do éter à autonomia: a rádio alice como forma-de-vida

Atualizado: 5 de ago.


Rádio Alice, Bologna, 1977


Andityas Soares de Moura Costa Matos

Doutor em Direito e Justiça pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, Brasil). Pós-Doutor em Filosofia do Direito pela Universitat de Barcelona (Catalunya). Doutor em Filosofia pela Universidade de Coimbra (Portugal). Professor Associado de Filosofia do Direito e disciplinas afins na UFMG.


É curiosa a expressão italiana para indicar a transmissão de ondas radiotelevisivas: occupazione dell’etere, que se traduz literalmente como “ocupação do éter”. Para os antigos, o éter era um elemento primordialíssimo e muito sutil que ocupava todo o espaço vazio no cosmos, não se confundindo com os quatro elementos clássicos: ar, água, terra e fogo. Na Idade Média e no Renascimento o éter passou a ser visto como uma realidade que conectava os espíritos e a natureza, sendo que os alquimistas o identificaram com a quintessência da matéria. Na contemporaneidade, comprovou-se que o éter não existia, apesar de autores como Descartes sustentarem o contrário. Entretanto, graças a um desses deliciosos e frequentes arcaísmos da língua italiana, a palavra etere passou a significar espaço atmosférico e é nesse sentido que devemos entender a importante decisão da Corte Constitucional da Itália de 28 de julho de 1976, quando foi liberada a transmissão de rádio via etere em âmbito local. Antes, em 1974, a Corte já permitira a pessoas privadas efetivar transmissões via cabo, também em âmbito local. Antes disso era proibido, pois a radiotransmissão era monopólio exclusivo do Estado e praticamente toda a Itália só ouvia e assistia às emissões de rádio e TV da RAI. Tudo isso mudou em 1974 e, com muito mais força em 1976, quando se multiplicaram as rádios livres. Talvez a mais importante delas tenha sido a Rádio Alice, com a frequência 100.6 MHz, fundada por vários estudantes, artistas e intelectuais próximos do movimento libertário da Autonomia, tais como Franco “Bifo” Berardi, Maurizio Torrealta e Filippo Scozzari. 


A Rádio Alice começou suas transmissões em 9 de fevereiro com a canção The Star Spangled Banner de Jimi Hendrix. Ela utilizava um velho transmissor militar retirado de um tanque estadunidense da Segunda Guerra Mundial. A antena da Rádio foi montada manualmente no alto de um prédio no centro de Bolonha e seu nome é uma homenagem à personagem de Lewis Carroll e à filha de uma das fundadoras da estação, Dadi Mariotti. O objetivo da Rádio Alice era liberar a informação e por isso não tinha programação fixa, pauta ou compromissos comerciais. Todos podiam tomar o microfone e falar o que quisessem, o que era feito presencialmente ou mediante o telefone. A Rádio funcionava 24 horas e cobria eventos estudantis, concertos, festas, cerimônias de cultos religiosos extravagantes etc. Diz-se que toda manhã ela iniciava suas emissões com lições de Yoga e uma canção bem característica, do cantautor italiano Enzo del Re, que soa assim:


Lavorare con lentezza senza fare alcuno

sforzo

chi è veloce si fa male e finisce in

ospedale

in ospedale non cè posto e si può morire

presto

Lavorare con lentezza senza fare alcuno

sforzo

la salute non ha prezzo, quindi rallentare

il ritmo

pausa pausa ritmo lento, pausa pausa

ritmo lento

sempre fuori dal motore, vivere a

rallentatore

Lavorare con lentezza senza fare alcuno

sforzo

ti saluto ti saluto, ti saluto a pugno chiuso

nel mio pugno cè la lotta contro la

nocività

Lavorare con lentezza senza fare alcuno

sforzo

Lavorare con lentezza