eu, nós, feridos

Atualizado: 10 de ago.


Mulher faz saudação [Woman gives salute], 1º de março de 1973; National Guardian Photographs; Tamiment Library/Robert F. Wagner Labor Archives, New York University.


 


 

A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.


 

Desde de sua aurora, enquanto movimento o surrealismo apresenta um caráter francamente internacionalista. Isso pode ser observado, por exemplo, na predileção pelo exótico, isto é, por aquilo que é de fora [1], verificado na obra de Robert Desnos [2]. Para além do que nos oferece a filologia clássica, poderíamos também inferir do “ex-ótico” aquilo que se encontra fora do campo de visão ordinário. Parece que é nesse sentido que anos mais tarde André Breton viria a declarar no Manifesto do surrealismo, parafraseando Arthur Rimbaud, que a existência está alhures, para depois afirmar, nos anos 1950, finalmente ter “deixado de desejar-se alhures” em meio à casas de “uma outra era” na medieval em Saint-Cirq Lapopie.

Tanto ao exotismo de Desnos quanto à busca pelo ouro do tempo de Breton, associa-se um mito muito caro aos surrealistas: A Idade do ouro, mito que dá título ao segundo filme de Salvador Dalí e Luís Buñuel e que está presente no volume Sobre a sobrevivência de certos mitos e alguns outros mitos em crescimento ou formação [De la Survivance de certains mythes et de quelques autres mythes en croissance ou en formation] (Le Terrain Vague, 1988), de André Breton. Embora uma análise detida desse mito extrapole o escopo desta apresentação, poderíamos dizer rapidamente que ele se refere a uma condição que em algum momento foi perdida. Esse parece ser inclusive um dos sentidos do “Retorno ao selvagem” proposto por Sergio Lima [3], o qual é importante sublinhar que definitivamente não se traduz em emulação ou imitação reducionista — ou mais exatamente algo que poderíamos denominar de “redução ao espetáculo” — de costumes isolados tomados como originários. De todo modo, para além de suas implicações enquanto mito, a ideia de uma Idade do ouro me parece passível de ser associada tanto à utopia salutar quanto à neurose nociva.


Para além da complexa relação com o ideal colocada pela discussão desse tema, observamos que ao longo de sua trajetória os surrealistas aprofundaram seu interesse pelo outro, buscando-o tanto no mergulho em seu entorno mais imediato e em si mesmos — estranhamento transmitido pela descoberta do inconsciente por Sigmund Freud e por Arthur Rimbaud com seu eu sou um outro —, quanto no deslocamento geográfico, expresso em diversas viagens de busca [4].


Para nos limitarmos a lista não exaustiva de viagens dos surrealistas, lembremos que foi no Arizona que André Breton conheceu os índios Hopi; que Péret foi ao Xingu; que Artaud esteve em meio aos Tarahumaras; que Michel Leiris partiu em busca dos fantasmas do Djibouti; que Ted Joans atravessou o Saara em Timbuktu lendo os Cantos de Maldoror; que um grupo de surrealistas foi à Cuba em 1967; que Sergio Lima foi à Índia nos anos 1980; que Alain Jouffroy viajou para a América Central, África e Ásia em busca de “interconexões”; etc [5].


O que uma lista como essa nos faz perceber é antes de mais nada um claro interesse da parte dos surrealistas por aquilo que não é ordinariamente ocidental e que fora denominado selvagem ou primitivo. Um empreendimento como esse poderia ser tachado de rousseauniano, isto é, de busca pelo bom selvagem para alcançar o bem universal. Contudo, embora movidos por desejos singulares e individuais, o fundo comum que parece levar os surrealistas à viagem é a mudança da vida, de modo a encontrar assim uma “prova real” daquilo que Bounoure e outros chamam de “civilização surrealista” [6] em povos e culturas outras não massacradas pelo monoteísmo e por valores contra os quais o movimento surrealista se opõe.


Portanto, nada mais coerente do que, dentre outras atitudes, a de apoiar esses povos naquilo que os constitui. Lembremos que quando Péret vai até os indígenas do Xingu, em momento algum deu sinal da menor pretensão em levar, mais ou menos violentamente, sua cultura nas mais variadas formas — livros, “formação”, etc. Sua atitude é muito mais a de um simpatizante que simplesmente não tem a necessidade de tornar o que vê um espetáculo a ser imitado, pois é capaz de encontrar em si as correspondências necessárias. Vai sem dizer que de 1950 para cá a situação das reservas indígenas no Brasil, assim como as abscissas e ordenadas do debate sobre a questão, alteraram-se consideravelmente, o que sem dúvida incorre numa alteração de abordagem.


Assim sendo, além de dar a ver e tratar as realizações dos povos originários e não-ocidentais com a profundidade que merecem — lembremos que Breton foi um dos pioneiros na apreciação apaixonada e rigorosa da arte dita primitiva —, os surrealistas prestaram amplo apoio às lutas indígenas, sobretudo com sua intensificação nos anos 1970, como por exemplo no caso da Ocupação Wounded Knee.


Wounded Knee é a localidade que dá nome ao violento massacre de indígenas norteamericanos ocorrido em 1890 na reserva de Pine Ridge, na Dakota do Sul, território então predominantemente ocupado pela etnia Sioux. Em 1973, após o insucesso do impeachment de Richard Wilson, presidente tribal acusado de corrupção e abuso de poder, e em protesto contra as condições da reserva e à violência policial sofrida pelos indígenas, integrantes do American Indian Movement ocuparam Wounded Knee por 71 dias. Palco de trocas de tiros e diversas formas de violência, o conflito terminou com dois indígenas mortos, um policial paraplégico e um ativista desaparecido.

Naquele ano Roger Renaud, que viria a ser tornar um grande savant em culturas dos povos originários, sobretudo dos Sioux da América do Norte, não hesitou em posicionar-se com o grupo surrealista de Paris, do qual fazia parte, em defesa da causa indígena. O texto a seguir foi publicado pela primeira vez na OOOO edição do no Boletim de ligação surrealista [Bulletin de liaison surréaliste], então seguido por uma série de endereços de associações, demonstrando uma evidente preocupação em contribuir a favor da causa indígena de maneira ágil e efetiva.


Membros do American Indian Movement e um Sioux Oglala fazendo frente a agentes do FBI, soldados da Guarda Nacional e policiais federais em Wounded Knee em março de 1973. Fotografia por Bettmann/Getty.

É importante sublinhar que quando Renaud publica este texto, a opinião pública ainda não havia sido devastada. Publicações como essa, ainda que ágeis, diferem fundamentalmente e em inúmeros aspectos de um “post” ou “compartilhamento” nas redes sociais. Mais do que um mero reconhecimento entre pares, o que Renaud promove é parte de uma atuação surrealista em busca da transformação do mundo e da mudança da vida.


Tenho ainda de dizer que ao ler esse texto, embora inflamado e portanto reluzente, alguns de seus pontos me pareceram francamente ingênuos e bastante discutíveis. Ao conversar com Renaud sobre isso, ele afirmou tratar-se de “um texto hoje um pouco distante de mim, não quanto ao movimento que o conduz (esse não mudou) mas quanto à paisagem que ele acredita reconhecer” e escreveu a cristalina retificação a seguir:


O texto que você está traduzindo diz respeito somente aos indígenas da América do Norte (Canadá, EUA e norte do México) e de modo algum aos que podem existir de maneira muito diversa mais ao sul. A