manifesto sobinfluencia

Atualizado: 27 de jan.


Colagem de Alex Peguinelli



Não há de existir arte conciliadora. A arte é, insurrecionalmente, um ato de protesto contra o real. No terror dos tempos em que vivemos, não há nada menos do que esperar além de uma bala na nuca. “Mehr Licht” - Mais Luz - o último suplício de Goethe é nosso clamor perante o enredo bizarro: dissecados no incêndio criminoso que é a alegação nazista de nosso futuro, trememos de medo numa manhã de sexta feira de Janeiro¹ que irrompa em nossas cabeças a invasão do que nos é prometido por faces cheias de sorrisos que se estendem na televisão e gravam em palcos sacros com cheiro de apocalipse. Usemos nossos cérebros antes que sejam criminosamente explodidos ou até que o sejam. Sobinfluencia é uma declaração pela paz e pelo pão e, principalmente, uma mira certeira. A ameaça se presentifica - o fascismo hitlerista deglutiu o nosso tempo e estamos oficialmente denominando as coisas por seus termos. O fascismo brasileiro garante a higiene pessoal de todo bom cidadão: promete que será com a argamassa da arte livre, triturada e misturada com as ossadas da classe proletária que se erguerá, gloriosamente, a arte “heróica" e “imperativa”. Aqui o fascismo urge em êxtase e custa R$20 milhões sua propaganda², fazemos aqui, sendo assim, a propaganda à contrapelo, incandescente e fecunda como uma bomba.

Encarna-se em nosso sentimento de revolta a radical dimensão do inimigo, este já muito além de declarado, está coroado com o movimento sísmico vivo e explosivo de nossos povos. Os esforços hostis da política burguesa cobrem essa terra como uma besta sacristã - dos rios misturados em sangue, agrotóxico e cinzas anciãs de floresta a desabrigados em massa pisoteados pela colérica Guarda Montada na praça da República corre um coro insano, uma proposta de um fim que deteriora. O Brasil é uma terra macia e úmida, pisa-se no solo gordo deste país os corpos-rastros de todas as vítimas que a política assassina reivindicou, é de adubo Guarani que o latifúndio se estende até perder-se aos olhos, é com carne Terena que o “bom cidadão” engorda cada arroba do seu gado de abate e é exatamente sob essa terra danada pelo bom cidadão higiênico que prometemos nosso fulgor. Enquanto todo pensamento livre e independente é esquartejado como um corpo no porão, o artista que não se abasta e engorda a pátria maníaca do brasil com sua própria mão é marginalizado e condenado ao silêncio, obrigado a viver à sombra de um medo incisivo. Compreendemos sob nossas influencias e das experiências revolucionárias que irrompem na América Latina que a arte precisa seguir sempre impiedosamente ameaçadora contra todas as jaulas que a impedem de agir como modificadora potente da base material da sociedade. A arte, assim, orquestra a rebelião do presente, ela não salva a ninguém do ceifar decadente do capitalismo neste território aburguesado, ela deve operar as potencialidades criadoras de uma revolta insone, a arte e a revolução não são cumes para tempos que virão, são metralhadas do agora, são obreiros furiosos e levantes de chamas, declara-se assim a arte como a colisão desenfreada, “toda licença em arte, exceto contra a revolução proletária” (TROTSKI, 1968). A arte deve jamais se alojar no fundo de uma garganta calada, ela deve triturar, bruta e compenetrada, cada uma das forças anti-proletárias - ao coloca-se o ouvido no chão, é a revolução que lateja em seus subterrâneos, ela corre danada. É por todas as vezes que julgada inadequada ao que entendem eles como pátria amada brasil que declara-se, de novo e de novo, que “todas as pátrias são uma mesma desonra” (NAVILLE, 1925). É com o barro dessa história de fúria que propomos o desemburguesamento total da arte e sua impiedosa e inalienável potência revolucionária, distante de todo aparato burocrático de boicote da arte livre e inflamada no compromisso rígido e disciplinado de irromper no novo mundo com o nocaute da democracia burguesa e posicionamento combativo pela literatura de fundamento formador para a luta, organização, construção e reflexão.


¹ Foi em 16 de Janeiro de 2020, datando mais de um ano da presidência do fascista Jair Bolsonaro no Brasil, que o Secretário nacional da Cultura publica discurso que estética e ideologicamente compõe a propagada Nazista. Faz citação que se assemelha inteiramente ao do ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels. Além de gravar o vídeo com a ópera que “mudou a vida” de Hitler, composta e executada por Richard Wagner ao fundo e elementos como a Cruz de Lorena. ² Alusão ao Prêmio Nacional das Artes, que segundo Alvim, deve ser conservadora e nacionalista ou “não será”. Texto por Fabiana Vieira Gibim.

 

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