dois reis magos

Atualizado: 2 de mar.


Colagem por Fabiana Gibim

A pobreza impedia minha mãe de se dar ao luxo da descrença, éramos duas e não nos contentávamos, não cabíamos no bondoso esquadro de deixadas pelo pai que a comunidade buscava nos colocar nas arestas de coitadas; nossa fé exalava certa aparição fenomênica do que somente na suposta aceitação há de inesgotável revolta, o que há de crispado no movimento sagrado que não se humilha compassivo, não se humilha ao rés do chão, não engole com a boca aberta, como pardais a implorarem na sua feiura ocre um tantinho de alimento vivo, o pó da autocomiseração, revolvendo, no subatômico de nossos princípios de vida-em-luta, nossa genética maculada por uma violência inexpugnável, uma rebeldia que nos fervia num mostrar de presas acesas, no punho abobadado ao redor da sua arquitetura de ódio fumegante, com sobrancelhas num formato de cálice, de Santo Graal sedento pelo bordô de um dia espalhado em vingança, o entardecer do juízo, a crise que fenderia a terra vomitando seus mortos empalhados como manequins na nudez a dançar nas vitrines, autômatos de ofício a balançar em suas roldanas de ferro numa ebulição contida desde dentro, no afundar de uma intimidade da qual fomos negadas de não poder senão nos partilharmos em nós mesmas, dividirmos esse quase-espaço, esse entre-ainda, como gêmeas siamesas com não menos que 23 anos de diferença, coladas uma nas costas do destino da outra. Por isso nossos arcanjos carregavam, no acotoado neon de suas distintas escápulas, dialéticas espadas de negativa imensidão parcial que, ali, no fim para o fim, no esgotar indissociável do que se arrasta para o centro impiedoso de um fim que não se desiste de finar, na intimidade dos joelhos não afeitos ao ato insalubre de prostrar, eles fariam minar, desde os campos, jorrar, no topo dos edifícios selvagens, nas ruas em frenesi de pneus a derreter, esse sangue passageiro de turista natimorto sob asfalto, colhendo, vingativo, tremores de profanação que abalariam os sustentáculos da burocrática amargura comunitária, fazendo subir, feito tão densas nuvens de incenso e mirra, uma boa nova jamais surgida: eis as órfãs benzidas de exílios.


Texto por Caio Russo.

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