da unidade antifascista à desunião libertária - parte I de III

Atualizado: 28 de ago. de 2021


Colagem por Talita Santana
 

Este texto é a parte I do artigo “De la unidad antifascista a la desunión libertaria - Los comités superiores del movimiento libertario contra los quijotes anarquistas en el marco del Frente Popular (1936-1937)”, de autoria de Chris Ealham. Originalmente disponível na Casa de Velázquez.

Este texto foi traduzido como parte da errata que publicamos sobre uma ocorrência grave na nota 7 da primeira impressão (ESGOTADA) de nossa publicação “Por uma arte revolucionária independente”, de André Breton e Diego Rivera. A tradução é de Fabiana Gibim, Alex Peguinelli e Gustavo Racy.

 

Agora não somos nem socialistas, nem anarquistas, nem comunistas ou republicanos, somos todos antifascistas porque sabemos o que o fascismo representa. — 1: F. Montseny, 31 de agosto de 1936. Solidaridad Obrera, 2-IX-1936


Como membro da oposição, a CNT havia feito muito mais em prol da Revolução que dentro dos organismos do Estado. A partir do momento em que se alinhou aos organismos do Estado, neutralizou-se a si mesma e, sendo assim, posicionou-se não mais contra o Estado mas sim contra os próprios revolucionários que observávamos de baixo pra cima as coisas de forma clara e não queríamos dar o braço a torcer.

— 2: J. Peirats, 1976. Gómez, s. f., p. 35


De forma geral, um dos grandes paradoxos da história do movimento libertário dos anos trinta é o imenso contraste entre a política insurrecional e maximalista do período anterior à guerra e a moderação dos líderes anarquistas depois do golpe de Estado de Julho de 1936 e durante as consequências/sequelas revolucionárias em certos espaços em que foi sufocado. [3] Deste modo, nos encontramos diante de uma ironia: durante o período da República, sobretudo entre 1932 e 1935, estes mesmos líderes eram os mais sectários e resistentes a qualquer aliança com outros grupos para combater o fascismo. Porém, no contexto dos anos trinta, especialmente no ano de 1933, em meio ao auge do fascismo no âmbito estatal e internacional, a possibilidade de uma aliança antifascista teve uma atração esmagadora entre as bases do movimento anarquista. Assim, a Confederação Nacional do Trabalho (Confederación Nacional del Trabajo - CNT) e a Federação Anarquista Ibérica (Federación Anarquista Ibérica - FAI) acabaram apostando nesta alternativa. O reconhecimento da ameaça fascista dentro das frentes anarquistas, entretanto, foi sempre um processo contraditório [4] Do ponto de vista revolucionário, por exemplo, é curioso o rechaço por parte por líderes anarquistas - com notável exceção de Valeriano Orobón Fernández - à Alianza Obrera, um projeto de convergência antifascista composto pelo que sobrou dos grupos de esquerda com fins exclusivamente revolucionários e que não incluía republicanos favoráveis à Frente Popular. [5]

Em retrospectiva, os principais líderes anarquistas defendiam que a experiência da política de colaboração com a frente popular era expressivamente negativa: assim, as memórias de figuras proeminentes do movimento, publicadas após a derrota do anti-fascismo espanhol, mostram uma marcada tendência para atribuir a vitória de Franco, a destruição da revolução espanhola e as fissuras do pacto da Frente Popular às manobras do Partido Comunista da Espanha (Partido Comunista de España - PCE) e sua pequena ramificação catalã, o Partido Socialista Unificado da Catalunya (Partit Socialista Unificat de Catalunya - PSUC). O discurso dominante destas publicações enfatiza as maquinações stalinistas e como os comunistas de Moscou se dedicaram à conquista do poder da República, por exemplo, através da “provocação”; dos eventos de Maio de 1937. [6]

Por um lado, é indiscutível que uma aliança de comunistas, socialistas e republicanos enfrentou sistematicamente a revolução espanhola, - na Cataluya, a Esquerra Republicana de Catalunya (ERC) e o PSUC foram os grupos mais importantes desta coalizão contra-revolucionária -, motivados pelo que entenderam ser a necessidade de interromper a revolução para atrair a ajuda das democracias ocidentais e para capturar a classe média espanhola. Porém, é preciso reconhecer que os discursos subsequentes dos líderes anarquistas não contam a história toda: apresentam as lideranças ácratas como vítimas inocentes da agressão stalinista e distorcem seu papel durante os anos de guerra, ignorando como sua política de frente popular abriu uma profunda fenda dentro do movimento libertário, que se dividiu dramaticamente em questões relacionadas à guerra e à revolução. [7] Acima de tudo, esse discurso esconde como o compromisso duradouro com táticas frentepopulistas dos comitês superiores do movimento ácrata, composto pelos líderes do CNT, da FAI e da Federação Ibérica da Juventude Libertária (FIJL), desarmou politicamente o anarquismo organizado, algo que para seus camaradas estrangeiros constituía “a maior traição revolucionária desde a revolução russa”. [8] Assim, segundo a análise do declínio do movimento libertário durante a guerra civil feita por Helmut Rüdiger, um anarquista alemão que vive na Espanha desde 1933, o CNT-FAI “não souberam como se impor, não souberam como criar uma comunidade antifascista inspirada em suas próprias idéias libertárias”. [9]

Se observarmos como os comitês superiores do movimento libertário submeteram tudo ao pacto frentepopulista, é curioso como o clichê dos anarquistas “descontrolados”; [10] sobreviveu durante a guerra. Pelo contrário, como François Godicheau demonstrou em detalhes, os líderes do anarquismo organizado foram muito “controlados”; em seu apoio à aliança antifascista: os comitês superiores deixaram de agitar a espontaneidade da base para exercer uma forma de controle horizontal sobre seus membros, uma estratégia interna necessária para combater a crescente resistência a uma linha imposta de cima, transformando o movimento em um organismo frentepopulista. [11] Observamos desta forma uma mudança brusca dentro do movimento ácrata, que passou por uma transformação brutal durante a guerra: os comités superiores não só assimilaram entusiasticamente a aliança frentepopulsita, mas também o governamentalismo que ela acarretou, tudo para manter a unidade bélica contra os facciosos e seus aliados fascistas. E com o exercício do poder (conselhos, proliferação da imprensa anarquista, etc.), os líderes libertários transformaram o anarquismo organizado em um movimento burocratizado, rompendo com suas tradições de democracia de assembléia. Desta forma, ativistas como Federica Montseny, que se tornaria a primeira mulher ministra na história do movimento e uma das primeiras na Europa Ocidental, [12] e outros anarquistas importantes que sustentavam um anarquismo mais “puro”; antes e depois da guerra destacaram-se por sua moderação e seu sentido de “responsabilidade antifascista”. Esta posição definiu o rumo do anarquismo organizado e necessariamente abriu profundas brechas dentro do movimento libertário, pois foi contra os eventos revolucionários que acompanharam a resistência popular ao golpe de Estado de julho em várias regiões da Zona Republicana. Tais divisões eram inevitáveis, dado que todos os grupos que apoiavam o frentepopulismo, os anarquistas, porque queriam um mundo sem Estado e por causa de seu passado anti-político, eram os menos “republicanos” da coalizão antifascista.

Para entender o significado do papel do frentepopulismo impulsionado pelas comissões superiores no eclipse de seus históricos anseios transformadores, precisamos primeiramente abordar as peculiaridades da revolução de julho, uma revolução incompleta. Por um lado, o poder estatal entrou em colapso com o golpe de julho, e milhares de trabalhadores responderam à nova situação política com uma revolução: a revolução foi feita pelas bases da CNT, do movimento anarquista, do Partido dos Trabalhadores da Unificação Marxista (POUM) [13] e, em alguns casos, do movimento socialista. Porém, nenhuma organização fez uma chamada à revolução. E como é sabido, havia vários grupos dentro da Frente Popular que se opunham à revolução. Por outro lado, para muitos dos membros e militantes do movimento anarquista, aquele julho sublime significou a realização de seus sonhos mais profundos. Esses quixotes anarquistas já estavam vivendo sua utopia, mesmo que no final tenha sido apenas “um curto verão de anarquia”. [14] A contradição entre o sonho revolucionário e a realidade de uma guerra civil sangrenta logo se tornou aparente. No final do verão, uma profunda divisão se abriu entre os quixotes anarquistas e os comitês superiores do movimento libertário.

O poder inicial da revolução foi baseado em uma rede de comitês de bairro, comitês de fábricas e novos grupos de trabalhadores armados: as patrulhas de controle e as milícias. No entanto, ao contrário das revoluções francesa e russa, a revolução espanhola não destruiu o antigo Estado nem gerou outras instituições revolucionárias. [15] Por um lado, havia um poder emergente formado por uma série de micro-poderes locais, mas dada a oposição doutrinária dos anarquistas ao poder e à autoridade, recusavam-se a criar novos órgãos de poder revolucionário. [16] Esta realidade pode ser constatada durante uma sessão plenária improvisada pelos militantes cenetistas e anarquistas que foram ao centro de Barcelona no dia 21 de Julho: surpreendidos com o curso dos acontecimentos e espantados que o roteiro da revolução nascente não se encaixasse nos seus conceitos prévios de um movimento insurrecional, perceberam que não eram os mestres de toda a Catalunya, muito menos de outras regiões da Espanha, onde os outros grupos anti-franquistas tinham prioridades diferentes e representavam interesses por vezes hostis à revolução. Diante de uma situação instável e da luta armada contra o exército dos outros grupos, os militantes reunidos se comprometeram com a “colaboração democrática” - ou seja, o frentepopulismo - com os republicanos e outros grupos de esquerda, com o objetivo de alcançar a unidade na guerra contra o fascismo. [17]

Entre os líderes do movimento anarquista, apenas Juan García Oliver, o chamado “anarco-bolchevique” e membro do grupo anarquista radical “Nosotros”, levantou a possibilidade de “ir até o fim” [NT] Aparentemente, García Oliver estava empenhado em levar a revolução até suas últimas consequências, uma posição compartilhada apenas por uma pequena minoria; é interessante notar que aqueles que apoiaram sua fórmula foram os membros do núcleo radical de Hospitalet e de Bajo Llobregat. A grande maioria dos militantes interpretou a proposta de García Oliver como uma “ditadura anarquista”. É muito provável que o posicionamento de Garcia Oliver não fosse nada mais do que verbalismo radical e que ele tivesse exposto sua posição sabendo que não seria sustentado pela maioria: [18] sabia perfeitamente que a militância anarquista era doutrinariamente oposta à ditadura do proletariado, e não tinha nenhum plano ou desejo de conquistar o Estado ou de organizar estruturas políticas revolucionárias. Além disso, semanas depois, o partidário do “ir até o fim” tornou-se Ministro da Justiça de um regime contra o qual tinha lutado durante os cinco anos anteriores.

É muito marcante que, depois de anos e anos prevendo em seus congressos a chegada da revolução, quando ela enfim irrompeu, os ativistas mais representativos do movimento libertário não souberam o que fazer para levá-la adiante. Ao invés disso, aparentemente contando com o espetáculo revolucionário do primeiro impulso insurrecional - o mito do “povo em armas”, entre outros - e entendendo ou pensando que a ordem republicana e seus comandantes ilustres haviam perdido seu poder, os anarquistas simplesmente ignoraram os restos e ruínas do antigo Estado para mergulhar na aliança antifascista. No dia 21 de Julho o CNT-FAI aceitou uma “oferta” de Lluís Companys, Presidente da Generalitat, para partilhar o poder com os partidos da Frente Popular no Comité Central das Milícias Anti-Fascistas da Catalunya (CCMAC). O CCMAC era um novo organismo composto por todos os partidos políticos e sindicatos antifascistas e foi criado para organizar a luta armada onde o golpe tinha sido bem sucedido. [19] Dominado pelos anarquistas, o Comité de Milicias aparentou ser um organismo revolucionário, e sua própria criação aumentou a impressão do colapso do poder estatal. Na realidade, o CCMAC foi um governo inter-classes e frentepopulista dominado pelos sindicatos responsáveis pela justiça, ordem pública, distribuição e defesa militar; em suma, um Ministério da Guerra em tudo menos no nome, o que permitiu aos líderes anarquistas participar no CCMAC aparentemente sem comprometer os seus princípios anti-estatais. [20] Assim, enquanto as bases do movimento anarquista realizavam a sua revolução nas ruas, os comités superiores do CNT-FAI-FIJL aliaram-se aos outros partidos antifascistas, alguns dos quais abertamente hostis à revolução.

Politicamente, a criação do CCMAC marcou os limites da própria revolução. Para os defensores do Estado republicano, o seu estabelecimento permitiu uma oportunidade de respirar diante de uma mudança revolucionária, uma vez que o Comité das Milícias tomou conta de áreas que tinham estado brevemente sob o controle dos comités revolucionários. Embora estes continuassem a existir até Maio de 1937, com a chegada do CCMAC perderam a sua autonomia e poder inicial. Assim, a Generalitat e o Estado Republicano, embora eclipsados durante o verão ardente de 1936, sobreviveram à revolução e, o mais importante, mantiveram sua existência legal. E enquanto isso ocorria, os líderes anarquistas adotaram a idéia de “colaboração democrática” com os partidos políticos para ganhar a guerra.

Entre julho de 1936 e maio de 1937, o poder político era uma questão pendente e não é surpreendente que a correlação de forças políticas tenha mudado bruscamente. A situação tornou-se cada vez mais instável, levando directamente a um confronto entre o poder disperso dos trabalhadores e o poder fortalecido do Estado republicano. Os líderes anarquistas, em parte por ingenuidade política e em parte pela sua recusa em aderir ao frentepopulismo, não foram capazes de medir este processo com dois aspectos que se desenvolveram simultaneamente: por um lado, o declínio das energias revolucionárias de Julho devido à ausência de estruturas capazes de as direcionar e, por outro lado, a reconstrução do Estado republicano sob a bandeira frentepopulista. Forçosamente, a lógica da guerra exigiu a criação de alguma autoridade para liderar a luta contra os golpistas. E como não havia uma estrutura revolucionária capaz de coordenar a direção da luta, o Estado burguês-republicano acabou desempenhando esse papel. A hierarquia anarquista aceitou e conspirou para dar vida a esse mesmo Estado. Por efeito, depois de ter conduzido o CNT-FAI à “colaboração democrática” com as forças da Frente Popular, os líderes anarquistas foram forçados a conviver com vários grupos políticos que não escondiam a sua hostilidade às mudanças revolucionárias que começaram em Julho. Esta situação deu origem a uma série de compromissos que ressuscitaram o Estado republicano e, simultaneamente, minaram a autoridade dos comités revolucionários, tudo sob o pretexto de reforçar a unidade antifascista. [21]

O próximo grande compromisso dos líderes anarquistas ocorreu no final de setembro de 1936, quando eles concordaram com uma proposta dos partidos republicanos e do PSUC para reconstituir a Generalitat.[22] Até essa altura, o Comité das Milícias tinha assumido a maioria dos poderes do antigo governo catalão, que, pelo contrário, ocupava um nível secundário. Contudo, a lógica do frentepopulismo dos líderes anarquistas forçou-os a aceitar a dissolução do Comitê de Milícias e uma oferta de Companys para entrar no governo da Generalitat. Para alcançar estes acordos, os líderes anarquistas organizaram um congresso da CNT catalã no dia 24 de Setembro, quando foi discutida pela primeira vez em sua base, a necessidade de abolir o CCMAC. [23] Com um discurso maximalista, Mariano Rodríguez Vázquez “Marianet”, secretário-geral do Comitê Nacional e um dos homens fortes do anarquismo radical antes da guerra, afirmou que para garantir o futuro da economia revolucionária catalã e as transformações alcançadas desde julho, era necessário colaborar com os outros grupos políticos, já que em outras áreas do território republicano o anarquismo não tinha o mesmo peso. Aparentemente confiantes na possibilidade de institucionalizar as transformações revolucionárias, os líderes anarquistas apresentaram o frentepopulismo como uma medida para assegurar as modificações socio-economicas num contexto incerto de guerra civil e com a hostilidade das democracias ocidentais.[24]

Assim, em 26 de Setembro, três anarquistas entraram no novo governo frentepopulista catalão.[25] Os líderes anarquistas tentaram disfarçar o seu papel governamental com uma retórica maximalista, dando uma imagem de organismo revolucionário para a Generalitat. Apesar de terem o título de “conselheiro” (consejero - conseller), estes anarquistas não podem ser confundidos com o movimento revolucionário ”conselhista” da Europa entre guerras: na verdade, eles eram ministros do governo.[26] Assim, através dos ministros anarquistas, o movimento libertário passou a partilhar a responsabilidade coletiva com os outros partidos do governo, incluindo os republicanos de classe média, assimilando cada vez mais a lógica da Frente Popular que envolvia frear a revolução a fim de preservar a unidade ministerial [27].

Desde então, os ministros anarquistas, e por extensão os comités superiores do movimento libertário, foram restringidos pelas suas responsabilidades governamentais e tornaram-se espectadores passivos da destruição da revolução de Julho. Por exemplo, em outubro de 1936, a Generalitat publicou dois decretos que, pelo menos oficialmente, ampliaram o poder do Estado sobre a revolução. O primeiro dissolveu os comitês revolucionários, a maioria dos quais eram controlados pela base da CNT e tinham sido eleitos por uma variante da democracia direta. Com base neste decreto, foram substituídos pelos Conselhos Municipais nomeados de cima pela Generalitat.[28] O segundo decreto "legalizou” coletivizações revolucionárias; uma medida que, na prática, significava o controle da Generalitat sobre a economia. Embora nas áreas mais revolucionárias, por exemplo no cinturão industrial de Barcelona, como Hospitalet, ou em lugares onde os partidos da Frente Popular eram fracos, estes decretos foram ignorados, no final representaram um passo importante na reconstrução do Estado.

Depois de se juntarem-se à Generalitat, nada impediu os anarquistas de entrar no governo central, especialmente depois da constituição do governo de Francisco Largo Caballero, o gabinete mais frentepopulista de todos no tempo da guerra. Um convite de Largo Caballero para que os libertários aderissem ao governo da República desencadeou uma série de reuniões e discussões intensivas dos comités superiores do movimento anarquista durante a segunda quinzena de Setembro. No final, a decisão de entrar no governo central foi tomada pelo Comitê Nacional da CNT, sem consultar suas bases, e resultou na nomeação de quatro ministros. Em uma clara tentativa de minimizar possíveis divisões internas, os quatro ministros anarquistas advinham das duas facções do recém unificado CNT: García Oliver e Montseny da ala radical e Joan Peiró e Juan López representando os setores mais moderados [29].

Talvez para manter aparências e para suavizar a entrada do movimento libertário na máquina do Estado, os líderes anarquistas propuseram mudar o nome do governo para “Conselho de Defesa Nacional”, mas tal manobra encontrou a resistência de Largo Caballero, que argumentou que prejudicaria o prestígio e a legitimidade do governo republicano aos olhos das democracias ocidentais.[30] Aparentemente, a “notícia bombástica” da conversão de anarquistas em ministros republicanos foi recebida com uma mistura de surpresa e fatalismo entre as bases do movimento[31], e chocou ainda mais os anarquistas estrangeiros residentes na Espanha. Assim, no dia 3 de Novembro, na véspera da adesão oficial dos novos ministros, Emma Goldman, a mítica anarquista russo-americana, escreveu ao seu correligionário alemão Rudolf Rocker: “Frederica [Montseny], por exemplo, que exerce aqui uma grande influência, mudou-se para a direita. Ela tornou-se Ministra da Saúde. Que proeza!”[32] No dia seguinte, 4 de novembro, Solidaridad Obrera, o grande jornal da CNT, resumiu o novo reformismo dos comitês superiores referindo-se a “um dos eventos mais transcendentais da história política do nosso país. O governo [...] deixou de ser uma força de opressão contra a classe trabalhadora, tal como o Estado já não representa o corpo que separa a sociedade em classes. E ambos deixarão ainda mais de oprimir o povo com a intervenção de elementos da CNT” [33].

Depois de anos pregando o antipoliticismo formal, os líderes anarquistas se mostraram obcecados com a alta política e agiram de maneira muito ingênua frente aos políticos profissionais e experientes da Frente Popular. Além disso, não exibiam uma visão estratégica. Um bom exemplo foi a crise do governo da Generalitat em dezembro de 1936: uma situação causada pelas crescentes denúncias do PSUC contra os marxistas anti-stalinistas do POUM. A campanha contra o POUM pode ser vista como um ataque ao ponto fraco da revolução. O movimento libertário com seus enormes sindicatos e os milhares e milhares de trabalhadores engajados na indústria bélica, ainda era muito poderoso, os comunistas dissidentes eram vulneráveis: o POUM era um partido pequeno e muito crítico da URSS, o único aliado internacional confiável da República. De fato, os anarquistas, que antes da guerra eram muito hostis à URSS, agora mostravam-se claramente favoráveis ao regime de Stálin, que foi descrito pelo ministro García Oliver como “nuestro querido camarada[34].

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