máquina de guerra - deleuze e guattari

Atualizado: 5 de ago.


Collage "Espelho" de Fabiana Gibim

 



 

O texto que apresentamos hoje, "Máquina de Guerra - Deleuze e Guattari", foi escrito por Rafael Lauro e Rafael Trindade, nossos queridos companheiros do Razão Inadequada. O texto foi escolhido por apresentar este importantíssimo conceito da elaboração crítica de Guattari e Deleuze ao longo do trabalho presente em Mil Platôs. O Razão Inadequada tem, inclusive, uma série de textos com relação ao Mil Platôs, multiplicidade e estratificação, você pode ler todos os textos clicando aqui.


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A máquina de Guerra é um dos conceitos mais importantes criados por Deleuze e Guattari, e está desenvolvido no 12º platô “Tratado de Nomadologia”.

Antes de mais nada, podemos dizer: Máquina de Guerra se aproxima da ideia de Máquinas Desejantes, ou talvez, pura e simplesmente, afirmação de multiplicidades. A Máquina de Guerra é uma produção contínua de afirmações e intensidades.

Como este conceito é um dos últimos a ser tratado no livro, ficam subentendidos muitos entrelaçamentos aqui: o nômade, sua exterioridade como máquina de Guerra, e o aparelho de Captura do Estado que procura dominá-lo.

O Platô se faz através de proposições e axiomas (a la Espinosa?) e vamos expor alguns deles:

Axioma I: “A máquina de Guerra é exterior ao Aparelho de Estado”

Se o estado possui um Rei-Déspota, isso significa que ele age agarrando as multiplicidades e distribuindo-as segundo o seu próprio fundamento (o estado rostifica). Ou seja, há multiplicidades capturadas e multiplicidades soltas.

A máquina de guerra são as multiplicidades em estado de livre associação, livre afirmação, é o Esquizo do Anti-Édipo. Isso é demonstrado pelo etnólogo Pierre Clastres: as sociedades ameríndias trabalha(va)m ativamente, através de múltiplos dispositivos, para não instituírem um centro organizador.

Ou seja, a multiplicidade é anterior ao fundamento e as Sociedades são anteriores ao Estado. Uma sociedade pode se organizar sem precisar de um arquiteto. Isso significa que o dentro (capturado) e o fora (nômade) estão em constante convivência, numa luta tensa e contínua.

Não é em termos de independências, mas de coexistências e de concorrência, num campo perpétuo de interação, que é preciso pensar a exterioridade e a interioridade, as máquinas de guerra de metamorfose e os aparelhos identitários de Estado, os bandos e os reinos, as megamáquinas e os impérios. Um mesmo campo circunscreve sua interioridade em Estados, mas descreve sua exterioridade naquilo que escapa aos Estados ou se ergue contra os estados” – Deleuze e Guattari, Mil Platôs Vol. 5, p. 25

O estado paranoico funciona através das concepções de estabilidade, eternidade, constância e identidade. Já a máquina de guerra esquizo se manifesta através de fluxos, desvios, transformações e metamorfoses. Se o estado age através de uma força centrípeta, tragando tudo, o nômade pensa através de uma força centrífuga, se dispersando e se desviando como o clinâmen epicurista.

Já sabemos bem, um é o pensamento comportado, que faz uso do bom senso e da identidade, o outro é o pensamento da diferença. Um é o pensador do fundamento, o outro é o pensador do afundamento. Um é o professor universitário (Platão, Kant, Hegel), o outro é o pensador intempestivo (Espinosa, Nietzsche).