dois reis magos

Atualizado: 2 de mar.


Colagem por Fabiana Gibim

A pobreza impedia minha mãe de se dar ao luxo da descrença, éramos duas e não nos contentávamos, não cabíamos no bondoso esquadro de deixadas pelo pai que a comunidade buscava nos colocar nas arestas de coitadas; nossa fé exalava certa aparição fenomênica do que somente na suposta aceitação há de inesgotável revolta, o que há de crispado no movimento sagrado que não se humilha compassivo, não se humilha ao rés do chão, não engole com a boca aberta, como pardais a implorarem na sua feiura ocre um tantinho de alimento vivo, o pó da autocomiseração, revolvendo, no subatômico de nossos princípios de vida-em-luta, nossa genética maculada por uma violência inexpugnável, uma rebeldia que nos fervia num mostrar de presas acesas, no punho abobadado ao redor da sua arquitetura de ódio fumegante, com sobrancelhas num format