da unidade antifascista à desunião libertária - parte III de III

Atualizado: 28 de ago. de 2021


Colagem por Talita Santana
 

Este texto é a parte III do artigo “De la unidad antifascista a la desunión libertaria - Los comités superiores del movimiento libertario contra los quijotes anarquistas en el marco del Frente Popular (1936-1937)”, de autoria de Chris Ealham e originalmente disponível na Casa de Velázquez. A tradução é de Fabiana Gibim, Alex Peguinelli e Gustavo Racy.

 

Com a perda da democracia interna dentro do movimento libertário e com o aumento da repressão estatal, as táticas tradicionais dos grupos de afinidades dispersos deixaram de ser tão eficazes. Assim, o periódico los Quijotes del Ideal, foi proibido por ordem governamental devido à pressão do Comitê Nacional da CNT [55]. De fato, a linha frente-populista veio acompanhada de um controle centralista sobre a imprensa anarquista. Não foi mera coincidência que, no princípio de novembro de 1936, com a entrada dos ministros anarquistas no governo frente-populista de Largo Caballero, o posibilista Jacinto Toryho substituísse o radical Liberto Callejas na direção da Solidariedad Obrera, formando uma nova equipe de redação na qual se incluiu a ministra Federica Montseny, Diego Abad de Santillán e outros que apoiavam a linha política dos comitês superiores [56].

A obsessão por controlar a linha editorial da imprensa cenestista e anarquista alcançou seu ápice em fevereiro de 1937, durante uma conferência organizada pela Oficina de Propaganda da CNT para a qual foram convidadas delegações de toda a imprensa libertária da zona republicana. Em um ambiente controlado em quase todos os sentidos por Marianet, o secretário nacional da CNT, os periódicos dissidentes foram submetidos a uma pressão intensa por parte dos representantes dos comitês superiores para uma mudança de postura; concretamente Marianet mantinha que os radicais estavam debilitando a credibilidade do movimento libertário e suplicava para que aderissem à “linha única” da CNT-FAI-FIJL [57]. Mas adiante, os comitês superiores impuseram uma censura informal sobre a imprensa anarquista, dado que tinham sob seu controle o suprimento de papel, chegando a influenciar e controlar a linha dos periódicos em seu próprio âmbito. Assim, silenciaram Acracia, o jornal dissidente de Lérida dirigido por Peirats que, em maio de 1937, recebeu um ultimato do Comitê Nacional da CNT: ou aceitava a linha do movimento ou o periódico deixaria de ter apoio deste [58]. Imediatamente depois, e como mostra de capacidade atração que ainda desempenhava a oposição anarquista, Peirats foi eleito diretor do Ruta, o jornal das Juventudes Libertárias catalãs que se convertera em uma publicação enfrentada pelos comitês superiores e também pela caneta do censor republicano [59]. A postura dissidente de Peirats lhe garantiu uma reunião com a recém-fundada Comissão Assessora Política CNT-FAI, cujo secretário era o Ministro da Justiça anarquista, García Oliver, que, entre ameaças, “convidou cordialmente” Peirats a respeitar as decisões dos “altos comitês” e “deixar de propagar” sua “enfermidade” [60]. Ao fim, a FAI acabou com a linha contestatória do Ruta ao retirar a ajuda que havia dado ao jornal desde sua criação [61].

A oposição revolucionária não chegou a ser mais do que um movimento defensivo: se dedicou principalmente a tentar frear o assalto do Estado republicano ao poder da revolução: o dos comitês locais e das patrulhas operárias. E neste sentido, ia contra a corrente. Como reconheceu o próprio Peirats, nos estaban haciendo la Guerra por todos los lados, desde o PSUC, passando pelos comitês superiores do movimentos libertário até as Juventudes Libertárias da região do Centro, que arremetiam contra nuestro pretendido separatismo catalán, porque negava a autoridade do Comitê Nacional [62].

Com o novo decreto, as patrulhas de controle tinham 48 horas para entregar suas armas às forças da ordem. Nas ruas, a tensão era palpável, asfixiante, e não tardaram em produzir os primeiros choques armados com a polícia [63]. Por este motivo, a Generalitat proibiu as celebrações do 1º de Maio sob o pretexto de que a tensão em Barcelona era demasiado intensa, ainda que, se levarmos em conta a força das tradições operárias na cidade, pode-se considerar tal medida como uma provocação por parte do governo autônomo. De qualquer modo, não ajudou a acalmar os ânimos nem a sublevar os conflitos de rua entre grupos de operários e as forças da ordem pública. E, dois dias depois, em 3 de maio de 1937, começaram os chamados hechos de mayo.

A gota d’água foi a tentativa inesperada da polícia catalã de tomar o controle da Telefónica, no centro de Barcelona, um edifício que havia sido tomado com muitas baixas operárias em julho de 1936 e que se converteu em uma coletividade “legalizada” por um decreto da Generalitat de outubro de 1936, administrada por um comitê CNT-UGT. Barcelona foi dividida em duas: as periferias se ilharam do restante da cidade através de uma rede de barricadas protegidas por operários armados e pessoas das bases do movimento anarquista e do POUM. Ao mesmo tempo, 2000 agentes de polícia, justo às unidades armadas do PSUC, controlavam com certa precariedade os principais edifícios do centro da cidade, como o palácio da Generalitat. Mas os anarquistas contavam com uma vantagem: a Generalitat estava ao alcance das baterias antiaéreas do Montjuich, controladas por eles, de modo que é possível dizer que, como em julho, eles eram os donos da cidade.

Pode-se ver os dias de maio como uma vitória militar, ou de guerrilha, dos setores mais radicais da classe trabalhadora barcelonesa. Mas, na realidade, maio de 37 representa uma derrota política que reflete igualmente a derrota da revolução de julho. Ainda que os revolucionários tivessem vantagem em Barcelona e, de fato, em quase toda Cataluña, não houve qualquer coordenação da luta contra as forças governamentais. Os revolucionários tomaram as rua e se organizaram com o controle das periferias, como em julho e os meses seguintes, mas nunca se estabeleceu um órgão capaz de canalizar a energia revolucionária [64] . Os chefes anarquistas seguiam presos à lógica colaboracionista da Frente Popular, rechaçando o convite da POUM para criar uma frente operária revolucionária [65]. Tampouco abandonaram sua postura conciliadora perante os partidos da Frente Popular. É muito chamativo que Diego Abad de Santillán, o líder anarquista e ministro do governo catalão, passasse a crise de maio no Palau de la Generalitat, muito longe das lutas nas ruas.

A obstinada fidelidade dos comitês superiores à frente-populista anunciou o fim dos protestos nas ruas. García Oliver e Montseny, os dois ministros anarquistas do governo central com um passado mais radical e com mais influência sobre os militantes libertários barceloneses, chegaram à cidade para negociar uma trégua. García falou na rádio da Generalitat para pedir aos militantes armados que deixassem as ruas [66]. Sob essa pressão, que Peirats mais tarde descreveu como a gran traición dos líderes [67], as barricadas foram abandonadas e, em 7 de maio, a maioria dos grupos de trabalhadores armados aceitou a autoridade da Generalitat. Ao pedir o fim da luta nas ruas, os líderes anarquistas estavam entregando sua principal fonte de poder [68].

Em seguida, as autoridades procederam a destruição do que havia restado do poder revolucionário de julho. No mês de maio, os comitês revolucionários e as patrulhas de controle foram dissolvidos por decretos governamentais, usando a força se necessário [69]. Essa era a consequência inevitável da tática frente-populista dos comitês superiores. O poder dos guetos e a revolução chegaram ao fim para impor, na opinião do periódico anarquista Criticón, la dictadura de los tenderos [70].

Quanto à alta política, os líderes anarquistas descobriram que sua posição não poderia ser nada além de defensiva. Este foi o ápice de meses de engajamento com seus aliados dentro do governo. Para a surpresa dos anarquistas, foram expulsos da Generalitat, da mesma forma como havia acontecido, seis meses antes, com o POUM. Além disso, no mesmo mês de maio, os anarquistas foram deixados de fora do governo central. Para a frente-populista, os líderes anarquistas já haviam cumprido sua tarefa: haviam se comprometido com o antifascismo e ajudado na campanha para acabar com a revolução nas ruas. Mas a frente-popular do movimento libertário não desapareceu com a ruptura do pacto antifascista durante e depois de maio de 1937: na sessão plenária peninsular da FAI, realizada em julho de 1937 para coincidir com o décimo aniversário da organização anarquista, foi anunciada sua adesão à “luta contra o Estado fascista”, pois, obviamente, seguia cooperando com o Estado democrático [71].

Os líderes anarquistas logo perceberam que não haviam obtido as garantias necessárias durante a trégua que encerrou as barricadas em maio. Se, ao aceitar a colaboração governamental, os comitês superiores haviam pensado que seria possível suspender a revolução de dentro do governo, para reativá-la depois de vencida a guerra, a partir de maio de 1937, se deram conta de que isso não era mais do que um sonho. No entanto, seu reformismo foi tão longe que continuavam a exigir a renúncia de Rodríguez Salas, a quem responsabilizavam pelo conflito de maio: não eram capazes de assumir o fato de que, por trás das lutas nas ruas, estavam as contradições dos compromissos que eles mesmos haviam assumido em 1936. Apesar da oposição a indivíduos aparentemente “culpados” de liderar a repressão estatal, os comitês superiores aceitaram o aumento da repressão contra grupos e indivíduos revolucionários, como mais um aspecto característico da política da frente populista. É por isso que os comitês pró presos libertários, que estavam na linha de frente da luta contra a repressão, atacaram duramente as políticas destes líderes anarquistas [72].

Companys foi outro dos vencidos dos eventos de maio. A trégua foi uma vitória para o poder central, que assumiu muitos dos poderes da Generalitat. A ironia é que a Cataluña havia alcançado o mais alto nível de independência de sua história contemporânea graças à revolução de julho. No entanto, a essa revolução se opuseram a Esquerra e os catalães do PSUC, minando a experiência e ajudando o poder central.

As lutas de maio foram um movimento de protesto contra a erosão do poder revolucionário que, como a insurreição popular contra o golpe militar de julho anterior, careceram de lideranças políticas claras. Foi um protesto fragmentado localmente, sem nenhum ponto focal de oposição à reconstrução do Estado. Dentro do movimento anarquista somente Los Amigos de Durruti propuseram um comando único revolucionário, mas já era tarde demais, e os Amigos estavam isolados dentro do movimento libertário. Muitos dos quixotes anarquistas se opunham aos comitês populares e simpatizavam com os Amigos de Durruti, no entanto, mantiveram distância desse grupo porque o viam com características bolcheviques [73].

Ironicamente, os libertários que mais claramente abraçaram as práticas bolcheviques foram os líderes do movimento. As tensões causadas pela guerra, a política frente populista e a colaboração governamental impulsionaram a transformação do movimento anarquista e da CNT: se antes da guerra esta era uma organização horizontal, sem hierarquia e que dependia das assembleias, agora burocratizou-se na medida de exercício seu poder político [74]. Assim, depois de maio, acentuaram-se as tendências burocráticas do movimento ácrata, quando os comitês superiores passaram a imitar o centralismo democrático dos comunistas; uma inovação compreensível com afã de prevenir novas dissidências na base do movimento e, sem dúvida, um reconhecimento da aparente ascensão vertiginosa do comunismo soviético durante a guerra, algo que para muitos se devia à sua disciplina de ferro e ausência de críticos da liderança partidária. Com uma organização cada vez mais hierarquizada e burocratizada, não havia muito espaço para os quixotes libertários.

Não se pode esquecer que a oposição anarquista sempre esteve constrangida e mutilada. Politicamente, uma grande parte dos quixotes anarquistas não tinha uma apreciação clara dos acontecimentos. Por exemplo, consideraram, assim como seus líderes, que a crescente tensão entre o POUM e o PSUC não era nada além do que uma guerra entre hermanos, ou la querella entre Stalin y Trotsky, ao invés de uma luta sobre o futuro da revolução. Por outro lado, enquanto muitos anarquistas radicais estavam dispostos a aderir o POUM na luta das ruas, eles permaneceram hostis à sua política. E os quixotes não ofereceram uma alternativa clara à política dos líderes do movimento anarquista [75]. Apesar das fortes críticas à “FAI deplorável, revisionista, social-democrata” [76] e o “caráter ditatorial” [77] daqueles que tentaram “bolchevizar o anarquismo” [78], a oposição anarquista aos comitês superiores não avançou para uma solução, algo que Ruta veio a chamar de “a crise do anarquismo” [79]. Os quixotes, em particular, temiam uma ruptura do movimento anarquista: deve-se ter em conta que a CNT havia sofrido uma séria cisão nos anos trinta e havia se reunificado apenas algumas semanas antes de estourar a guerra. A maioria dos militantes queria evitar outra cisão, pois pensavam que somente serviria para ajudar os inimigos do movimento libertário e esse temor minou profundamente a campanha contra os comitês superiores. Assim, anos mais tarde, Peirats, escreveria em suas memórias “nossas almas doíam” com a possibilidade de uma cisão, por este motivo buscaram uma “trégua” com os “circunstancialistas” dos comitês superiores, embora soubessem que na prática isso significava “nossa retirada” [80]. Essa retirada estratégica foi apenas o prefácio para que se retirasse da Espanha todas as forças organizadas que tivessem aderido à Frente Popular. Durante os longos anos de exílio, a controvérsia sobre as responsabilidades das derrota republicana veio a dividir o antifascismo espanhol da mesma forma que continuou dividindo o movimento libertário [81].

[fim da parte III de III]

 

Notas: [57: Peirats, 1975, t.3, pp. 227-228] [58: Ibid, t.3, p. 231] [59: Téllez, 1992, p. 45; Peirats, 1975, t.3, p. 239 e 1987, p. 29] [60: Peirats, 1975, t.3, pp. 254-255] [61: Gómez Casas, 1977, p. 225; Peirats, 1975, t.3, p. 250] [62: Peirats, 1975, t.3, p. 241] [63: La Humanitat, 30 e 31-IV-1937] [64: Los Amigos de Durruti, um grupo anarquista dissidente, lançou uma série de slogans desde as periferias, mas carecia de uma influência para por em questão a postura conciliadora da hierarquia cenetista e faísta. Cf. Guillamón, 1994; Amorós, 2003] [65: La Batalla, 30-IV e 1-V-1937]. [66: Abad de Santillán, 1975, pp. 165-166] [67: Peirats, 1978a, p. 225] [68: Cit. en Broué, 1977, p. 135] [69: Solidaridad Obrera, 16-V-1937; Diari Oficial de la Generalitat de Catalunya, 5-VI-1937; Tierra y Libertad, 12-VI-1937] [70: Criticón, 19-VI-1937] [71: Peirats, 1975, t. 3, p. 251] [72: Godicheau, 2004, pp. 302-303 y 306-312] [73: Gómez, s. f., p. 32; Paz, 1995, p. 120] [74: Godicheau, 2004, pp. 296-297] [75: Ibid., p. 344, aponta que a oposição ácrata não disponibilizava de nenhuma alternativa aos líderes existentes do movimento] [76: Peirats, 1975, t. 3, p. 256] [77: Ibid., t. 3, pp. 231-233] [78: Peirats, 1978a, p. 253 y 1975, t. 3, p. 243] [79: Ruta, 2-IX-1937] [80: Peirats, 1975, t. 3, p. 233] [81: Véase Herrerín López, 2004]

 

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