javali


Aloïs Zötl. Der babirussa. Sus Babyrussa / Im ostindischan archipellagus wird so gross wie das grösste [O babirussa. Sus Babyrussa / No arquipélago índico do leste torna-se tão grande quanto o maior]. Aquarela, 1857. Obs.: Até onde temos notícia, Zötl jamais esteve na Indonésia, habitat natural dos babirussas.

 


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.



 

Maurice Blanchard


Na vida existem encontros cujos olhos, sons e sabores ocultos abrem caminhos alegres, iluminados pela luz peregrina de uma fogueira sorridente ardendo no futuro do momento em que se acende. Crepita ali o riso uníssono a dois e os acontecimentos que se associam e se seguem aos surgidos no calor da hora — a proximidade dos corações no abraço — não seguem a ordem cronológica e, sim, um pulsar que lhes é próprio. Este pulsar chama-se amor.


Tanto o caminho quanto o amor convidam à busca e o seu conhecimento e vivência exige o confronto com a morte. Porém não aquela judaico-cristã, que aniquila o trajeto, tampouco qualquer outra metafísica que aguarda o retorno ou reserva um além, mas sim a morte imanente e rosada, que pontua a vida criando seu compasso e conferindo fôlego ao raiar de um sol novo, ainda que mesmo.


É assim que à noite escuto os harmônicos de Começar após a morte, título de uma coletânea póstuma de poemas de Maurice Blanchard (1890 - 1960), piloto sobrevivente da Primeira Guerra Mundial e poeta admirado por André Breton, Gaston Bachelard e outros. É nesta coletânea, e mais especificamente no livro O homem e seus espelhos, onde encontra-se este “Javali”, que traduzimos e apresentamos nest’A Fresta pela primeira vez em português. Aqui começar após a morte não se trata de um aceno à timidez neurótica que conduz ao espírito da escada[1] e ao destiempo que causam tanta angústia, mas sim de uma erupção após a interrupção e ruptura que abre o descontínuo. Afinal, o riso solto e gostoso é entrecortado — o grito é que é contínuo.


Quem não está disposto a morrer para permanecer vivo e assim vi(r)-ver o maravilhoso da beleza e sua eternidade, muito provavelmente já está morto, ainda que continue preenchendo documentos com cuidado e acompanhando sem paixão e amor a revoada de gaivotas no sorriso do vulcão de esmeralda.


*


Talvez vocês acreditem que a vida é sonho? Sim? Está mais para uma vassoura de cipó, um chifre de unicórnio, a mandrágora numa garrafa, todo tipo de coisa meio fabricada ou caída do céu numa noite de tempestade. Depois de tudo, usem como quiserem! Mas sobretudo, não ponham as mãos! Vocês passariam para o outro lado sem darem-se conta por si mesmos. Tudo isto a fim de delimitar nossos domínios e nossas relações.


Minhas crenças não são minhas crenças e muitos menos certezas: são cereais. Ora uma espécie, ora outra, e assim por diante. Semeio, cuido, mas não colho. Espero as grandes chuvas e então, quando tudo está bem apodrecido, esbaldo-me na lama bem quentinha aquecida por um destes sóis de outono que explodem.


Suas crenças são fonte de riquezas para vocês e para seus semelhantes. No mundo só vocês têm semelhantes e isso é muito grave! Só vocês têm figuras semelhantes às que Euclides traçava na areia: triângulos, quadrados, abóboras, batatas. E mais uma vez! nada além de figuras semelhantes no espaço.


E na ausência de suas figuras semelhantes, vocês adoravam olhar nos espelhos, geométricos quanto à superfície e rigidamente cadavéricos em sua profundidade. E vocês esculpem assim seu monumento funerário e detém o curso das coisas. Vocês parecem meio incomodados com o primeiro choque de seu olhar congelado, mas vocês assumem de imediato um ar estúpido que apazigua sua angústia. E de resto, só suas figuras são semelhantes! E isso é muito grave, mais uma vez!


Eu, quando vou beber no riacho, antes de mais nada escolho a margem exterior de uma curva bem sombreada, ali onde os aluviões teceram um tapete de sultão: a areia, a lama, as folhas mortas e os objetos de outro mundo. O ar que acompanha a torrente sinaliza a aproximação do inimigo de figura semelhante. Posso ver ao mesmo tempo o passado e o futuro, a água que vem e aquela que se vai. E salto no meu espelho. Ele quer fugir. Pego ele de jeito. Minhas quatro patas de demônio transfixam-no. E mergulho na eternidade minha goela fortificada, minha goela com ponta de antracita. Meus olhos cantam sobre as águas trêmulas, vejo minhas imagens homotéticas no tempo, bebo o tapete das ilusões, bebo.


Vocês passeiam pelo bosque e dizem: “Essa calma, esse frescor, esse silêncio! O que vamos jantar esta noite, querida?... Ai! como eu te amo! Agora que Paris, seus paralelepípedos e seus mármores estão bem distantes de meus olhos, agora que estou sob a abóbada das árvores, eu juro te amar para sempre!”. A orquestra das folhas e dos galhos entoa os Murmúrios da Floresta. O homem e a mulher entoam a Grande Ópera. Saio do mato como pelo buraquinho do ponto no teatro jorraria uma frase esquecida. Ah! é a fuga com belas pernas, é o dó sustenido, a mala afivelada, o indicador dos caminhos de ferro. A orquestra de folhas e de galhos entoa os Murmúrios da Floresta.


Acostumados aos vilarejos de covardias e de vil segurança é raro que as mãos do medo possam enfiar suas unhas no seu courato. Vocês ficam no interior das suas muralhas e de seus cachorros. Não é de se espantar que vocês tenham o ar de velhas rendas. Vocês pagam muito caro por isso e vocês são meio escravos, e digo isso sem ofender-lhes! Vocês pagam os impostos devidos e indevidos. Cospem na sua cara e vocês dizem: obrigado! E, no fim de tudo, você não têm certeza de que vão morrer em seu leito com o abajur de cabeceira e o botão elétrico ao alcance da mão. É horroroso!


Eu, eu sempre tenho medo. Ou melhor, eu sou o próprio medo e suas intermináveis substituições. Basta um poder hostil erguer-se, ainda que seja na mais extrema franja do meu domínio, saio em disparada para abatê-lo antes que ele tenha concluído seu bocejo. O medo deixa vocês gelados? O medo faz-me arder. Meus carbúnculos inflamam-se com o oxigênio da luta; no momento em que der a pancada, no supremo gozo do ódio, eles cuspirão seu incenso vermelho. E vocês precisarão de suas mãos de escravos para carregar a piedade aos montes em carrinhos de mão.


Javali caminhando, registrado por Émile Cartailhac e Henri Breuil a partir das paredes da caverna de Altamira e publicado em La Caverne d'Altamina (1906), onde este javali foi desenhado cerca de 14.000 anos antes das experiências de Eadweard Muybridge.
 

NOTA:

[1] Em francês, “l’esprit de l’escalier”, expressão utilizada para designar uma resposta ou ideia brilhantes que chega tarde demais, quando já não há mais contexto e situação conveniente à sua utilização.

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