mágico breton

A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

Giorgio De Chirico (1888-1978). “Le Revenant (Le Cerveau de l’Enfant)”. Óleo sobre tela, 80cm x 65cm. Moderna Museet, Estocolmo.
 


A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores, de curadoria de Natan Schäfer.

 

Philippe Sollers (1936) é há mais de meio século um dos maiores escritores franceses da atualidade [1]. Apadrinhado de um lado pelo católico François Mauriac, de outro pelo comunista Louis Aragon, Sollers estreia com o romance Une curieuse solitude (Éditions du Seuil, 1959), no qual já aparecem vários dos temas que serão retomados em suas extensa obra posterior, como por exemplo em Le Parc (Éditions du Seuil, 1961), Femmes (Gallimard, 1983) e Désir (Gallimard, 2020).

Além de escritor profícuo, Sollers foi um dos fundadores da lendária revista Tel Quel (Éditions du Seuil), uma das principais plataformas daquilo que viria a tornar-se conhecido sob o nome de “pós-estruturalismo”. Atualmente Sollers edita a revista L’Infini (Gallimard) e segue na ativa abrindo caminhos para a retomada do movimento neste século XXI marcado, segundo ele, pela inação, escassez de tempo e miserabilismo — inclusive sexual.

Em Mágico Breton [2], texto que traduzimos e publicamos pela primeira vez em português, Sollers abre uma memória para reafirmar a importância de — e do encontro com — André Breton, grande magnetizador do movimento surrealista.


Notas:

[1] Nascido Philippe Joyaux (sendo “joyaux” um significante que remete tanto à joia quanto à alegria), segundo o próprio Philippe, Sollers se trata de um epíteto latino usado para definir Ulisses, o qual significa algo como “mil-ardis”, “esperto”, “ladino”, “astuto”. [2] Publicado pela primeira vez no Nouvel Observateur de 5 de junho de 2008.

 

Eu me revejo, muito jovem, pela manhã na casa de André Breton, no 42 rue Fontaine, em Paris. Eu lhe escrevera, ele respondeu-me e, conseguindo passar por sua filtragem telefônica, marquei um encontro com ele ao qual chego uma hora adiantado, dando voltas pelo bairro antes de tocar à sua campainha. O interior do apartamento, hoje disperso, foi fotografado e encontra-se neste belo álbum da Pléiade que acaba de ser publicado. Era, portanto, ali, naquela gruta ou cabine de cosmonauta, que respirava este homem extraordinário, cercado por esculturas, máscaras, bonecas, quadros; este cidadão do mundo novo, de quem eu lia com paixão cada linha. O efeito de presença imantada de Breton era colossal. Entretanto, era cortês, afável, atencioso, generoso, maravilhosamente disponível. Eu ainda sinto, às cegas, a carga do “Cerveau de l’enfant” [1] de De Chirico pendurado na parede. Puxa, que acúmulo de viagens, combates, achados, encantos; e que navegação de fraseados e espirituosidades. Sobre o que ele falou neste dia, com sua impecável distinção? Para minha grande surpresa, unicamente de alquimia.

Mas que emoção de, um pouco depois disso, receber a reedição dos “Manifestos do surrealismo” com esta dedicatória em sua fina escrita azul “a Philippe Sollers, amado pelas fadas”. Segui meu caminho, sinuoso, meio e acidentado, mas a escrita azul ficou no meu coração. Ele havia dito a seguintes palavras fustigantes sobre um título de Paulhan: “Braque, o patrão doidinho” [2]. “Você é capaz de se dar conta de como essas pessoas falam? O patrão! Patrão!”. Ainda mais tarde, houve este encontro inopinado (e para mim sobrecarregado de significados) num café, perto da revista Tel quel, onde estávamos com Georges Bataille, que às vezes passava para ver-nos depois do almoço. Breton entra, vinha seguindo uma mulher. Senta-se sozinho, vou até ele para cumprimentá-lo, ele reclama suavemente de não poder escrever, estando “enfeitiçado”, depois me pergunta se quem está ali não é Georges Bataille. Pois sim, exatamente. Breton então levanta-se e vai cumprimentar Bataille, eles decidem encontrar-se em breve, mas isso é pouco provável, pois Bataille só tinha mais uns poucos dias de vida. Reescuto a seguinte frase de Breton: “Quem vai poder falar à juventude?”. A juventude, eu, não estava nem aí. Mas, dois anos depois da morte de Breton, ela se insurgia em Paris, fazendo de Maio de 1968 uma demonstração explosiva de surrealismo. Podemos compreender que o mais recente presidente da República, muito inquieto, tenha decidido quarenta anos depois, “liquidar” este espectro [3].

Ontem mesmo vi na Sothebys o manuscrito do primeiro manifesto (1924) [4], colocado na vitrine e à venda, assim como diversas outras coisas. Não decifro o texto, escuto-o: “Liberdade é a única palavra que ainda me exalta. Acredito ser adequado conservar, indefinidamente, o velho fanatismo humano”. Ritmo e intensidade intactos. Em 1955, em “Sobre o surrealismo em suas obras vivas”, Breton definia seu movimento como “uma operação de grande envergadura que diz respeito à linguagem”. Este ponto é decisivo, sejam quais forem as controvérsias secundárias às quais ele deu lugar. Breton, neste caos devastador de hoje? Mas claro, e mais do que nunca. Será que ele está verdadeiramente morto há quarenta e dois anos, ou é mesmo preciso considerar com mais seriedade estas letras de luz inscritas em sua tumba: “Eu busco o ouro do tempo”? Este ouro não tem idade e nenhuma movimentação financeira pode utilizá-lo nem consumi-lo. É uma estrela de insurreição permanente. À exceção dos grandes aventureiros que, como ele, viraram de ponta-cabeça o nervo íntimo do século XX (Duchamp, Picasso, Artaud, Bataille), nada, ou muito pouco, para em pé diante da lucidez lírica de Breton. Sartre não entende nada de Baudelaire? Breton sanciona. Publicam um falso Rimbaud? [5] Breton demonstra a vigarice intelectual e a surdez flagrante. O fascismo? Dá vontade de vomitar. O stalinismo? “Um éden de lacaios e trabalhadores forçados”.

Ininterruptamente o autor da Arte mágica (“O amor é o princípio que torna a magia possível. O amor age magicamente”) [6] lembra uma linha de relâmpagos, cujos nomes são Sade, Hugo, Nerval, Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, Jarry, Apollinaire, isto é, não obras para professores, mas a irradiação, às vezes contraditória, de uma mesma experiência. De fato, seria mais confortável “liquidar” esta experiência e é, aliás, o que está acontecendo. Lévi-Strauss é celebrado como o “pensador do século XX”, mas querem esquecer que ele deve muito a Breton, que continua escandalosamente ignorado. Por certo Breton tem seus devotos, cada vez menos numerosos e sonâmbulos. Mas de hoje em diante, o primeiro ignorante recém-chegado dá-se o direito de criticar automaticamente este ou aquele aspecto de sua ação. A palavra “Gnose”, sobre a qual Breton claramente insiste no fim de sua vida, lhes faz dar risada. São estes mesmos que, imersos e decompostos no espetáculo, até mesmo dariam de ombros diante da seguinte proposição essencial de Novalis: “Nós estamos em relação com todas as partes do universo, assim como com o futuro e o passado. Depende da direção e da duração de nossa atenção estabelecermos a relação predominante que nos parece particularmente determinante e eficaz”.

O pseudo-realismo retorna constantemente como quem volta para casa, o romance familiar jamais portou-se tão bem (apesar de Freud, que Breton saúda diversas vezes) e o assujeitamento das consciências talvez jamais tenha sido tão forte, apesar das nossas pretensões. Sonhamos, lendo o que Breton escreve sobre Picasso em 1933: “Um espírito tão constante e exclusivamente inspirado, é capaz de poetizar tudo, de enobrecer tudo”. Através de todos os combates históricos, nada é mais político que atacar sem trégua a “tirania de uma linguagem aviltada”. Escute-a: essa linguagem escorre por todo lado, organiza a resignação, a mediocridade literária, a mercantilização geral, o esquecimento. Breton empenhou-se intensamente nos discursos em defesa da liberdade. Não é inútil lembrar que em dezembro de 1940, antes de poder dirigir-se a Nova Iorque, ele foi interpelado em Marselha como um “anarquista perigoso há muito tempo procurado”, para que desse lugar à visita de Pétain nesta cidade então coberta de cartazes, dos quais certos slogans tinham sido concebidos por Emmanuel Berl: “Odeio as mentiras que tanto mal fizeram-nos”; “A terra não mente”. Poderíamos ainda adicionar aí a nata da lobotomia: “Trabalhar mais para ganhar mais”. Não, nós não “trabalhamos”, nós amamos, jogamos, descobrimos. Em 1934 o sinistro stalinista Ehrenbourg denuncia violentamente os surrealistas que, segundo ele, recusam-se a trabalhar, “estudam pederastia e sonhos” e têm como programa: “Aqui nós bebemos, cantamos e beijamos moças”. Isso lhe valeu um retumbante tapa na cara dado libertário Breton, o qual, com uma modesta altivez, assim definiu seu percurso: “Se a vida, como a qualquer outro, infligiu-me alguns dissabores, para mim o essencial é que não transigi com as três causas que abraçara no início e que são a poesia, o amor e a liberdade. Isso supunha a manutenção de um certo estado de graça. Estas três causas não me trouxeram nenhum infortúnio. Meu orgulho seria não ter desmerecido isso”.

Com relação a esta magnífica declaração, que a nossa miserável época de cinema publicitário enfim olhe para si tal como ela é.

 

Notas:

[1] “Cérebro da criança”, famosa tela de Giorgio de Chirico. [2] N. do t.: Braque le patron, sendo que o termo “Braque”, sobrenome do pintor cubista Georges Braque, pode ser usado como gíria para doidinho; “Paulhan” refere-se a Jean Paulhan, grande escritor e crítico francês. [3] N. do t.: em 2008, data de publicação do texto, a França era governada por Nicolas Sarkozy, que durante às eleições de 2007 dissera “Nesta eleição, trata-se de saber se a herança de maio de 1968 deve ser perpetuada ou se ela deve ser liquidada de uma vez por todas” (“Dans cette élection, il s'agit de savoir si l'héritage de mai 68 doit être perpétué ou s'il doit être liquidé une bonne fois pour toutes”). [4] N. do t.: primeiro manifesto do surrealismo. [5] Denuncia e análise realizada por Breton no texto Flagrant délit, publicado em La clé des champs (Édition du Sagittaire, 1953). [6] Volume escrito em parceria com Gérard Legrand, publicado em 1957 pelo Club français du Livre.

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