o espetáculo: a ideologia materializada, de douglas rodrigues barros


Guy Debord & Asger Jorn, "Mémoires" (1959)



Mais de cinquenta anos depois do lançamento de “A sociedade do espetáculo”, a atualidade da obra parece ter se desdobrado com a sofisticação dos meios de fornecimento da imagem. Selfies, storys, números de seguidores e likes nos tornam escravos do ego. Somos governados pela imagem e pela nossa própria representação nas redes sociais. Pacificados por nossos próprios perfis e avatares.


Há formas de desestruturar o espetáculo ou o próprio espetáculo tornou-se o real?


Em “Guy Debord: antimanual de leitura”, Douglas Rodrigues Barros apresenta como, para o militante francês, o espetáculo tornou-se a própria forma e meio adequado de manutenção da ordem.


Leia na sequência um trecho da obra, "O espetáculo: a ideologia materializada". --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- A ideologia é um fator real que exerce uma ação real deformante, se traduz na base de um pensamento organizado por uma sociedade de classes que excede sua finalidade e se autonomiza, dando a impressão de ser algo da natureza das coisas. A materialização da ideologia ocorre pelo êxito da produção econômica autonomizada. Por isso, no espetáculo o que há é uma realidade social recortada de acordo com seu modelo de valorização. Ela, a ideologia sob forma do espetáculo, passa então a ser legitimada pela abstração universal e sua ilusão concernente. Quando se efetiva todo o caminho de tornar o real capturado por um corte de sentido impresso pelo aparelho reprodutor de mercadorias, segundo o modelo da ação social subsumido à forma da mercadoria, assistimos então ao triunfo do espetáculo. O espetáculo torna-se ideologia materializada e, sendo assim, para Debord, a história das ideologias chegou ao fim.


A ideologia, como uma visão totalitária, foi realizada pelo espetáculo, que imobiliza o tempo e interrompe a história. Só a dissolução prática dessa sociedade pode desbloquear o acesso à vida histórica e fazer desaparecer a ideologia. O espetáculo é a vida do que está morto, esse amontoado de imagens amorfas e anódinas que serve para barrar qualquer possibilidade de devir. É a separação realizada materialmente e mantida como forma de supressão de qualquer subjetividade concreta atuante. “O que a ideologia já era, a sociedade tornou-se”: não há encontros e possibilidade de reconhecimento; em seu lugar, só uma falsa consciência imposta pelo espetáculo. Doravante essa consciência se comprime nos acessos aos objetos de consumo materiais e culturais, torna-se uma consciência espectadora cujo horizonte está comprimido pelas telas em que a ação se dá pela imagem; e só conhece ficção. “O espetáculo em toda extensão é sua imagem no espelho. Aqui se encena a falsa saída de um autismo generalizado” (S. E, § 218, p. 140).


Agora nada há senão imagens que recompõem os desejos e mantêm o indivíduo passivo na fluidez de seu império. O espetáculo, desse modo, apaga os limites do eu e do mundo, pelo esmagamento do eu mediante a multiplicidade de imagens reais que lhe dão a falsidade da experiência. É uma despossessão fundamental ligada à própria subjetividade respondida pela imitação infantil condicionada pelo império das imagens.


No entanto, o espetáculo jamais deixa de produzir um excesso, um negativo, uma parte não visibilizada: o proletariado. É nele sobretudo que Debord aposta!




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