crepúsculo dos vigaristas

Atualizado: 24 de nov. de 2021


A escolha do nascimento, autorretrato concebido por Robert Benayoun (e provavelmente fotografado por Radovan Ivšić) para a série "Autorretratos imaginários", publicada no primeiro número da revista La Brèche, em outubro de 1961.


 



A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.


 

Tradução por Natan Schäfer


Não é de hoje que o sensacionalismo, opondo-se à sensibilidade, toma a frente do pensamento e ocupa lugar privilegiado em textos, discursos e diálogos. Contudo, o que observamos mais recentemente talvez seja um acréscimo de sua presença, devido à brevidade da informação que o consumo implica. Informação essa exigida pela régua que ao baixar torna-se a guilhotina do saber, instituindo uma confusão geral: a opinião é tomada por filosofia, a controvérsia por dialética e o fantástico por surrealismo.


Neste Crepúsculo dos vigaristas, publicado no primeiro número da revista La Brèche em 1961, e que traduzimos e apresentamos nest’A Fresta pela primeira vez em português, a voz de Robert Benayoun[1] denuncia aquilo que se convencionou designar, na maioria das vezes não muito criteriosamente, como realismo fantástico ou realismo mágico. Normalmente, esses termos fazem referência ao mero estapafúrdio, à mistificação banal e ao pretenso mistério envolvendo uma realidade que é então indevidamente denominada mágica, fantástica ou até mesmo surrealista. Associar o surrealismo ao realismo mágico ou fantástico constitui um grave equívoco[2], uma vez que, como demonstra Benayoun no texto abaixo, o realismo fantástico não discerne na realidade um quociente surreal mas, sim, rebaixa o fantástico à banalidade cotidiana.


Diante da sequência de erros da comédia que é a cultura institucional e seu contrário, este Crepúsculo dos vigaristas torna-se urgente. Além disso, ele se me impôs pois há muito tempo venho percebendo que grande parte das conversas nas quais tomo parte é destituída de uma cena, como aquela que a imagem pressupõe. Em meio aos temas de hábito — fatos e fotos e outros —, os convivas limitam-se a anunciar manchetes, dar notícias e papagaiar tweets. Ora, um intercâmbio, uma troca ou um diálogo que se resume a reiterados queixumes, pios moralistas, lamacenta ironia e manifestações de pasmo diante do caráter escalafobético desta descoberta científica, daquela inovação tecnológica ou daquele triste desastre são evidentemente incapazes de produzir conhecimento, mudar a vida e, que dirá, transformar o mundo.


Instado pela curiosidade e pelo desejo de levar a vida mais longe, mais fundo e mais alto, recentemente adquiri e debrucei-me por alguns minutos sobre um dos volumes da enciclopédia Planète editada por Louis Pauwels, alvo dos surrealistas em 1961[3] e que hoje serve de bode expiatório a muitos de seus herdeiros, sejam estes conscientes dessa herança ou não. É estarrecedora a quantidade de platitudes, dados estatísticos não-interpretados, exageros, distorções, ignorâncias e outros ranços que seus redatores conseguem reunir num exíguo volume de uma autointitulada “enciclopédia”. Pauwels escreve como se a cada vírgula ou cesura da própria fala gritasse um estridente “UAU!”. Assim, apoiando-se numa retórica pueril e numa compreensão rasteira dos neurônios-espelho, tenta convencer que ele, assim como o que ele diz, é extraordinário e digno de atenção. Ora, no melhor dos casos, esse tipo de persuasão é no mínimo cínica, embora duvide que mesmo um cão fosse incapaz de atender aos exageros de um sensacionalismo tão histriônico.


Embora hoje o nome de Louis Pauwels não seja mais tão atuante quanto outrora, esse tipo de abordagem dos fatos, sobretudo científicos e relacionados ao desconhecido, persiste. Os estadunidenses foram responsáveis pela explosão e disseminação do sensacionalismo à la Pauwels, o qual serve como uma luva aos propósitos de sua sociedade puritana — e também da brasileira. Pois o realismo fantástico das “curiosidades” yankees encontrou no Brasil um terreno exposto para sua disseminação. De modo que esse ataque de Benayoun poderia ser hoje estendido a revistas como Galileu, Superinteressante e muitas outras empresas da imprensa — e acadêmicas inclusive — que, infelizmente, parecem tomar o termo vulgarização, neste caso a científica, na mais descendente e pejorativa de suas acepções, ou seja, a de perda da dignidade, de banalização e rebaixamento do sentido, portanto bastante longe da abertura de portas e da poesia de Lautréamont.


Ao que parece, isso ocorre de modo a evitar com que o sujeito implique-se em seu objeto, assim como o ser naquilo que ele vê, fazendo com que o suposto indivíduo acredite na sua indivisibilidade, individualidade e em seu poder de decisão e mudança sem caminho — ou seja, num clique. Por mais absurdo que isso possa soar, é o que acontece quando alguém supõe que ao seguir um coach, um messias ou qualquer outro vigarista tutorial de plantão estendendo suas redes, será capaz de transformar suas profundezas, enquanto na verdade está mal-e-mal arranhando a lisura de sua superfície[4]. Sob uma farsa-democracia, o espetáculo do vale-tudo faz de tudo e mais um pouco para excluir a participação do sujeito na formulação do saber, do não-saber e do conhecimento sensível do objeto[5], como se fosse possível não que ele não se envolvesse naquilo que está verdadeiramente sendo dito, visto ou escutado. De fato, o não-envolvimento só é possível mediante o consumo — isto é, o consumiço.


Por isso, Robert Benayoun deixa os vigaristas sumirem no próprio ocaso — mesmo a noite prescinde deles.

*


Cumpre alertar que o próprio campo semântico vinculado ao termo “surrealismo” não escapou a esse fenômeno de informatização e cansaço midiático[6]. Por isso, antes de seguirmos ao texto de Benayoun, gostaríamos de apresentar uma breve nota de esclarecimento sobre algumas recentes ocorrências envolvendo o movimento surrealista.



EXPRESSAS E AINDA MAIS EXPRESSAS RESERVAS


Em nota a um texto no prelo, manifestei expressas reservas quanto às produções gráficas e plásticas do “Grupo surrealista do Oriente Médio e da África do Norte”, centrado no Cairo. Não alongarei-me na crítica a essas produções, tampouco remontarei às discussões sobre os caminhos dos surrealistas e seus oponentes após a autodissolução do grupo de Paris em 1969. Diante de recentes publicações de um dos membros do supracitado grupo [i.e. do “Grupo surrealista do Oriente Médio e da África do Norte”], as quais, a meu ver, nada tem a ver com as realizações do movimento surrealista e aquilo que denomino seu rigor vitae, limito-me aqui a registrar ainda mais expressas reservas quanto à ética, à moral e a falta de rigor manifestadas pelos integrantes desse grupo [i.e. o “Grupo surrealista do Oriente Médio e da África do Norte”]. Além disso, muitos de seus apoiadores e outros sujeitos que fazem uso do surrealismo enquanto label, sem autorizar-se para isso, buscam tanto conferir um certo valor às suas produções enquanto mercadorias[7] — mesmo quando não vendem-nas —, quanto chancelar seus sintomas e ocultarem-se, igualmente que a suas insuficiências, de si mesmos, infelizmente assim não descobrindo em seu ser os caminhos do movimento surrealista enquanto ética.


Expressões de miserabilismo como esta que me furto a citar — e que jamais devem ser confundidas com o negror de poetas como o Marquês de Sade, Georges Bataille, Hans Bellmer, Unica Zürn, Aimé Césaire, Joyce Mansour, Jean-Pierre Duprey e outros — , assim como a vaidade ou ingenuidade daqueles que contribuem com sua sustentação e circulação, são incompatíveis com o signo ascendente e fomentam não só a decadência anunciada por René Guénon, Oswald Spengler, Friedrich Nietzsche e outros, como também a sobrevivência do signo à coisa significada[8], contribuindo para uma ostensiva degradação — do surrealismo inclusive.