esse é o preço

Atualizado: 16 de jul. de 2021


Jean-Claude Silbermann, Autorretrato, 1958


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

Num dos seus últimos textos sobre artes plásticas, André Breton (1896 - 1966) apresenta uma exposição de Jean-Claude Silbermann, então um jovem integrante do grupo surrealista de Paris. Silbermann viria a destacar-se com suas “placas dissimuladas” (“enseignes sournoises”), pinturas de grande formato realizadas sobre superfícies de madeira recortada, as quais permitem o acontecimento de figuras do imaginário sem um fundo definido em tinta; e que, como podemos elaborar a partir da denominação cunhada por seu próprio autor, são uma espécie de sinalização de trânsito “oblíqua e dissimulada”.

Neste texto — cuja tradução até onde temos notícia é inédita em língua portuguesa —, além de revelar seu interesse pela “juventude” em movimento e pela importância da extração/expressão surrealista aos olhos do público, Breton atualiza o valor de face da trinca fundamental do movimento surrealista: poesia, amor e liberdade. Esse é o preço André Breton

No ponto em que estamos, o poeta ou artista só poderia qualificar-se e pretender a um reconhecimento durável, na medida em que tenha se levantado contra as formas específicas que atualmente revestem a alienação, no sentido não-clínico do termo.

Da filosofia “das luzes” há que se reter — ter por certo — que tudo impede a inferir um desígnio a partir das aspirações do homem, seja este desígnio inteligente ou moral, e da natureza do qual um princípio de ordem qualquer poderia decorrer. Nenhuma especulação lícita permite concluir que haja necessidade de um Deus, ainda que ele tenha sido subtraído às imagens insanas e despóticas impostas pelas religiões estabelecidas. Contudo, mesmo que a aberração suprema do antropomorfismo, que atribui a si o nome de “Deus”, fosse o termo-entrave do processo analógico, no homem esse processo não deixaria de responder a uma exigência orgânica que demanda não ser mantido sob suspeita nem refreado mas, pelo contrário, estimulado, de modo a escapar — também mediante os recursos da dialética hegeliana — de seu congelamento numa entidade desastrosa. Esse é o preço da poesia.

Sob a soberana pressão das ideias de Freud, convém-se cada vez mais que a sexualidade dirige o mundo. Donde parece resultar que todos os tabus e proibições devam ser precipitadamente revogados, os quais, diferindo de um tempo e lugar para outro, não pesam menos sobre os primitivos do que sobre nós. O eco das descobertas psicanalíticas foi tamanho que era inevitável que a mais total incompetência, ou seja indignidade, se apoderasse desse problema. Na noite quase sempre total do partido a ser tomado neste domínio, se dá um corre-corre geral em que cada qual quer comunicar suas sugestões em matéria de educação sexual, não menos derrisórias que perigosas. Não é por menos que, ao que parece, a juventude de um determinado país, mais liberado que qualquer outro em relação a isso, mostre-se também mais desamparada. A educação sexual sistemática só poderia ser válida na medida em que deixasse intactos os meios de “sublimação” e encontrasse um meio de superar a atração do “fruto proibido”. Só pode tratar-se de uma iniciação, com tudo o que esta palavra supõe de sagrado — externamente às religiões, é claro — e implicando o que a constituição ideal de cada par humano exige de busca. Esse é o preço do amor.

O surrealismo unificou de uma vez por todas a ambição de “transformar o mundo” e “mudar a vida”, fazendo de ambas um só imperativo indivisível. É exatamente nesta medida que ele não cessou de denunciar o escândalo que faz com que, em meio à grandeza do objetivo declarado, uma antinomia absoluta esteja durando mais de quarenta anos no leste europeu: a edificação do socialismo e a infâmia dos meios mobilizados para tal, desde as piores paródias de justiça e assassinato, até a mais selvagem violação do direito dos povos de disporem de si mesmos. As gritantes iniquidades da sociedade capitalista não poderiam desculpar estas outras, que desde seu início caucionam tais crimes, ou quem aí afundou suas mãos; e na mais recente atualidade, jamais nos indignaremos o suficiente ao ver um reputado “pensador” usando do trampolim que lhe é oferecido por uma distinção que ele declina como modo de saudar ambas [1]. Quando finalmente é publicado em tradução francesa Literatura e revolução, de Léon Trotsky, torna-se impossível fugir à sua tese fundamental, a saber, que a luta ideológica entre stalinismo e suas sequelas, de uma parte, e o antistalinismo revolucionário de outra, baseia-se numa oposição que diz respeito à concepção geral da “vida material e espiritual da humanidade”. Às avessas de todas as servidões exigidas pelo “engajamento”, essa mesma voz proclama que a arte deve ser livre. No instante em que o silêncio sobre as circunstâncias da evicção de Kruschev trai um embaraço sem precedentes, atingindo os sectários com seu mal-estar (amanhã será esclarecido que nesse instante se esteve perto da crise profunda do regime), é exigida a maior atenção, como também há que se manter a maior disponibilidade e abertura ao possível. Esse é o preço da liberdade.

É na encruzilhada destas três vias altamente arborizadas que se desvela para nós Jean-Claude Silbermann. Ele traz na testa a marca do “beijo da rainha” e é eletivamente a ele que Puck oferece toda a sua ajuda para enxarciar e alar os elementos do espetáculo interior, como bem sabe fazer espremendo e exprimindo o sumo de uma flor em nossa pálpebra. Graças a eles, bem à nossa volta, a noite de verão.


Tradução de Natan Schäfer

 

Nota do tradutor: [1]: Referência à recusa de Jean-Paul Sartre a receber o Prêmio Nobel, em 1964.


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