defesa de sade

Atualizado: 16 de set. de 2021


O castelo do Marquês de Sade em Lacoste, negativo fotográfico de Man Ray, 1936. Acervo do Centre Pompidou, França.
 

A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

Segundo o diretor de cinema e romancista Marc Dugain, Philippe Audoin (1924-1985) “era monstruosamente culto, intelectual até o último fio de cabelo e dotado de um senso de humor devastador”. Após aproximar-se de Breton no fim dos anos 1950, Audoin passa a integrar o grupo surrealista de Paris, dedicando-se às margens, ou seja, a estudos sobre esoterismo e alquimia, Georges Bataille e Charles Fourier, dentre outros. Sua obra encontra-se até hoje esparsa e em parte inédita, publicado pela primeira vez nest’A Fresta.

A defesa do famigerado libertino Marquês de Sade (1740-1814) elaborada por Audoin, a qual continua até aqui e agora caindo como uma luva e servindo a muitos como uma carapuça, é inédita em português e, até onde temos notícia, jamais foi editada em livro. Originalmente, foi publicada em 16 de março de 1966 no jornal de esquerda Le nouvel observateur e agora, em português, n’ A Fresta. Defesa de Sade A longa carta do Sr. Pierre Favre, um dos nossos leitores da cidade de Annecy, a qual publicamos no nosso número 68 sob o título “Devemos queimar Sade?”, provocou numerosas reações. Lembremos que o Sr. Favre reprochava à imprensa de esquerda, e especialmente ao Nouvel Observateur, por citar Sade com excessiva frequência, e além disso a seu favor, enquanto que, conforme o Sr. Favre, o Divino Marquês poderia somente ser comparado aos carrascos dos campos de concentração. Na semana passada publicamos a carta de uma leitora contradizendo o Sr. Favre. Ainda chegaram-nos outras cartas, de aprovação ou reprovação. Algumas delas citaram, em favor da tese do Sr.Favre, um artigo recentemente publicado no hebdomadário belga “la Gauche”, e também o prefácio às obras escolhidas de Sade, escrito por Maurice Nadeau há quase vinte anos, no qual ele diminuía a importância desta assimilação de Sade aos carrascos nazistas… Em resposta ao artigo do Sr. Favre, publicamos hoje dois textos de escritores de esquerda: um de Dionys Mascolo e outro Philippe Audoin, sendo que este último se expressa com o aval de André Breton e do grupo surrealista. Uma hipermoral O Sr. Pierre Favre não arriscava ser acusado de contradição ao concluir que a obra de Sade não poderia ser um “guia de ação” para a esquerda. A ação da esquerda tampouco poderia reclamar para si os Cantos de Maldoror, o Potlatch, os sacrifícios astecas, as orgias rituais dos antigos ou primitivos, assim como nenhum destes desregramentos nos quais o homem, segundo a expressão de Michelet, chega o mais perto que pode do objeto de seu horror. Se a ordem estabelecida aspira a assegurar a conservação da espécie, o que a rigor podemos assimilar ao Bem, os ímpetos de violência e destruição seguramente partem do Mal. No entanto, alguns destes são, ou eram, institucionais. A preocupação do Bem, num caso como este, contenta-se em ignorar tais ímpetos e, ao contrário, dá-lhes uma boa vantagem. Não sem razão: todo humanismo que tem o Mal como exterior, ou visa excluí-lo, deixa de dizer respeito ao humano, fechando-se em suas próprias mentiras e, na verdade, aliando-se à repressão. O herói sádico é primordial: assume sem reservas toda a bestialidade original e, ao mesmo tempo, a devota a fins egoístas, mas puramente humanos; ele nos diz e repete que toma o seu modelo do Universo “que infalivemente se degrada, que suplicia e destrói a totalidade dos seres que colocou no mundo”, imitando-o ao preço de uma prodigiosa tensão, igualando-se a ele e, no limite, compreendendo-o. Nisso ele é efetivamente divino, atingindo o Céu enquanto “Deus na terra lança!”. Sade estende o espelho Por conta disso, Sade é exemplar: ele é humano por inteiro. Ele estende a cada um de nós o espelho no qual está inscrita a imagem aterrorizante, mas inesquecível, de nossa própria liberdade: liberdade a si, liberdade furiosa, da qual nos desviamos — contudo, único modelo da liberdade-ao-outro, a qual fingimos dar exclusivamente atenção. Aos que ousassem denunciar o conteúdo “reacionário” de uma atitude filosófica ou moral que seria transigente com estes arrebatamentos, bastaria opor a tese de H. Marcuse: “Assim, a regressão assume uma função progressiva. O passado redescoberto fornece modelos críticos que o presente coloca sob tabú”. Por passado entende-se aqui, evidentemente, aquele da horda primitiva (verdadeira ou suposta), constrangedor às boas almas; e também o passado da voluptuosa ferocidade das mais jovens crianças, o qual subsiste na memória secreta do adulto: fonte tida como vergonhosa, entretanto sempre atuante, mesmo se nos vangloriamos de beber em outras águas. A bem da verdade, a revolta, a insurreição e a exigência revolucionária são diretamente tributárias dessa fonte. As jornadas revolucionárias podem ser movidas pelos “mais obscuros desígnios” — compondo-se aí naturalmente com uma generosidade extrema. Se ninguém escandaliza-se, quer dizer que suas verdadeiras cores são as do Termidor. Poderíamos dizer o mesmo destes “homens de esquerda”, aos quais o ci-devant Marquês tanto inquieta, e que insistem na distância que separa as utopias sadeanas da sociedade dita socialista, na qual suas virtudes seriam por fim recompensadas. Mas quem jamais pretendeu encontrar, como eles fingem acreditar, ao pé da letra destas utopias um modelo social? O que é preciso constatar é que a esquerda definha e se enfraquece rapidamente ao desligar-se das fontes deletérias às quais ela deve sua força e que permitem-lhe exigir que a justiça seja feita de outra maneira que aos cuidados do carrasco. De fato, ela só tem vida e seduz o espírito e o coração, à medida que admite fundar suas intenções gestoras num projeto realmente subversivo. Quando somente estas intenções gestoras são consideradas, a esquerda vem ao socorro, como vemos no Ocidente e alhures, do aparelho repressivo que ela tinha por missão desmantelar e, ainda, prova sua incapacidade num terreno que não é o seu. O Eros noir Se de alguma maneira é verdade que a sombra de Sade aparece em todos os lugares onde pode adivinhar-se um acréscimo de masmorras, fogueiras e carrascos, conclui-se que estes horrores e os escritos do Marquês têm uma origem comum: a mesma na qual se distingue o rosto negro de Eros. Mas se um tumulto selvagem anima toda ambição revolucionária e sustenta a emancipação de todos pelo furor de cada qual, as forças que provocam-no não têm em si mesmas sentido histórico. Além disso, lembremos que o horror nazista foi perpetrado nas águas geladas do Dever e da Razão de Estado, vestindo seus mais cínicos empreendimentos em puídas roupagens escatológicas e produzindo carrascos-missionários em série, levando assim a trapaça ao seu cúmulo. Sade não trapaceia. Seu universo e seus aspectos mais delirantes partem unicamente da volúpia — única via pela qual o homem pode atingir a soberania, ou ao menos visar atingi-la. Sabemos quais relações a volúpia estabelece com o Mal, “mas”, diz Georges Bataille, “esta concepção não pede por uma ausência moral, ela exige uma hipermoral”. É ao pensamento revolucionário — à esquerda, pois ela o reclama para si — que diz respeito elaborar e viver esta hipermoral. A partir das colocações do Sr. Favre podemos duvidar que ela esteja se aproximando disso e se importando com isso.

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