crise da imaginação e a reinvenção do mundo

Atualizado: 10 de ago.


Fígado de Placência, séc. II a.C. Acervo do Musei Civici Di Palazzo Farnese (Piacenza, Itália); fotógrafo desconhecido.
 


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.


 

Há muito tempo sou fascinado pelo humour, tanto pelo negror da acidez quanto pela sagacidade dos achados, pelo grotesco da carga e pelo desconcerto da descarga. Foi assim que desde criança fui levado a buscar este a-mais também numa tradição que me era interiormente próxima mas externamente distante, visto os modos e costumes que mais imediatamente caracterizam a geração à qual pertenço, marcada sobretudo pela fleuma irônica[1]. Aos meus olhos, esta tradição era e é representada pelo riso explosivo e pelo esgar absoluto[2] que surge na revista Mad, no jornal O Pasquim, nas animações de Walter Lantz, nos esquetes de Monthy Python, nos filmes de Woody Allen, nas histórias de Lewis Carroll, etc. Dentre os ramos da grande árvore do humor sem rédeas na qual subia em minha infância, em um dos galhos descobri o famoso Febeapá, o “Festival de besteira que assola o país”. Embora há anos não leia as crônicas de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, e tampouco tenha me dado ao trabalho de relê-las para elaborar este texto, posso supor que em certos aspectos elas tenham de fato se tornado datadas. Contudo, sinto que sua mordacidade aponta para uma insubmissão que até hoje levo comigo e que em algum momento encontrou corpo no movimento surrealista. Aliás, não me parece por acaso sua convergência com relação à afirmação de Robert Benayoun[3], na introdução ao seu Os doidos do nonsense (Balland, 1984), de que “a política se tornou uma simples constatação do caos”.


Além disso, ainda que esta afirmação tenha se tornado lugar comum e possa até mesmo soar como reacionária, tendo a concordar que este festival continua assolando não somente o país como todo o ocidente, e sublinho que suas besteiras passam longe do humour que, para trazer à vida dois coelhos numa cajadada só, “é sério como o prazer”[4]. Obviamente, quem vem hoje ao proscênio do festival são os arautos do espetáculo, da sociedade da transparência sem rito e mito, dos mecanismos da lógica aristotélica e das platitudes da moral monoteísta e do achatamento da realidade pela régua do capital e das trocas estritamente econômicas. Portanto, por vezes cumpre insistir na negatividade da recusa e da denúncia, de modo com que, eventualmente, a recordação contribua para a transformação: eis aí um dos valores deste a “Crise da imaginação e a reinvenção do mundo”, de Bruno Jacobs, publicado no terceiro número de La Grieta em abril de 2020.


Como anota José Miguel Pérez Corrales em seu Caleidoscopio surrealista, Bruno Jacobs (1952) se define como "amigo das nuvens, poeta com moderação e internacionalista visceral". Em 1985, fundou com Mattias Forshage o grupo surrealista de Estocolmo, do qual participou até o ano 2000. Em 2013 se estabelece Cádiz, tornando-se um dos mais atuantes surrealistas na Espanha, de onde edita a revista La Grieta, xará d’A Fresta, e o volante La voz de la calle, além de participar do corpo editorial de Dreamdew, publicação de alta qualidade inteiramente voltada aos sonhos.


Neste texto que ora traduzo e apresento pela primeira vez português nest’A Fresta, Bruno alerta para algo de que os surrealistas costumam estar bastante conscientes: a crise ocidental do imaginário, ou se partirmos da definição sintetizada por André Breton em “Será uma vez”, d’aquilo que tende a tornar-se real. Naturalmente, as causas dessa crise são múltiplas e a investigação ampla e rigorosa das mesmas ultrapassa o escopo desta apresentação.


Contudo, podemos avançar que o que pode ser observado desde o início da dominação monoteísta é um gradativo e um flagrante empobrecimento deste “‘museu’ de todas as imagens passadas e possíveis, produzidas e por produzir” com que Gilbert Durand define o imaginário (L’imaginaire, Hatier, 1994)[5]. Esta pauperização é ainda mais lamentável quando se expressa nas ações de quem pretende arrogar-se o rótulo, e nada mais além disso, de “surrealista”. Recentemente, pudemos assistir de novo ao desfile da miséria do imaginário se arrastando em mais um lamentável espetáculo, o qual provocou a decepção e a fúria daqueles que de fato buscam a verdadeira vida e o que ela tem de maravilhoso. Quem tem um imaginário empobrecido e não sente a necessidade cultivá-lo e explorá-lo ao longo de uma busca que exige um compromisso profundo, o que sem dúvida não é fácil e também não pretende sê-lo, só será capaz de contribuir para aquilo que André Breton e outros integrantes do movimento surrealista formularam como “a sobrevivência do signo à coisa significada”. Na boca desses miseráveis e miserabilistas do imaginário o “surrealismo” não passa de bravata e falácia. Por isso, é importante denunciar-se suas produções e intervenções como fajutas e falsas, ainda que estes adjetivos tornem assaz complexos os objetos que qualificam.


Aliás, eis aí algo que tem me interrogado: percebemos facilmente o que é falso ou fajuto — mas por que? Onde se localiza o dado determinante e em que consiste ele? Antes que alguém se adiante, ressalto que a meu ver não se trata de uma aura e tampouco de um fenômeno restrito ao kitsch ou ao camp magistralmente analisados por Susan Sontag. Passando também ao largo da discussão de paradigmas morais, interessa-me pensar no fajuto como palavra que deixa a boca mas não roça a língua e, portanto, não transmite sabor e saber. Assim, ele não seria o peixe vermelho no aquário, mas a sardinha na lata[6]: isto é, aquilo que é falado mas não é dito, que é expresso mas não é vivido e que ocorre mas não realiza um acontecimento e assim até pode encontrar um certo espaço, mas não tem condições nem capacidade de criar um lugar. Consequentemente, o fajuto não revela uma imagem, no sentido forte do termo, ou seja, não possibilita uma transformação.


Esse fajuto — que poderíamos também denominar “tosco” — é sistematizado em charlatanismo, vigarice, trambique e velhacaria: práticas que não abrem espaço à falta e à dúvida. O charlatão acha que sabe o que quer, enquanto na verdade tampona sua dúvida com uma certeza mal enxertada. Porém, é importante perguntar-se como se dá o engodo para além do sujeito que o perpetra. Tomá-lo como alguém que é de alguma forma enganado pelo próprio trambique nos faz ultrapassar o terreno moral, não eximindo-o da responsabilidade, mas exigindo uma investigação mais aprofundada não somente de seu arrivismo, mas de algo muito mais intrincado: o falso.


Por enquanto, podemos supor que, se a Verdade surge a partir de relações, há algo a mais ou a menos na articulação do falso que impossibilita o surgimento de um efeito de Verdade e a abertura de um sentido ascendente. Ao contrário, o discurso falso causa um ruído cujos efeitos mais deletérios são justamente a imposição autoritária e estanque de seu discurso e a manutenção do estado de coisas, o que nos levaria a afirmar que o charlatão e seus toscos fajutos são conservadores por excelência, incapazes de gozarem o humour.


Em sua lucidez e ardor, este texto de Bruno Jacobs contribui para a defesa do imaginário, configurando-se tanto como alerta quanto como convite ao pensamento e à vida.

Natan Schäfer

22 - 23.02.2022


 

Crise da Imaginação e a Reinvenção do Mundo, por Bruno Jacobs


O pensamento não se desenvolve no vazio. Um fenômeno tão impactante como o romantismo nos princípios do século XIX é impensável sem a Revolução Francesa. Grande parte da efervescência no âmbito da cultura dos anos 1920 e 1930 é inconcebível sem as ondas expansivas da Revolução Russa. Logo, ainda que de modo mais discreto, temos o tremor tardio da contracultura dos 1960 e 1970. Estes saltos qualitativos atualizam a correlação que existe, e existirá, entre os sismos sociais e a mentalidade.


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