keynes expulso pela porta, volta pela janela

Atualizado: 2 de mar.


Colagem por Alex Peguinelli


A crise pela qual o mundo passa, a despeito de sua natureza bacteriológica, desvela uma série de fenômenos relativos ao comportamento dos indivíduos que, entrelaçados, dão a real dimensão do problema: o comportamento humano em si.

Iniciando pela questão moral, manifestações sobre a pandemia do covid-19 coniventes com a concepção de organização econômica e social que tem se destacado na realidade atual, gerando mal-estar global, interpretam a crise como produto do movimento de integração entre as nações observado a partir da década de 20 do século passado e, portanto, identificam a raiz do problema na tentativa de se sobrepor a ordem coletiva, na formação do convívio em sociedade, à inclinação individualista dos homens.

Em outras palavras, do ponto de vista da ciência econômica, nascida da filosofia moral, isso implica dizer que o mercado, enquanto processo e meio de livre interação entre os homens, aí considerados agentes econômicos e, por conseguinte, orientados por uma racionalidade que se limita a esse campo da realidade, é suficiente para superar e resolver os problemas originados nas assimetrias entre as diferentes necessidades dos indivíduos.

Nessa versão radical do liberalismo, manifesta sob a denominação do neoliberalismo, a condição humana é por excelência marcada pelo egoísmo e, naturalmente, o Estado enquanto elemento, no mínimo, de mediação das relações desconformes entre os homens não tem e não deve ter qualquer papel.

Não por acaso, o pungente esforço desenvolvido pelos partidários dessa “seita” com o objetivo de derrubar a ordem estabelecida no pós-guerra, que engendrou os “anos dourados da economia mundial”, significa uma tentativa, do ponto de vista da teoria e da política econômica, a expulsão do pensamento keynesiano da organização das economias nacionais e das relações entre elas no sistema internacional.

Lembrando que aquele teórico da economia se debruçou sobre uma crise, ainda que de natureza diversa, de dimensão provavelmente tão ampla quanto a atual, Keynes não se eximiu de sua responsabilidade como economista ao ressaltar os aspectos morais como causa e consequência dos problemas humanitários resultantes da Grande Depressão. E, como resultado de seu pensamento, ficou destacada a importância do Estado para a superação, no mínimo, do sofrimento que assolava parte mais expressiva da sociedade humana.

Para tanto, destacou em sua teoria o papel do chamado Investimento Induzido, uma variável poucas vezes chamada pelo nome nas análises, inclusive keynesianas, da atualidade e do consumo no incremento da demanda agregada, ou do emprego.

Não é necessário dizer que a atual pandemia do coronavírus está a demandar a ação do Estado para mitigação da crise. Seja do ponto de vista humanitário, no desenvolvimento de estratégias sanitárias para contenção epidêmica. Seja do ponto de vista econômico, da manutenção da produção, suportando a condição de sobrevivência econômica dos seres humanos.

A ação coordenada e conjunta dos Estados nacionais, todos eles afetados pelo mesmo problema, é crucial. Assim, senão a teoria, a realidade dá razão a Keynes contra o neoliberalismo.

Expulso pela porta, volta pela janela. Trump que o diga.

Texto por Dr. Joaquim C. Racy, economista e cientista social, professor dos Programas de Mestrado em Economia da PUC-SP e da Universidade Mackenzie.

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