despatriarcalização: uma resposta categórica do feminismo comunitário

Atualizado: 15 de fev.


Colagem por Fabiana Gibim


A internacionalização do capitalismo e sua democracia representativa tem sido o reino todo poderoso de empresários e transnacionais que hoje são expressões de um sistema maior. A esse sistema de dominação nós, feministas comunitárias, denominamos Patriarcado. Este artigo apresenta o feminismo comunitário em seus diferentes aspectos em relação a outros feminismos. Em particular, se analisa como as políticas neoliberais provocaram a institucionalização do movimento feminista por meio de ONGs e de redes que representavam e falavam no lugar das mulheres. A partir da insurreição popular de outubro de 2003 em El Alto, a Assembleia Feminista criou na Bolívia um espaço de reflexão para reconceitualizações que se faziam necessárias à luta contra o patriarcado e à descolonização do feminismo. Representantes desta Assembleia que participaram da 13ª Reunião Feminista da América Latina e Caribe sugeriram que a Bolívia fosse o próximo local. Como esta iniciativa foi rejeitada, o Feminismo Comunitário lançou a convocatória para o I Encuentro Feminista de los Pueblos, a realizar-se na Bolívia em 2016. Referência da publicação original: PAREDES, Julieta. Despatriarcalización: Una respuesta categórica del feminismo comunitario (descolonizando la vida). Bolivian Studies Journal /Revista de Estudios Bolivianos. Bolívia, vol. 21, 2015, doi: 10.5195/bsj.2015.144. Traduzido por Annelise Schwarcz

 

O processo de mudanças na Bolívia, gestado a partir dos povos e territórios organizados, tem proporcionado às bolivianas e aos bolivianos a possibilidade de projetarem suas vidas e seus sonhos para além dos ditames internacionais do capitalismo neoliberal e sua democracia representativa à base de acordos que, de fato, tem sido o reino todo poderoso de empresários e transnacionais que hoje são expressões de um sistema maior. A este sistema de dominação nós, feministas comunitárias, denominamos Patriarcado – a diferença de outros feminismos, para os quais o patriarcado é somente a relação de poder e dominação que os homens exercem sobre às mulheres, uma espécie de subsistema de outro maior que, para os socialistas, é o capitalismo e, para os indianistas, é a colônia e a colonização. Para nós, o sistema maior é o Patriarcado. Como mulheres e como feministas, temos lutado e continuaremos a lutar, pois é assim que as revoluções são construídas. As revoluções não são uma “maré rosa”, nem um momento – como creem alguns – de ejaculação precoce, pelo qual os povos vivem um orgasmo e logo voltam a um cotidiano de opressões recicladas, explorações e velhas relações de dominação. Não se trata de substituir o opressor como num passe de mágica; trata-se de acabar com a opressão. Um conceito muito importante nas lutas de nossos povos é o de Território, diferenciado do conceito de terra. Terra e Território não são sinônimos. Território se refere, sobretudo, às decisões e relações políticas que se dão entre nossos povos originários. Durante séculos temos defendido os territórios que nos cobiçam com bloqueios de caminhos, cercos, greves, levantamentos e insurreições; mas, uma vez que se aprovou a Nova Constituição Política do Estado Plurinacional da Bolívia e se conseguiu que o presidente eleito nas eleições, o irmão Evo Morales Ayma, fosse capaz de governar e executar as tarefas de afastar a Bolívia da pobreza extrema e de a transformar num país de rendimento médio, as pautas mudam. Se abre a possibilidade de novas propostas. Nesse espaço propositivo se situa o que pleiteamos: lutar no território das palavras.

A luta no território das palavras

Quando se discutem os elementos que afetam o maior ou menor avanço civilizacional das culturas, um dos parâmetros de comparação é o da língua escrita euro-ocidental. É claro que esta visão colonial – que pressupõe pensar a partir do umbigo – é o modelo a seguir, qualificando como atrasadas e menos civilizadas as culturas que não satisfazem tais requisitos exigidos. No entanto, nossas culturas têm muitas outras formas de escrever e gerar linguagem que, além de serem igualmente válidas, se chocam com limitações de intelectuais eurocêntricos que, no momento de se deparar com o que não conhecem, não valorizam e nem interpretam aquilo como “diferente”, apenas como “igual”. O que sucede é que há um analfabetismo – assim o chamaremos para que nos entendam – a respeito das culturas não euro-ocidentais que, à margem da dicotomia mente-corpo, espírito-linguagem (uma dicotomia, evidentemente, colonial e metafísica), assume a linguagem como um instrumento que expressa o que pensa ou o que é, e o comunicam através de inúmeras formas de escrita como a cerâmica, a oralidade, os tecidos e etc. A oralidade se evidencia como escrita no momento em que é inventado o gravador, o que a princípio se transmitia de um/a ao/à outro/a, como uma prática de comunicação multimídia. A extensa memória que guardamos dessas formas de escrita permite-nos até hoje, apesar de tantas guerras de extermínio, estarmos a reconstruir, a recuperar, a relançar e a reposicionar um projeto político histórico que nasce de baixo.

A prática política que se nomeia

O papel das teorias é em um lugar de disputas. Para aqueles de nós que acreditam sempre que é possível fazer revoluções que mudam o mundo, as teorias que visavam a transformações sociais – até início do século XXI – foram desacreditadas pela sua inutilidade frente a um neoliberalismo que, como um rolo compressor, espezinhou e comeu todas as "verdades" com as quais nós, enquanto povos, conseguimos manejar resistir às ditaduras e reconquistar a democracia. Eram teorias de mudança social em que acreditávamos e, no entanto, após a queda do Muro de Berlim, tudo foi relativizado e diluído. As academias, as/os intelectuais tampouco reagiram de forma eficaz, ou melhor, reagiram escrevendo livros de pouca utilidade para aqueles de nós que já não tinham sindicatos ou direitos trabalhistas, antes conquistados pelos nossos avós e avôs nas ruas. Os Estados ficaram fragilizados e nós, sem qualquer ideia de quem enfrentávamos, uma vez que esses eram constituídos por interesses comerciais transnacionais e as nossas mobilizações territoriais nem sequer faziam cosquinha, pois o objetivo [dessas transnacionais] ia além de nossos territórios, controlando a exploração de todo o mundo. É por isso que o feminismo comunitário e as feministas comunitárias, quando conseguimos usar palavras para nomear lutas, corpos, sonhos, estávamos muito longe das teorias dos intelectuais. É por isso que encontramos sentido em definir como "prática política que nomeia" os conceitos e reflexões que estávamos a construir para nomear os nossos corpos, os nossos povos e os nossos territórios, aquele lugar de onde pensamos e designamos, aquele lugar de onde renomeamos, ressignificamos, criamos novas palavras, conceitos e categorias que nos servem para lutar ao lado de nossos povos. Nessa tarefa, ninguém nos serviu como professora e nem fomos discípulas de ninguém, o que não significa desconhecer as feministas que vieram antes de nós, mas que devido à realidade de nosso país, conhecíamos muito pouco ou nada. Nós tínhamos uma luta a fazer em nossa realidade e por isso inventamos os nossos conceitos, as nossas explicações e as nossas categorias de análise. Consideramos que hoje, a Bolívia, com suas organizações sociais e suas práticas políticas, é um lugar muito rico e próspero, onde as necessidades colocadas pelo desafio de alcançar um país do Bem Viver para todos são estimulantes.

Feminismo e neoliberalismo

Um pouco de memória sobre o feminismo pode ajudar-nos a compreender as realizações e desafios que temos hoje na Bolívia a partir da perspectiva das mulheres e do processo de mudança. A globalização, a modernidade e o neoliberalismo chegaram aos nossos povos com grande fervor nos anos 1990. Anunciavam nos meios de comunicação paraísos de bem-estar, desenvolvimento da produção e profetizaram uma sociedade do futuro que nunca chegou. Nesse contexto, as mulheres foram incorporadas ao mercado de trabalho não exatamente como beneficiárias, mas sim como amortecedor de crises econômicas geradas por uma série de fatores: privatizações de empresas públicas, demissões em massa, contratos flexibilizados e demais medidas impopulares e desestatizadoras. As estratégias foram, e seguem sendo, das mais variadas. Algumas delas, como as políticas públicas de ajuste estrutural, tem como mecanismo as demissões em massa (redução de pessoal) e nestes casos as primeiras a serem despedidas são as mulheres. Outra estratégia é a diminuição de gasto público por parte do Estado em áreas como saúde e educação, cujas tarefas logo serão executadas pelas mulheres que realizam esses trabalhos domésticos gratuitamente, presas no funcionamento patriarcal dos papéis sociais, agora em benefício das transnacionais. Outra estratégia muito útil para a acumulação capitalista foi a invenção social de projetos de gênero, resultante da cooperação internacional, gerando assim uma rede de ONGs especializadas na incorporação política e econômica das mulheres ao neoliberalismo e à super exploração de seu trabalho e tempo. As estratégias consistiam em lançar políticas públicas de gênero, ou seja, reduzir as mulheres às suas relações de gênero e evitar muito convenientemente o resto das contradições e problemas que as mulheres tinham por causa do neoliberalismo. Outro exemplo foram os chamados "projetos de capacitação para a produção" que preparavam as mulheres para as maquiagens [maquilas] em alguns casos e, em outros, para a usura bancária com empréstimos às chamadas "pequenas empresárias", a quem se emprestava dinheiro a taxas de juros muito elevadas (entre 20% e 40% anualmente), taxas de juros que nunca foram cobradas aos grandes empresários e tudo isto sob o pretexto do "empoderamento econômico das mulheres". Nos anos 1990, em pleno auge das políticas neoliberais econômicas e sociais impostas aos nossos povos, éramos poucas ativistas feministas. A maioria preferia definir-se desde a perspectiva de gênero, que implicava uma despolitização das demandas das mulheres. Deve se reconhecer que existem feminismos dos mais diversos e que, nesta etapa da história, tem-se manifestado de maneira mais evidente contradições irreconciliáveis entre interesses de classe, de raça e origem cultural, mesmo dentro de nossos próprios movimentos sociais. O feminismo latino-americano não soube responder nem teorizar essas contradições. Nós fomos desafiadas em nossas próprias formas de organização política, em nossos argumentos, propostas antisistêmicas e em ações comprometidas com uma sociedade que era urgente mudar. Mas apesar de todos os nossos esforços não conseguimos disparar criativamente na proposição de novos conceitos. Precisávamos da insurreição popular de outubro de 2003 à cabeça de El Alto, Bolívia, que afastou o neoliberalismo dos nossos territórios e criou as condições para a Assembleia Feminista, um espaço de reflexão e teorização de conceitos úteis para as nossas lutas. “Não se destrói a casa do senhor com as armas do senhor. [...] A casa do senhor se desarma”, dizia Audre Lorde, feminista afro-americana. Nós concluímos que era necessário criticar e derrotar a estrutura intelectual que o neoliberalismo havia construído para destroçar os projetos de país, gestado nas lutas contra a ditadura. O objetivo da burguesia medíocre, que jamais acreditou na Bolívia, era o de apropriar-se de empresas estatais que deveriam beneficiar o povo. Buscava-se garantir a imposição de política neoliberais para romper o tecido das organizações sociais e sindicais, e assim concretizar a morte dos sonhos e utopias dos povos. Esse desenho de país é o que nós queremos mudar.

O patriarcado se recicla

O feminismo maneja diferentes conceitos de patriarcado, mas o comum é que se refira a relações de dominação dos homens sobre as mulheres, confundindo-se, em nosso juízo, com o conceito de gênero. O feminismo comunitário, por outro lado, conceitua o patriarcado de uma maneira diferente. Trata-se de um conceito que nos interessa analisar, uma vez que nos ajuda a posicionarmo-nos como feministas comprometidas com as lutas da libertação de nossos povos. Para nós, o Patriarcado “é o sistema de todas as opressões, todas as explorações, todas as violências e descriminações sob as quais vive toda a humanidade (mulheres, homens e intersexuais) e a natureza, historicamente construído sobre o corpo das mulheres”. (Paredes e Guzmán, 2014) Ao longo da história, vemos que alguns homens oprimidos conseguem melhorias em suas condições de vida e em suas situações de opressão como, por exemplo, os escravos, servos feudais, etc. Também algumas opressões territoriais, como as colônias, se libertam; os proletários do mundo conseguem as oito horas de jornada de trabalho; um sem fim de processos históricos falam dessas lutas e das conquistas dessas lutas. Estes são só alguns exemplos do caminho percorrido pelos homens em busca de melhores condições. Mas o que vemos como um fato corriqueiro, em todos esses casos, é que as mulheres continuam oprimidas, por vezes subordinadas como escravas, como servas feudais, como proletárias dos proletários, com seus corpos colonizados. Há direitos para os homens, mas muito escassos são os direitos das mulheres, ainda hoje, no começo do século XXI, ano 2015. Os homens se libertam, as mulheres NÃO. Qual é essa ordem milenar capaz de mudar de rosto – escravidão, feudalismo, capitalismo, neoliberalismo – reciclando assim a opressão e, em primeiro lugar, a opressão das mulheres, mas também do restante da humanidade e da natureza? Se chama Patriarcado. O patriarcado se recicla e se nutre das mudanças sociais, incluindo as revoluções, porque estas revoluções e processos sociais não têm sido construídos desde e para com as mulheres. O patriarcado afina seus tentáculos, corrige suas formas brutais de operar e relança as opressões com instrumentos cada vez mais sutis e difíceis de detectar e responder, instrumentos que confundem, enganam e precisam de maior agudeza de análise. Em Una sociedade en estado y com estado despatriarcalizador (2008), refletimos sobre a viagem histórica da concepção do patriarcado. Temos indicado que se trata de um termo que apareceu na bíblia para falar do patriarcado de Jesus na tradição judaico-cristã, mas para levá-lo ao debate político deve ser contextualizado em relação ao modelo neoliberal (colonial e patriarcal). (…)

Parte I/III


Sobre a autora: Julieta Paredes iniciou sua trajetória política e feminista no início da década de 1990 com o coletivo Mujeres Creando: um coletivo anarquista de mulheres que busca, a partir de intervenções textuais e performances artísticas, denunciar a violência patriarcal em todas as esferas políticas - desde a esfera da vida privada à macroestrutural -, da sociedade na Bolívia. Devido ao rompimento com María Galindo, sua então parceira e co-fundadora do Mujeres Creando, e por conta de divergências políticas internas ao coletivo, Paredes deixa o Mujeres Creando e funda o coletivo Mujeres Creando Comunidad em 2003. É a partir de seu lugar de mulher aymara, ativista feminista, lésbica, escritora e artista que Julieta inscreve sua proposta de feminismo comunitário. Sobre a tradutora: Annelise Schwarcz tem 25 anos e desde sua graduação tem se interessado por estética, estudos decoloniais e epistemologias feministas. Após 1 ano como bolsista PIBID com o projeto "Tecnologias e Epistemologias: Por uma Filosofia Atual" (2017), e 2 anos como bolsista PIBIC com o projeto "Arte da Crítica" (2018.2 a 2020.2), graduou-se em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense - UFF em 2020. Atualmente está cursando o mestrado na mesma instituição, com o projeto intitulado " Tecendo redes, atravessando traumas: novos rumos para um mundo porvir", onde investiga a possibilidade do feminismo decolonial e suas diversas experiências instaurarem um novo mundo, além do povoado pela atual subjetividade patriarcal, neoliberal e colonial.

 

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