composta em sua maioria de intelectuais brancos e jovens. O slogan: Poder Preto começou quando Malcom X se afastou dos muçulmanos negros e formou sua própria organização, a OAU, Organização pela Unidade Afroamericana. Este grupo inteiramente negro não tinha nada a ver com a estúpida e prudente moralidade religiosa que tinha sido imposta a todos os membros do Islã negro. Malcolm X então estava no bom caminho do Poder Preto. Ele propunha (o que o surrealismo sempre foi) um modo revolucionário completamente livre rumo à libertação total do homem. Malcolm X também se dava conta da necessidade de internacionalizar a luta e, por isso, unir as flores pretas com as outras flores de cor. É por essa razão que o poder branco fez com que ele fosse assassinado. É verdade que ele foi derrubado no Harlem, por assassinos pretos e cercado por um público quase inteiramente preto; mas certamente se tratava de um trabalho dos poderes diabólicos brancos que viam em Malcolm X o signo de sua capitulação final. O primeiro passo deste assassinato foi preparado aqui mesmo em Paris. Estes fulanos do poder branco internacional são os mesmos racistas que jogaram uma bomba numa sala de catequese, matando quatro crianças pretas em Birmingham. Eis aí o que é o poder branco internacional que governa não somente os EUA, mas quase todo o mundo. Embora ainda haja homens brancos que temem que “Poder Preto” signifique exatamente a mesma coisa que o poder branco, é aí que eles se enganam completamente. O Poder Preto não tem interesse algum na supressão dos brancos ou na conquista de seus territórios. Na verdade o Poder Preto não tem interesse algum nos próprios brancos. Flor Preta do Poder Preto, Stokley Carmichaël, com quem estive durante sua intervenção na Grã-Bretanha no verão passado, disse: “Os pretos foram oprimidos, eles sofreram lavagem cerebral e a dominação viciosa da sociedade branca somente por serem pretos. Porém agora devemos organizar-nos a partir de nossa negritude e utilizá-la para conquistar o poder a fim de ter controle pleno e inteiro sobre nossos próprios destinos e desejos. Mas isso deve ser realizado sem integração. Pois integrar-se é rebaixar-se ao nível do homem branco americano, é aceitar seu método de poder branco rumo a um inferno ainda pior que este onde já estamos. E todo homem que pretende que o preto não deve se defender é automaticamente meu inimigo. Atualmente muitos não-brancos no mundo deixaram a propaganda fazer sua cabeça, tornando-os partidários dos brancos ou mesmo se venderam. E quando nos tornamos partidários pretos, partidários amarelos, partisans morenos, etc., os brancos, aí incluídos tanto intelectuais brancos quanto negros, eis que urram que somos anti-brancos. Afinal de contas, o racismo é o jogo de potências internacionais brancas!”. André Breton foi um homem que tinha um enorme valor para mim; eu o amava. Ainda espero que os EUA produzam um homem branco que valha tanto quanto André Breton. Portanto, não posso dizer que amo sequer um branco americano. Talvez o grupo de Chicago, dos Rosemont, pertença a uma nova raça de brancos? Nos EUA para os pretos o Poder Preto é uma declaração preta de independência. O Poder Preto traz dignidade e unidade espiritual aos pretos americanos. Nós, flores pretas, não queremos melhorar o governo branco. Nós nos colocamos em marcha para mudar o governo. Nós sentimos que chegou o momento. Nós não deixaremos estes policiais (que têm permissão para matar) nos varram, como fizeram os nazistas com seis milhões de Judeus. O afrontamento violento é tão necessário quanto inevitável. Cada verão, nas cidadezinhas e nas grandes cidades, flores pretas se erguem em direção ao sol, de onde elas captam os cálidos raios que se alongam na paisagem ingrata e suja, queimando a América de preto. No verão passado 32 cidades foram gravemente atingidas. Um mesmo “verão” poderia acontecer de novo durante o inverno ou mesmo estender-se, graças à ação das flores pretas, durante as quatro estações. Não há razão para adiar isso, pois o diabólico sistema americano não vai esperar até o verão: quando a vida é fácil (para o brancos); peixes saltando (para os brancos); algodão maduro (para os brancos); e que seu pai (branco) é rico, etc., como disse Gershwin, ele que roubou essa música dos pretos e a proclamou como sua[2]! E por essa meia-dúzia de intelectuais que deploram a violência, gostaria de terminar dizendo que não sou Martin Luther King, esse Salvador Dalí da revolta preta. Emprego meus sentidos apurados pelo surrealismo. Sou Maldoror, Malcom X, Marquês de Sade, Breton, Lumumba e muitos outros ainda, tantos que você não daria conta de conhecer todos. Eles são meu combustível, minha resistência, e continuarei a empregar todos os meios para conquistar minha liberdade que se tornará liberdade para todos. O Poder Preto é um meio de conquistar esta liberdade. Ted Joans Tradução de Natan Schäfer


“[1] Talvez ainda mais esclarecedor que nota biográfica seja o lema de Ted Joans: “O lema de Ted Joans: ‘Jazz é minha religião e Surrealismo meu ponto de vista’” (Jazz is my religion, and Surrealism is my point of view).”

“[2] Movimento de descolonização iniciado no Quênia em 1952.”

“[3] “Summertime/And the livin’ is easy/Fish are jumpin’/And the cotton is high/Your daddy’s rich ...”. Summertime (1935), do compositor estadunidense Ira Gershwin.”

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