saudações, bons vizinhos

Atualizado: 26 de jan.


Colagem por @at0falho
 

O texto “saudações, bons vizinhos” apresenta uma das reflexões de Langston Hughes sobre cultura internacional e integração cultural. Marcado pela “Política da Boa Vizinhança”, criada pelo governo de Franklin D. Roosevelt durante a Conferência Panamericana de Montevidéu em 1933 (o que implica um leitura informada pela conjuntura do pré-Segunda Guerra Mundial), Hughes reflete sobre a necessidade de que os estadunidenses, principalmente os de cor, buscassem um conhecimento maior das culturas de matrizes afro-indígenas da América Central e do Sul. Marcante é a consideração de Hughes de que o racismo, nestas regiões, é de certa forma, mais ameno ou menos nuançado do que no seus EUA nativo. Reflexo da cordialidade brasileira que vivia período de franca exposição em terras do Tio Sam?


Publicado originalmente em LHP 482 (ca. 1945).

 

A maior parte de nós nos EUA conhece muito pouco sobre nossos irmãos Latino-Americanos ao Sul, sobre sua cultura e seus modos de vida. Alguns de nossos homens de negócios sabem algo sobre eles em termos de comércio. O vasto público estadunidense sabe deles somente pela rumba, o tango e o samba. Até recentemente, os melhores embaixadores das Américas ao nosso Sul foram os musicistas e performers: os Xavier Cugats, as Elsa Houstons, e as Carmen Mirandas, que chegaram até nós por suas canções e ritmos incomparáveis. De Cuba, Eusebia Cosmé trouxe uma leitura magistral e dramática de sua poesia. Por outro lado, nós enviamos à América Latina algumas de nossas bandas de jazz, alguns de nossos cantores e recentemente alguns de nossos escritores e estrelas de cinema. Em ambos os casos, sem dúvida, os musicistas e cantores atingiram audiências amplamente populares. Certamente, eu não pretendo descontar seu valor em termos de uma boa vizinhança (a música sempre teve uma capacidade de chegar ao coração mais rápido que as palavras), mas agora é a hora de uma forma de comunicação mais exata, mais explícita e mais compreensiva para a troca de valores culturais.

Como um estadunidense de sangue negro, eu, também, me preocupo profundamente com essa troca de valores culturais. Marian Anderson e Edward Matthews carregaram suas artes do palco e nossas canções aos nossos irmãos do Sul. Em um campo mais popular, Josephine Baker, Etta Moten e outros advindos do teatro negro estadunidense, os visitaram. A banda de John Kirby está prestes a ir ao Rio. Estas pessoas são representantes felizes de uma fase da cultura negra estadunidense. Mas eu gostaria de ver, também, escritores e acadêmicos de cor levando à América Latina outras fases de nossas atividades: homens como os sociólogos Dr. W. E. B. Du Bois e Charles S. Johnson; como os escritores Arna Bontemps e Richard Wright, cujo romance, Native Son, foi um grande sucesso tanto no Brasil quanto na Argentina; editores como Elmer Carter, da revista Opportunity, Roy Wilkins, da The Crisis, e Carl Murphy, chefe do grande jornal negro Baltimore Afro-American; assim como importantes líderes das atividades negras, como Mary McLeod Bethune, distinta mulher negra da National Youth Administration, e Walter White, secretário da National Association for the Advancement of Colored People.

Ao mesmo tempo, nós, dos EUA negro gostaríamos de ter o prazer de receber Nicolás Guillén, grande poeta cubano negro; de conhecer melhor o pardo Diego Rivera, pintor indígena mexicano que uma vez me disse ter uma avó negra; e de receber da Venezuela e do Brasil, de Trinidad e do Panamá, muitos outros representantes de pele escura das culturas latinas cujos nomes não são ainda conhecidos neste país.

Infelizmente, aqui nos EUA, a vida ainda é muito cerceada e seca em termos de cor. Sabemos que nas Américas ao nosso Sul, onde há milhões de pessoas de sangue indígena e negro, as linhas de raça e cor não são tão bem delineadas, ou não tão dura e precipitadamente. Nunca ouvimos falar sobre linchamentos lá, ou vagões Jim Crow, ou de divisões segregadas no exército e na marinha, ou mesmo de uma Cruz Vermelha que aceitará somente sangue branco. Tal estupidez, graças a Deus, não são uma parte proeminente do contexto latino-americano, quaisquer que sejam seus outros defeitos, do ponto de vista dos estadunidenses. Assim, o negro estadunidense, sob a política de boa vizinhança que vem sendo estabelecida, deseja receber em nossos Estados Unidos, todos os representantes das culturas latino-americanas, quaisquer que sejam suas compleições. Sentimos que nossos amigos latino-americanos podem nos ensinar muito em termos de tolerância e boa vontade, em termos de viva e deixe viver, em termos do ritmo total e da alegria de viver que eles conhecem debaixo do Cruzeiro do Sul. Estamos felizes que seus estadista, seus artistas e seus homens de letras nos visitam cada vez mais nestes dias. E também que seus atores e roteiristas venham a Hollywood, a cidade da grande tela, onde negros, indígenas e orientais têm sido, por tanto tempo, meras caricaturas de si mesmos: tolos, palhaços ou vilões. E uma vez que o cinema é certamente o meio mais poderoso de entretenimento e propaganda no mundo, esperamos que escritores e atores da América Latina digam àqueles de Hollywood que realmente não compensa fazer todos os heróis brancos e nórdicos, e os vilões, serventes e gigolôs negros. Negros, orientais, indígenas e latino-americanos têm seus heróis também.

Nossos amigos do grande continente da América do Sul e do Caribe têm muito a nos ensinar aqui nos EUA. Eles nos trazem tanto quanto nós os damos, senão mais. Em termos de relações raciais eles sabem, certamente mais do que nós sobre o que significa ser um bom vizinho. Humildemente, eu espero que aprendamos com eles.

Por um período de anos eu recebi diversos recortes de jornais e revistas latino-americanos de traduções de um certo poema meu publicado há quase vinte anos atrás na [revista] The Crisis. Esse poema se intitula “I, Too” e é o seguinte: I, too, sing America. Eu, também, canto a América

I am the darker brother; Sou o irmão mais escuro

They send me to eat in the kitchen Eles me mandam comer na cozinha

When company comes Quando chega a visita

But I laugh, and eat well, and grow strong. Mas eu rio e como bem, e fico forte.

Tomorrow, I’ll be at the table Amanhã estarei à mesa

When company comes. Quando chegar a visita.

Nobody’ll dare say to me, Ninguém se atreverá a dizer

“Eat in the kitchen,” then. “Come na cozinha”, então

Besides, they’ll see how beautiful I am, E mais; eles verão como sou belo.

And be ashamed. E terão vergonha.

I, too, am America. Eu, também, sou América.


 

Escute "Eu, também", de Langston Hughes, declamado por Gustavo Racy.





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