carta a fady stephan


Alain Jouffroy no filme A Colecionadora [La Collectionneuse] (1967), de Eric Rohmer.


 

A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.



 

Distante da enxurrada de imperativos, muitos dos quais se pretendem performativos[1], das redes ditas sociais (e.g. compre isso, faça aquilo, seja assim, lute assado, etc.) que não passam de ordens provindas de uma moral estreita, Alain Jouffroy (1928 - 2015) — que participou do surrealista de Paris por muitos anos e, apesar de envolver-se em diversas polêmicas e controvérsias ao longo da sua trajetória, sempre manteve estreitas relações com o movimento — é categórico e sutil ao incitar à escrita, abrindo em meio a todos aos fechamentos discursivos uma fresta. Aliás, no prefácio a Clair de Terre de seu amigo André Breton, Jouffroy afirma que “um grande poeta não se expressa: ele fala e escreve; e sua fala e sua escrita são a liberdade feita leoa e o mundo feito leão, a história que faz todas as portas baterem e as grades pulverizarem-se”.

Além dessa porta que se abre ao longo de uma trajetória, e ao seu fim balouça como um barco abandonado ao vento convidando os aventureiros a entrarem, nesta breve carta endereçada ao arqueólogo, filólogo e escritor libanês Fady Stephan, que publicamos nest’A Fresta pela primeira vez em português[2], Jouffroy indica que a revolta se inicia antes de tudo no eu, constituindo aquilo que ele denomina “individualismo revolucionário” e do qual, ainda segundo ele, o surrealismo é uma antecipação[3].

A partir do que desenvolve Jouffroy, poderíamos dizer que é o voltar-se do eu sobre si, sobre o que nele não se sabe e sobre sua história um eterno re-torno e uma re-volta — o que permite o ser numa atuação efetiva, desejante e mais-que-realizadora no presente.


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Comemoração de Alain Jouffroy. No dia seguinte à sua morte, recebo uma ligação de nosso amigo Fady Stephan[4]. Ele me fala da “Carta Vermelha”[5]. Trocamos duas mensagens (8 de janeiro de 2016). M.D[6].


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Na época eu estava envolvido com a “Carta vermelha”: se hoje você for ao Centre Pompidou, ao que me parece você vai deparar-se com um cartaz onde está exposta minha contribuição “histórica”!!!!!!! Mas eu não quero falar sobre isso. Trata-se de publicar um texto comovente DE Jouffroy: se você tem um, mesmo antigo, me diga.

Um abraço,

Michel


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Caro Michel,

Eu enviei-lhe uma cópia da carta do Alain. Talvez você não tenha percebido. Ela está escrita com tinta (caneta) vermelha e, em tom pessoal, ela questiona sobre a atualidade do surrealismo. Eu perguntava-lhe então se o que eu tinha escrito mostrando as relações entre Nerval e o drusismo[7] era positivo. Eu lhe falava sobre nosso país ocupado.

30 de maio de 2001


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Caro Fady,

Sinto muito que você tenha de viver em meio a indivíduos e povos vestidos com as camisas-de-força das mais diversas loucuras, e cujas armas advém de várias crenças em Três Deuses Únicos absolutamente contraditórios, portanto irreconciliáveis[8]. (Recentemente em Lagos, na Nigéria, onde passei alguns dias para ler meus poemas, assim como você muitos poetas nigerianos perguntaram-me como a gente poderia servir-se do surrealismo para instaurar uma verdadeira democracia na Nigéria e resolver os problemas da excessiva quantidade de minorias…!!!) Seria portanto necessário voltar a Rimbaud e ao seu projeto de criar uma língua universal! — Para mim, a quem não basta explicar o funcionamento psíquico do inconsciente, e que procuro articular com esse estudo primeiro também o inconsciente físico, tal como ele foi definido por Hans Bellmer na Anatomia da imagem[9] e que Jung chamava de "inconsciente coletivo” — e isto para além do surrealismo propriamente dito — somente acredito ainda no individualismo revolucionário (livro que foi reeditado há três anos pela Gallimard na coleção filosófica de bolso “Tel”) para tentar superar, primeiro em si, os tumultos e os deslocamentos devidos aos pensamentos unilaterais, necessariamente conflitantes e portanto fontes de mortes e de assassinatos. Se eu for, como pretendo, a Beirute este ano e se aí me derem liberdade, tentarei transmitir essa mensagem. Quanto à minha última antologia de poemas: É, por toda parte, aqui[10] acaba de ser lançado pela Gallimard. Vários poemas deste volume, dentre os quais Ultima Cena, que é um estudo virulento do belo afresco de Leonardo Da Vinci na igreja de Santa Maria da Graça, em Milão, são questionamentos radicais feitos a todas as religiões — sem exceção. Portanto, é preciso antes de tudo escrever, e não contentar-se em falar, ou calar-se! Fazer essa escrita transbordar para além das fronteiras, como uma inervação múltipla (o termo é de Novalis). Realizar uma “obra”, uma “Grande obra”[11]. É por isso que lhe digo: Escreve — e coragem!


Seu querido amigo,

Alain J.


 

[1] vide Zeitbezug und Sprache [Relação temporais e língua], de Erwin Koschmieder (Meiner, 1929). [2] Carta publicada originalmente em 2016 na revista Po&sie n° 155, fundada por Michel Deguy em 1977. [3] Vide o prefácio de Alain Jouffroy ao volume Clair de terre (Gallimard, 1966), de André Breton. [4] Nota do tradutor: Fady Stephan [5] N. do t: Título do prefácio que Jouffroy escreve para O fim e a maneira [La fin et la manière], de Jean-Pierre Duprey (Le Soleil Noir, 1965; ilustrado por Robert Matta), que também faz referência às CARTAS VERMELHAS endereçadas ao homem futuro que cada qual leva em si [LETTRES ROUGES adressées à l'homme futur que chacun porte en soi], poster-panfleto publicado pela Soleil Noir em 1965 que reúne algumas das reações geradas pelo texto de Jouffroy, dentre as quais as de Michel Deguy, Stanislas Rodanski e outros. [6] Abreviação de Michel Deguy (1930), poeta francês traduzido no Brasil por Paula Glenadel, Marcos Siscar e Mário Laranjeira. [7] N. do t.: Os druses são uma pequena comunidade religiosa autônoma de língua árabe que tentou reformar o Islã. O drusismo ou unitarismo druse integra em si noções filosóficas pitagóricas, neoplatônicas, budistas e hinduístas. [8] N. do t.: grifos do autor. [9] N. do t.: o título exato do livro é Pequena anatomia da imagem (1957). [10] N. do t.: coletânea que reúne poemas de Alain Jouffroy escritos entre 1955 e 2001. Na contracapa do livro, podemos ler o seguinte poema: “Ter escrito, escrever, manifestar o ser,/ Sempre nascer e renascer — O eu que fala não está em mim./ Cinquenta anos de fala invisível/ E este defeito: ser mortal,/ Quando se vive, cada segunda, na eternidade mar-sol./ Extravagância, deslumbre,/ Sem reconhecimento?/ Não: todos os jatos, todos os jogos/ Da verdade prática./ Sim, poesia absoluta, política, física,/ Única chance de transformar a vida./ Por todo parte é aqui, não é?”. [11] N. do t.: a Grande Obra, ou em latim Magnum opus, trata-se de uma realização alquímica.

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