como um pint de guinness - parte 3

Atualizado: 27 de jan.



 

Dando continuidade à nova coluna em nosso blog, a Balanço & Fúria!, a terceira e última parte de "como um pint de guinness", texto dedicado ao compositor irlandês Phil Lynott.

Muitos de vocês devem conhecer o podcast de mesmo nome, produzido por Rodrigo Correa, um de nossos editores. Agora, a Balanço & Fúria inicia colaboração com a sobinfluencia edições com um primeiro texto, compartilhado com a coluna Harlem.

Embora a coluna Harlem tenha recebido esse nome em homenagem a esse coletivo de pensadores e artistas negros ainda pouco estudados entre nós, as publicações tomaram proporções maiores, apresentando traduções de Chinua Achebe e de poetas nigerianos, se tornando uma coluna em homenagem a autores e autoras pretos.as que não foram ainda traduzidos entre nós. No texto que inicia a coluna Balanço & Fúria, nos servimos da confluência entre o swing dos pensadores da Harlem Renaissance e a negritude, e traçamos algumas reflexões sobre esse que foi o primeiro grande astro internacional do rock irlandês, e que viveu uma vida particular, desde a infância, como uma das poucas pessoas pretas da capital do país insular e que teve, por muito tempo, sua precoce morte muito mais enfatizada que sua vida potente.

 

This Boy is Crackin'up

Com o passar do tempo, e até hoje, talvez, Lynott se tornou uma imagem icônica do roqueiro: calças de couro, munhequeiras e estilo inconfundível. Mulherengo, briguento e malandro. Entretanto, são inúmeras as testemunhas de que Lynott era, desde cedo, tímido, extremamente polido e um “shoe gazer”, ou seja, alguém que olha para os próprios sapatos, que fica de cabeça baixa, principalmente no palco. À medida em que o sucesso crescia, porém, Lynott performou cada vez mais a imagem que se esperava de um astro. Ao rock’n roll, logo se somou o sexo, ao baseado, as picadas e os tiros. A delineação mais clara de um som pesado, que é esboçada no sucesso “The Rocker”, do álbum Vagabonds of the Western World, de 1973, introduz o arsenal de sexo, violência, motocicletas e a primeira pessoa. A isso somou-se a transformação da própria presença de palco de Lynott, que agora agachava com o baixo entre as pernas, usando a proteção espelhada do instrumento para refletir as moças bonitas da plateia.


Se, antes, a Irlanda heroica e mitológica era evocada constantemente nas letras do dublinense, agora era ele mesmo que surgia como um rebelde que não mais buscava o “lugar feliz” da terra natal, mas a festa, a briga, a bebedeira e a azaração. É desse impulso que surge um dos maiores hinos do rock, "The Boys are Back in Town", em 1976, que evoca um sentimento comunitário de reunião, reminiscente da evocação identitária tão importante à ilha esmeralda. O novo Lynott, o Lynott bad boy, que cantava sobre más reputações (“Bad Reputation”), fugas de prisão (“Jailbreak”), e brigas (“Fighting my Way Back”), inseria-se no universo masculino sem, no entanto, ser, ele mesmo, um grande arruaceiro, à despeito de algumas brigas que, segundo Scott Gorham, guitarrista da banda, nem sempre eram evitáveis (consequências do sucesso), e percalços com a polícia por conta de posse de entorpecentes. Ainda assim, o componente autobiográfico permanecia, como no caso da canção “Warriors”, do álbum Jailbreak, de 1976 que, cantada na terceira pessoa evocava o “live fast die young” (viva rápido, morra jovem) de consumidores pesados de drogas. O mesmo pode ser dito de “Opium Trail”, do álbum seguinte, Bad Reputation, que, segundo Lynott, em entrevista de 1977, fora escrita para que as pessoas soubessem do risco das drogas. Ted Carroll, empresário da banda, acreditava que, já neste momento, Lynott tentava dizer algo sobre si.


O terceiro elemento da figura do rocker, o sexo, foi introduzido extensamente em canções como “Don’t Believe a Word”, do álbum Johnny the Fox, de 1976, “Romeo and the Lonely Girl”, de Jailbreak, expressam uma postura que, de fato, parecia cada vez mais constante no comportamento de Lynott, o sexismo que servia para conquistas passageiras, custasse o que custasse. Com o tempo, as personas que Lynott passava a performar, provavelmente porque descobria em si tais propensões, mais que apenas respondendo a algum tipo de “demanda”, foram ficando indistinguíveis entre si. O macho e o homem doce, o encrenqueiro e o cavalheiro polido, o cafajeste e o romântico ficavam cada vez mais misturados, e os limites cada vez mais indiscerníveis. Até mesmo após conhecer Caroline Crowther, com quem se casaria em 1978 e teria duas filhas, Sarah e Cathleen, Lynott aparentemente continuou sendo um mulherengo, ao mesmo tempo que pai devotado.


Agora casado e pai, mais uma vez as canções de Lynott sofrem mudanças. Lynott dedicou duas canções homônimas às filhas, em 1978 e 1982, além de uma canção solo, “A Child’s Lullaby” e ele chegou a declarar que a paternidade o havia tornado mais mole e, ao mesmo tempo, mais intolerante, pois mais sensível às injustiças. Nada disso era novo para ele. Anteriormente, Lynott já havia dedicado uma canção homônima a outra Sarah, sua avó, e uma a sua mãe, Philomena, escrita como epistolário. Fora canções como "Look What the Wind Blew In" e "A Song for While I’m Away". Esta última, inclusive, de título muito semelhante a um dos dois livros de poesia escritos pelo compositor (o segundo sendo Philip), que, segundo ele, foram os feitos de que mais se orgulhava. O aedo celta que sonhava ser permanecia ali, sempre latente. Como argumenta O’Hagan (2019), cujo artigo serviu de base a esse texto, o problema é que, refletindo, talvez, a própria subjetividade de Lynott, o poeta e o rocker se tornavam cada vez mais indiscerníveis. Talvez seja um pouco forçado, e pouco rigoroso, academicamente falando, reproduzir o argumento de O’Hagan, mas é interessante notarmos que, em 1981 (cinco anos antes de morrer), uma gravação solo perdida de “Somebody Else’s Dream”, canta as seguintes palavras:


Who do you think you are? Are you a poet, a lover, a father, a rock and roll star? As silly as it seem, I’m so tired of living out somebody else’s dream[1]


Talvez esse “sonho de outro” fosse o sonho esperado de um preto que, se não desse certo como cantor não daria certo em nada? Diz-se que Lynott era um grande boleiro. Foi grande entusiasta do Man United, clube que apoiava financeiramente, e amigo de George Best, ilustre pelo talento e pela fama de beberrão, mulherengo e briguento. Futebol, o nobre esporte bretão cuja relação com a negritude, também, não pode, ou deve, ser esquecida. Negritude esta que esteve sempre ali, presente, neste grande pensamento mítico povoado por reis e fadas irlandesas. À altura de sua morte por pneumonia, em 4 de janeiro de 1986, o Thin Lizzy havia terminado, Lynott tentara uma nova carreira com a banda Grand Slam, que nunca alcançou grande sucesso; sua relação com Caroline Crowther e as filhas havia se estranhado e Lynott vivia sozinho em Kew, Londres, completamente dependente da heroína e da cocaína.


É difícil saber (nem é o caso, na verdade), como Lynott se sentia, se foi feliz ou não, o que pensava de sua própria vida. Mas é interessante como suas letras e sua trajetória biográfica se conjugam. A tendência depressiva que parece emergir de suas canções, vistas cronologicamente, dão vazão a uma personalidade destrutiva tanto quanto construtiva: destruiu-se, em parte, com o abuso de entorpecentes (que são, entretanto, comumente considerados a causa de sua morte, o que não é verdade), e construiu um legado musical único, que traçou questões de identidade e pertencimento ao longo de uma década e meia, dando novas formas a sua cultura nativa e, daí, para o mundo. Filho negro, ilegítimo, crescido num bairro operário de um país totalmente branco, morreu um astro internacional, reverenciado pela voz, pelo talento e pela beleza. Foi pai de duas filhas e um filho (Macdaragh Lambe), ilegítimo como ele, fruto secreto de um namoro de juventude e alienado dos pais, algo que surge em diversas canções como um trauma pungente. Por isso tudo, por sua música, Lynott foi tudo aquilo que pautou (e com isso, viveu), para si, livre, fazendo-se a si mesmo: rocker, Casanova, poeta, caubói, fugitivo, órfão solitário, pai, filho, errado, certo. Acima de tudo, irlandês e preto, como um pint de Guinness. E quem não gosta de Guinness?

 

[1] "Quem você pensa que é?/Você é poeta, amante, pai, astro de rock'n roll?/ Por mais bobo que pareça, estou cansado de viver o sonho de outro.

 

Referências

CLAYTON-LEA, T. “The Philip Lynott Interview (1983).” Hot Press Magazine. 28 de fevereiro de 2011. Diponível em: https://www.hotpress.com/music/the-philip-lynott-interview-431546 - acessado em 16 de agosto de 2021.

CULLEN, M. 2012. Vagabonds of the Western World(s): Continuities, Tensions and the Development of Irish Rock Music, 1968-1978. Tese de Doutorado, Universidade de Limerick, Irlanda. Disponível em: https://dspace.mic.ul.ie/handle/10395/1530 - acessado em 16 de agosto de 2021.

O’HAGAN, J. 2019. “The Irish Rover: Phil Lynott and the Search for Identity.” Popular Music and Society, pp. 1-23.

THOMSON, G. 2016. Cowboy Song: The Authorised Biography of Philip Lynott. Londres: Constable.


Discografia

Thin Lizzy. Thin Lizzy. Decca, 1971. LP.

________. Vagabonds of the Western World. Decca, 1973. LP.

________. Nightlife. Vertigo, 1974. LP.

________. Fighting. Vertigo, 1975. LP.

________. Jailbreak. Vertigo, 1976. LP.

________. Johnny the Fox. Vertigo, 1976. LP.

________. Bad Reputation. Vertigo, 1977, LP.

________. Black Rose: A Rock Legend. Vertigo, 1979. LP.

________. Vagabonds Kings Warriors Angels. Universal, 2011. CD.

 

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