da unidade antifascista à desunião libertária - parte II de III

Atualizado: 28 de ago. de 2021


Colagem por Alex Peguinelli
 

Este texto é a parte II do artigo “De la unidad antifascista a la desunión libertaria - Los comités superiores del movimiento libertario contra los quijotes anarquistas en el marco del Frente Popular (1936-1937)”, de autoria de Chris Ealham. Originalmente disponível na Casa de Velázquez.

A tradução é de Fabiana Gibim, Gustavo Racy e Alex Peguinelli

 

[Parte II de III]


[…] Se as condições para um confronto entre o Estado e o poder difuso dos comitês revolucionários existiam desde julho, nos primeiros meses de 1937 se tornavam muito mais evidentes. Por exemplo, em fevereiro, a PSUC organizou um protesto da polícia contra as patrullas de control, algo que fazia parte da campanha comunista por uma autoridade única [40]. Em parte deveu-se ao fato de os ministros anarquistas do governo catalão e central aceitarem, sem muitos problemas, compromisso após compromisso (a militarização das milícias, por exemplo), deixando em evidência seu comprometimento com a política frente-populista, seu grande respeito pela disciplina governamental e a aliança antifascista. Enquanto isso, Comorera e Rodrígues Salas se dispunham a atacar com todo o seu arsenal o que restava do poder revolucionário, algo que refletia o status que o PSUC estava alcançando como novo salvador da classe média catalã, depois do fracasso da Esquerra em impedir a revolução de julho: muitos setores intermediários - pequenos capitalistas, lojistas, agricultores, além de membros da polícia e do exército - viram a política de suas empresas em diálogo com os anarquistas (veja-se o episódio da criação do CCMAC em julho), mas ainda muito débil e apaziguadora. Dessa forma, o PSUC conseguiu galvanizar a oposição à revolução: sua imprensa criticava duramente a desorden da revolução, algo que certamente aumentou sua base social entre as classes médias, que desde a revolução de julho haviam se sentido muito indefesas. Ao contrário da Esquerra, que preferia a diplomacia como movimento anarquista, os comunistas catalães tinham vontade suficiente para enfrentar o que havia restado da revolução. Assim, no campo catalão, o PSUC cresceu consideravelmente entre os agricultores e pequenos proprietários rurais: no final de 1937, cerca de dez mil camponeses catalães haviam se juntado ao partido e pago sua cota, o que representava um quarto da filiação total do partido [41]. A base social do PSUC fez dele um partido único dentro da Internacional Comunista: quando foi fundado, a maioria dos trabalhadores catalães estava organizada junto a CNT e, portanto, a classe média e outros estratos econômicos intermediários eram sua única opção de crescimento. Em consequência, Criticón, uma publicação satírica anarquista brincou que, com tantos filiados da classe média, o PSUC não podia esperar que seus filiados leiam o Capital, de Karl Marx e que, portanto, deveriam publicar uma versão adaptada com um título mais atraente: “El pequeño capital” [42].

A confiança crescente de certos setores sociais e políticos para o enfrentamento das posições revolucionárias chegou para dificultar, e logo romper, a instável unidade antifascista em Cataluña. Assim, na primavera de 1937 contemplamos um marcado aumento de tensão que culminou em uma série de violentos enfrentamentos entre grupos armados rivais. Pode-se falar de uma guerra intermitente em Cataluña entre as forças estatais ascendentes e o restante dos poderes revolucionários: comitês revolucionários locais, patrulhas de controle, etc. Não é fácil atribuir estes choques a algum grupo em particular; ao invés de buscar “responsabilidades”, é melhor ver estes choques como a colisão entre dois poderes. O que estes enfrentamentos representavam era a ruptura do frágil equilíbrio de que havia mantido desde julho. Para os defensores cada vez mais confiantes do Estado republicano, esta situação de conflito foi uma mostra mais da necessidade de reconstruir o poder estatal, ainda que seja necessário reconhecer que a campanha contra a revolução cresceu em proporção direta à passividade dos comitês superiores do movimento anarquista.

Não houve oposição das bases do movimento quando os anarquistas entraram no governo catalão e no governo central: a rapidez dos sucessos despistou muitos dos “puristas” ou “ortodoxos”, que logo passaram por uma etapa de trauma e estupefação diante da divergência entre os comitês superiores e a linha tradicional do movimento. Mas essa situação mudou ao fim de 1936 em reação ao fato de que “aquela Bela flora vermelha de 19 de julho se tinha ido assediando moralmente com o descenso do pulso revolucionário” [43]. Agora vemos a aparição de uma oposição aos líderes anarquistas entre certos setores das bases do movimento que se opunham ao que chamaram “o fatalismo circunstancionalista” dos comitês superiores e sua prática frente-populista do “mal menor” [44]. Esta nova corrente se delineou em proporção direta ao aumento dos compromissos dos comitês superiores – a militarização das milícias, a participação governamental, etc – assumidos em teoria para fomentar a unidade e para ganhar a guerra, concessões que não haviam esgotado o isolamento da República no âmbito internacional e tampouco havia conquistado vitórias no campo de batalha [45]. A postura dos anarquistas “puros” se respaldou nas posições tradicionais do movimento libertário/anarco-sindicalista: a defesa da revolução a todo custo, o antipoliticismo e a autonomia do proletariado, aspectos que foram prejudicados pelo colaboracionismo de classes da tática da frente popular.

A oposição anarquista à política dos comitês superiores teve diferentes vieses. Dada a importância da imprensa no movimento libertário, se formaram focos de oposição ao redor de diversos jornais, sobretudo Ideas (Bajo Llobregat), Ciudad y Campo (Tortosa), Nosotros (Valência), e Acracia (Lérida). Mas talvez o veículo de oposição mais comum tenha sido o grupo de afinidade, a velha forma de sociabilidade anarquista. Como exemplo, temos “Los Quijotes del ideal”, um grupo barcelonês de anarquistas “apaixonados por sua Dulcinéia”: a revolução libertária. Com seu jornal próprio com o mesmo nome, e por meio de oitavas, estes “Quijotes” chegaram a ter certa influência local [46]. Em termos políticos, a oposição mais importante que surgiu do movimento anarquista foi “os Amigos de Durruti”, que se formou no começo de março de 1937 e contava com cerca de mil milicianos que abandonaram a frente de Aragão em protesto à militarização das milícias. “Os Amigos de Durruti” criticaram os dirigentes da CNT-FAI pela substituição do “conceito de revolução” pelo frente-populismo, e reclamavam um controle proletário do Exército e da Polícia, bem como a supressão dos “parlamentos burgueses” nos quais os anarquistas estavam ainda representados. “Os Amigos de Durruti” também chegariam a falar da necessidade de uma “segunda revolução” [47].

A crítica destes quixotes contra os comitês superiores teve uma dimensão moral demarcada. Como José Peirats, o crítico mais mordaz e cujos escritos nos apresentam uma visão clara dos que enfrentaram o frente-populismo anarquista, reconheceria anos mais tarde, seu protesto ia contra “uma nova classe privilegiada” que se formou durante a guerra: “Criam que era porta a vida. Carguinhos, bons salários, bem trajados e até queridos” [48]. E com isso veio uma crítica sobre os limites da revolução que, por exemplo, não havia acabado com a prostituição, mas, ao contrário, a havia mantido no contexto da guerra como válvula de escape para a energia sexual dos trabalhadores fabris e milicianos/soldados em licença [49].

No início de 1937, a oposição talhou entre os comitês revolucionários locais ainda ativos e entre grupos armados como os comitês de defesa cenetistas e as patrulhas de controle. Também adquiriu expressão organizada através das juventudes do movimento anarquista e do movimento jovem do POUM. Em fevereiro organizaram uma assembleia de 14.000 jovens revolucionários em Barcelona, de onde saiu uma chamada a favor de uma “Frente Revolucionária Juvenil” [50].

A oposição revolucionária tinha, ademais, um fundamento material na inflação, que afetava todos os setores mais pobres da sociedade urbana. Os revolucionários atribuíam a alta dos preços às manobras dos pequenos capitalistas protegidos pelo PSUC, a que acusou, não sem justificativa, de acumularem colheitas para aumentar os preços. E este conflito produziu choques, por exemplo, quando grupos de operários e membros das patrulhas de controle marchavam ao campo para confiscar colheitas [51]. Dada a defesa dos pequenos proprietários rurais por parte do PSUC, não é de surpreender que as tensões entre a polícia e aquilo que restava dos grupos operários armados aumentaram na tensa primavera de 1937.

Os comitês superiores, sempre guiados por sua prática frente-populista, se dedicaram a desarmar a oposição anarquista. Esta campanha assumiu formas distintas. Um exemplo foi a tentativa de insuflar uma voz dissidente como Peirats, um dos adversários mais infatigáveis dos comitês superiores, em uma tentativa crua de abafar uma voz crítica em troca de um cargo pago, oferecendo-lhe uma cadeira no governo da Generalitat como representante da FAI durante a crise de dezembro de 1936. Pode-se debater até que ponto este episódio reflete a mentalidade reinante dentro dos comitês superiores, mas é difícil imaginar como alguém ideologicamente oposto à intervenção governamental se contentaria com um carro oficial. No final, Peirats se negou a aceitar o cargo por princípio e porque não era membro da FAI, o grupo que estava destinado a representar [52].

Sem dúvida insuflados pelo crescimento da oposição e pelos problemas militares, os comitês superiores romperam com a tradição anarquista da democracia interna, se tornando mais ditatoriais e empregando medidas burocráticas para combater as críticas militantes contra o “circunstancialismo”, ameaçando os quixotes com a expulsão do movimento [53]. Com o aumento da centralização e do controle vertical sobre o movimento libertário, o caráter das reuniões e assembleias anarquistas se restringiu. No início de 1937, por exemplo, segundo conta Peirats, chegaram ativistas de toda a Cataluña para uma reunião regional de militantes na qual se esperava um debate aberto sobre o rumo do movimento. Para sua surpresa, ao invés de um debate, foram obrigados a escutar uma aula magna da ministra Montseny sobre as necessidades e obrigações da guerra. Depois de uma hora de peroração, Montseny baixou da tribuna e não houve espaço para perguntas ou comentários sobre o conteúdo do discurso [54].

[Fim da parte II de III]

 

Notas: [40] Ibid [41] Mayayo i Artal, 1986, p. 46 [42] Criticón, 19-VI-1937 [43] Peirats, 1975 t.3, p.356 [44] Peirats, 1978 a, p. 287 [45] Godicheau, 2004, pp. 157-158, 165-169 [46] Paz, 1995. Pp. 215-217 [47] Ideas, 8-IV-1937; Agrupación Los Amigos de Durruti, 1997 [48] Peirats, 1975, t.5, p.4 [49] “Em Barcelona seguiam funcionando as ‘oficinas de material de guerra’, vulgo prostíbulos, alguns com o emblema ‘CNT-FAI’ na soleira” (Téllez, 1992, p. 43) [50] Ruta, 16-II e 9-III- 1937; Nosotros, 9 e 14-IV-1937; Acracia, 10 e 28-IV-1937; Ideas, 7-I e 11-III - 1937 [51] Diario de Barcelona, 8-I e 9-II-1937; La Batalla, 1 e 5-I e 30-III- 1937 [52] Peirats, 1975, t. 3, p. 225 [53] ibid, t.3, p. 216 [54] ibid, t.3, p. 226

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