uma prática do cuidado


Colagem por Miguel Rodrigues


último crime: A intenção dessa coluna é trazer material crítico, preferencialmente inédito em nossa língua, para contribuir com as discussões que permeiam seres não humanos e humanos em sua luta pelo fim da exploração do trabalho, sua busca por autonomia e a superação do modo de produção em que [sobre]vivemos. Os textos que publicados neste espaço examinam as diferentes relações estabelecidas, na história e no momento atual, entre animais humanos e os animais não-humanos, dentro da perspectiva dialética, materialista histórica e anticapitalista.

 

Divulgamos aqui, em primeira mão, um trecho do posfácio - livremente nomeado pela sobinfluencia para o site - de Daniela Rosendo, filósofa e educadora, doutora em Ética e Política, para o livro "Cozinha de Protesto" (Alaúde, 2021), escrito por Carol Adams e Virginia Messina.


Rosendo também é autora de "Sensível ao Cuidado: Uma perspectiva ética ecofeminista" (Prisma, 2015) e a responsável pelo décimo primeiro Encontro sobinfluencia, com o tema: "Antiespecismo e veganismo fundamentos e práxis". Neste encontro, a autora busca apresentar uma nova perspectiva em nossa relação para com outros seres, trazendo a concepção de especismo ao expor estruturas conceituais opressoras contingentes ao neoliberalismo.


Os valores arrecadados com os Encontros sobinfluencia são sempre divididos por igual entre a editora e as pessoas que os propõem, além de ficarem gravados por um mês inteiro, caso não seja possível assistir a transmissão ao vivo.


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Livros traduzidos devem ser sempre contextualizados. Quando as autoras dizem para valorizar a culinária norte-americana, podemos entender que o nosso próprio contexto geográfico deve ser valorizado. Isso, em Pindorama, ganha uma proporção gigante: se você vive no litoral, na serra, no sertão, se está no sul, sudeste, centro-oeste, norte ou nordeste. Isso implica a valorização da culinária da sua região, da sazonalidade, da produção local oriunda da agricultura familiar, agroecológica. Por vezes, isso significa primeiro resgatar esses conhecimentos que foram subalternizados pelos processos de colonização não só dos povos, mas também da mente e dos territórios, como nos ensinou a ecofeminista indiana Vandana Shiva, em Monoculturas da Mente. Ainda que o "cenário ideal" ainda não exista, podemos nos guiar pela ética do cuidado e fazer escolhas conscientes de práticas de cuidado que levem em consideração os impactos positivos e negativos da produção, distribuição e consumo de alimentos.


Dessa forma, o veganismo vai ganhando contornos mais amplos e nos leva necessariamente a reflexões e práticas também mais complexas (o que é bem diferente de mais difíceis - não vamos confundir). Uma das questões que eu chamo atenção aqui, por exemplo, é a problematização quanto a própria origem do veganismo, situada lá no Reino Unido, na Europa, no século XX. Porém, isso não deve apagar outras culturas e práticas que priorizam a alimentação vegetal e o exercício da soberania alimentar, ou seja, que não têm a alimentação e a manutenção da vida nas mãos das grandes corporações. Sem dúvida, o veganismo tem uma dimensão de boicote que impõe um limite e demonstra, de forma prática, com o que nós não compactuamos. O veganismo não é sobre nós - humanos, humanes e humanos -, sobre termos mais opções de alimentos, mas sobre os animais e as injustiças sociais. Contudo, se o que entra na nossa alimentação no lugar desse boicote não for igualmente problematizado (o que está por trás dos alimentos de origem vegetal que nós consumimos?), o risco de esvaziamento do veganismo é iminente. Numa dimensão propositiva para além do boicote, o veganismo deve incluir nas nossas refeições, no nosso vestuário, nas nossas formas de entretenimento etc., o que consideramos que promove justiça plural.


Vamos combinar então de não cair no engodo liberal que individualiza as práticas, descolando-as dos sistemas de exploração nos quais estão inseridas? Pior ainda, não vamos deixar que esses mesmos sistemas, que estruturam e sustentam instituições e até Estados, se apropriem das causas que nos tocam e cooptem nossos movimentos por libertação humana e animal. Ou seja, a origem do alimento não diz respeito apenas a ser animal ou vegetal, mas ele pode ser fruto de muitas outras violências, como a invasão de territórios indígenas no cerrado e na floresta amazônica aqui no Brasil, por exemplo, ou na ocupação e colonização do território palestino. Aliás, falando em Israel, o vegan-washing é um desses exemplos de apropriação da causa animal para lavar violações de Direitos Humanos na Palestina. É incoerente o exército oferecer acessórios sem couro animal e refeições veganas enquanto ocupam e controlam militarmente, de forma ilegal e ilegítima, o território palestino e violando a autodeterminação do seu povo. Sempre bom lembrar que é preciso ter coerência entre Direitos Animais e Direitos Humanos, sob a pena de continuarmos perpetuando sistemas de opressão.


Se a exploração ocorre de forma sistêmica e estrutural, precisamos olhar para toda a cadeia de produção, literalmente. Na Lógica, nós aprendemos que é possível concordar com a conclusão de um argumento sem, no entanto, concordar com suas premissas. Estamos de acordo que queremos comida vegetal? Sim. Concordamos que esse alimento é aquele feito pelas mesmas indústrias que exploram animais e trabalhadoras/es, além de causarem muitos outros impactos socioambientais? De jeito nenhum! Os impactos da alimentação são muitos: nos animais, no clima, nos direitos humanos. Comer é, sem dúvida, um ato político. Por isso, uma receita não é só uma receita. A escolha de cada ingrediente que compõe nossas refeições acarreta impactos, sejam eles negativos ou positivos. É nesse sentido que defendo o veganismo como uma prática de cuidado, isto é, inserido em um projeto ético-político ecofeminista animalista. Esse veganismo político faz parte de uma práxis antiespecista que reconhece a conexão entre diferentes ismos de dominação. Se olharmos só para a questão dos animais, não daremos conta de superar essa opressão porque ela está inserida em um sistema que opera outros ismos concomitantemente: racismo, machismo, capacitismo, heterossexismo. Olhar para isso tudo ao mesmo tempo pode ser assustador, mas também a chave para construirmos relações mais justas. É alimentar a utopia.


Dessa forma, temos que disputar a própria concepção de veganismo e situá-lo em um projeto descolonial e anticapitalista. Fazemos isso quando defendemos um veganismo político, popular, periférico, que compreende a centralidade da emancipação de todos os sujeitos e grupos oprimidos e subalternizados pelo colonialismo, patriarcado e capitalismo. Além de compreender que a culinária é um campo de reprodução dos ismos de opressão, por meio da manutenção e reprodução da cultura opressora, a libertação não é dada por quem está no lugar de poder, mas conquistada por quem se liberta.


Olhar para esse aspecto político do veganismo nos leva também para outro aspecto fundamental. Não devemos resumir a práxis vegana às escolhas individuais. Ser vegana, vegane ou vegano é, sem dúvida, uma escolha ética, no exercício da liberdade e da responsabilidade individual. Por isso, inclusive, só faz sentido onde existem condições materiais para escolher do que nos alimentamos. Dependendo do contexto social, político e geográfico, essas condições são mais ou menos favorecidas e, quando possível, devem ser criadas. Adams e Messina chamaram bastante atenção para isso ao tratarem da justiça alimentar e apontarem para a criação de soluções locais e comunitárias. No Brasil, país que havia sido retirado do mapa da fome por políticas públicas, e que agora é posto de volta por negligência deliberada, escolher o que comer pode parecer privilégio, mas pode ser justamente o contrário. Ao escolhermos alimentos produzidos de forma ética e justa - para com os animais, as/os trabalhadoras/es e a terra -, deixamos de compactuar com a necropolítica e nos comprometemos com práticas que nos aproximam de um Bem Viver.


Sendo parte da cultura, como já mencionei antes, a alimentação é uma das formas de manter e reproduzir estruturas de opressão baseadas no gênero também. Na sua longa trajetória, Adams vem contribuindo com essa temática e não deixa isso de lado em Protest Kitchen, na companhia de Messina. Ao resgatar a política sexual da carne, elas mostram o quanto os binarismos, inclusive de gênero - homem/mulher, masculino/feminino, humano/animal, criam uma noção de feminilidade associada à passividade, sexualização e objetificação dos animais e como isso pode impactar especialmente as fêmeas de outras espécies. No entanto, é extremamente importante ressaltar que essa projeção de feminilidade não implica, necessariamente, em reduzir a existência de quaisquer seres - sejam humanos ou outros que não humanos - a binaridade de gênero. Como os ensinam as ecofeministas queer, como Greta Gaard e Catriona Sandilands, há uma diferença importante entre identificar como os dualismos operam na sociedade e projetar essa visão binária e cisheteronormativa nas relações socioambientais e interespécies.


Ademais, da perspectiva política, é importante lembrar também da divisão entre o público e o privado, o trabalho produtivo e o trabalho não reprodutivo. Esse último, associado às atividades de cuidado, marcam também práticas de segregação racial, a cozinha como espaço das mulheres e confinamento dos animais, como Adams e Messina expuseram. Assim, ressignificar a alimentação a partir do projeto ético-político ecofeminista passa também por entender que a alimentação compõe uma dimensão importante do cuidado não só dos outros, sob responsabilidade das mulheres no sistema patriarcal e capitalista, mas do cuidado de si. Cozinhar pode ser também uma forma de autocuidado e exercício de autonomia relacional (tendo em vista que somos interdependentes e ninguém vive absolutamente de forma independente). Por fim, queridas pessoas leitoras engajadas, eu lhes convido: alimentem a revolução, uma refeição por vez.

 

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