enigmas


 

Henri Michaux com suas pinturas, 1973. Fotografia de Gisèle Freund

 



A Fresta é uma coluna — uma colinade periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.


 

Henri Michaux (1899-1984) é daqueles que procuraram atravessar as fronteiras do real e transformar as manifestações do visível no mundo. Embora para satisfação de muitos tementes críticos, “professores” e historiadores da arte de plantão Michaux jamais tenha participado ativamente das reuniões em grupo e, além disso, como muito outros belgas, desde os anos 1920 tenha polemizado com o movimento surrealista, discutindo algumas de suas proposições fundamentais, seus gestos estabelecem vasos comunicantes com o fazeres e saberes surrealistas. Estes são suficientes para compor um riquíssimo sistema circulatório de discordâncias e concordâncias, contribuindo significativamente para o avanço em espiral ascendente do pensamento, como aqueles mesmos historiadores e críticos parecem, via de regra e pela via das mais positivistas réguas, ignorar


Abrindo passagem ao mesmo sopro tanto em sua obra pictórica quanto escrita, Michaux cria com profundidade, ampliando o reino do possível para além do que é e está, e violentando os clichês em todas as direções com a suavidade de seus gestos de pluma.


“Enigma”, texto inédito em português que traduzimos especialmente para est’A Fresta, foi publicado pela primeira vez em Quem fui (Gallimard, 1927) e abre o volume de suas “páginas escolhidas” L’Espace du dedans (O espaço interior; Gallimard, 1966). O texto é bastante representativo tanto da infamiliaridade quanto do cansaço existencial que marcam a obra de Michaux, que dizia ter nascido cansado. O que não o impede de, também em Quem fui, escrever:


Eu era uma fala que tentava avançar na velocidade das ideias.

Os camaradas das ideias assistiam.

Sequer um quis enfrentar-me na menor disputa, e eram bem umas seiscentas mil que me olhavam rindo.


Lembramos que, apesar de seu peso e atualidade — ambas expressas nestes “Enigmas” —, pouquíssimas traduções da obra de Henri Michaux circulam em português. De modo que cabe lembrar a recomendação de André Pieyre de Mandiargues: “Com reconhecimento e respeito, mesmo se compreendemos somente uma parte de seu ensinamento, inclinemo-nos diante de seu criador. Demos-lhe graças”.

 

Enigmas

Para Jules Supervielle[1]


Aqueles lá sabiam bem o que era esperar. Conheci um, e outros o conheceram também, que esperava. Tinha se enfiado num buraco e esperava.

Se você estivesse buscando um buraco com alguma finalidade, acredite em mim, era melhor ir procurar em outro lugar, ou sentar-se ao seu lado, fumando os longos cachimbos da paciência.

Pois dali ele não se mexia um milímetro.

Atiravam-lhe pedras e ele as comia.

Parecia espantado, depois as comia. Ficava assim acordado ou dormindo, por mais tempo que a vida de um preconceito, que um cedro, mais que os salmos entoados pelos cedros derrubados; esperava assim, encolhendo cada vez mais até ser mais que um dedo do seu próprio pé.


*

Com miolo de pão eu modelava um bichinho, uma espécie de camundongo. Mal tinha terminado a terceira pata, eis que ele sai correndo… Fugiu aproveitando as trevas da noite.

[1] Jules Supervielle (1884-1960) foi um poeta franco-uruguaio, indicado três vezes ao prêmio Nobel. Tradução por Natan Schäfer.

 

Agora a Rádio aurora também pode ser ouvida no youtube (além das plataformas de áudio tradicionais). Neste episódio apresentamos um trecho da fala de nosso primeiro Encontro sobinfluencia que aconteceu no dia 10 de Fevereiro com nossa editora Fabiana Gibim. A aula abordou brevemente o pensamento surrealista em sua potência revolucionária através do debate acerca de alguns aspectos fundamentais que o compõem: a collage, como “expressão plástica de uma imagem poética” (LIMA, 2016) alocada entre uma proposta de revolucionamento político da imagem e da sociedade e as posições fecundamente criadoras de ação e sonho; leituras sobre conceitos revolucionários no seio do pensamento surrealista tais quais o Romantismo como Visão de Mundo e o Materialismo Antropológico, suas filosofias de revolta à guisa da crítica da Modernidade. Neste trechinho que selecionamos, Fabiana fala sobre a imagem e a collage, a relação de afeto entre suas bordas, o espaço insondável do entre e o olhar oracular sobre a mais-realidade. Falamos também sobre a imagem e sua ebulição anti-progresso, pairando perene nas insinuações do desejo.


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