maria

Atualizado: 29 de jun. de 2021


Maria em um ateliê em Nova Iorque, na Madison Avenue

A Fresta é uma coluna — uma colina — de periodicidade semanal dedicada a publicação de textos realizados no seio do movimento surrealista e arredores. Por Natan Schäfer


Em 1947 André Breton escreve MARIA, apresentação para o catálogo da exposição da artista brasileira (1894 - 1973) Maria Martins na Julien Levy Gallery, em Nova Iorque, texto que virá a fazer parte do livro Le surréalisme et la peinture. O texto parte do maravilhamento de Breton diante da obra de Maria, maravilhamento que foi o início de um forte e intenso vínculo entre ele e a artista. Uma tradução desta apresentação, a qual publicamos abaixo, foi publicada em maio de 1956 pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro num catálogo dedicado à artista e posteriormente em 1967 na revista A Phala nº1.

 

MARIA O espírito, durante esses últimos anos, não parou de soprar das terras quentes. Um outro vento, cada vez mais gelado, tenta em vão sondar, raivoso, o fundo das lareiras da Europa, à procura de alguma brasa que lhe devolva no inverno sua cabeleira ardente, e não descobre nada a não ser grades de ferro fundido nuas ou sobre as quais se consomem sem calor magras cepas desesperadamente atadas. São os sistemas humanos ainda em uso, chegados — incluídos aqueles que têm mais adeptos — a um total endurecimento. É humano que a maior parte daqueles que, em outros dias, acreditaram poder ligar a vida ao destino de um desses sistemas, de uma vez escolhido como regra do seu comportamento, oponham a maior resistência a se desligar, renovando o ato deplorável que consiste em jogar sobre o corpo para não querer mais deixá-lo, Enquanto o Coração Não Bate Mais. Com isto não estou pensando só em sistemas políticos — diversos — que desde já têm feito suas provas negativas, mas também em sistemas que regem há séculos o psíquico, tomando por pontos de apoio a “razão” (a cada instante ameaçada) e o “senso moral” (sobre seu aspecto proteiforme e facilmente contraditório cada vez menos definido). Durante esta crise que atinge os conceitos fundamentais da civilização de de hoje, é flagrante e altamente significativo que o espírito sopra das terras quentes. Em Paris, onde escreve e onde os rigores dos tempos, que têm abafado muitas outras coisas, não tiraram, no plano artístico, o apetite de descobrir, pude observar que um frêmito excepcional acolhia há pouco tempo a mensagem de poetas e artistas que estão ligados como por algum fio, de perto ou de longe, ao cinto equatorial do globo[1]. Uma tal mensagem, seu conteúdo mais específico, deve responder a uma necessidade imperiosa, embora mal conhecida. Não é difícil perceber o que a distingue de todas as outras, é o contato com a terra que ela restabelece totalmente para o homem (contato hoje perdido, ao menos para todas as grandes aglomerações humanas), é o perpétuo recurso às fontes vitais da natureza (do espírito assim como do corpo) que ela se imponha, é a sua constante preocupação de colocar o psicológico sobre o cosmológico, opondo-se à tendência contrária geralmente predominante que leva a humanidade a uma via de sofismas cada vez mais perigosa. O pensamento analógico, oficialmente abandonado desde o Renascimento, procura retomar seus direitos. É normal que o impulso nesse sentido lhe venha dos lugares onde a natureza está em plena exuberância. Neste astro que sobre, se inscreve entre todos o nome de Maria. Maria, e atrás dela — ou melhor, nela — o Brasil maravilhoso onde, sobre os mais vastos espaços, neste meio de um século XX ao mesmo tempo embevecido dos seus parcos conhecimentos e por eles sacudido de terror, plana ainda a asa do irrevelado. A porta imensa, apenas entreaberta sobre as regiões virgens onde as forças do futuro ainda intactas, todas novas, estão recolhidas. O Brasil que, nos olhos dourados e na visão própria de Maria, alcança o sonho de amanhã de todos seus enigmas, da folha sobre a qual ela coloca a noite da Vitória Régia ao fio das águas, passando pela Enguia Elétrica que, dizem, quando está com fome faz cair as nozes obrigando o coqueiro a reproduzir suas sacudidelas, até a insólita multiplicação desses gigantescos formigueiros, que simbolizam nossas indústrias, nos quais a serpente Anfisbena, mais bela que a lenda, faz de conta que está mordendo sua própria cabeça, para os quais anda depressa a passos contados um dos grandes quadrúpedes cuja interpretação hieroglífica permanece a mais difícil: o Grande Tamanduá. Assim, a escultura de Maria tem começado a carregar e seus ombros toda uma lenda e, desnudada como a própria água pelas lianas do seu país, não era nada menos que o Amazonas que cantava nas suas obras que tive a felicidade de tanto admirar, em Nova Iorque, em 1943. Cantava com todas suas vozes imemoriais a paixão do homem, do nascimento até a morte, tal como souberam condensá-la em símbolos mais envolventes que todos os outros as tribos indígenas que se sucederam ao longo dessas margens traiçoeiras. As angústias, as tentações, as febres, mas também o nascer do sol, as venturas, as puras delícias, eis o que nos seus bronzes laci, Boiuna, Iemanjá, Maria como ninguém soube captar na fonte primitiva, de onde ela emana, asas e flores, sem nada dever à escultura do passado ou do presente - demasiado segura do ritmo original que faz cada vez mais falta àquela escultura e pródiga do que lhe deu a Amazônia: o luxo imediato da vida. Esses mesmos dons deveriam, pouco depois, levá-la a se debruçar sobre tais reações da alma coletiva que, na vizinhança das florestas da América tropical, persistem, para se exprimir, em ativar os poderes propícios ao sacrifício e à dança. O mesmo ritmo, de fato - pude constatá-lo no Haiti - leva certas horas os seres humanos a participarem da força dessas espessas florações. A Possessão pela alma da natureza é o termo extático desse ímpeto passional. Estamos aí nas raízes do Sagrado. Cabe a Maria se aventurar, com um passo que só ela podia ousar, nessa estrada, participando Por Dentro do cerimonial, fazer irradiar o sentido eterno comumente velado, ainda bem que culmina no amor humano. E foi a soberba veia das obras reunidas em volta de Macumba, hino ao próprio deus do espasmo, onde a carne, abrindo-se como um botão de flor, se ramifica de todas as singularidades de estrutura do metal Nativo. Mas Cobra Grande, a deusa, à qual estão submissas todas as divindades do Amazonas, que tem "a crueldade de um monstro e a doçura de um fruto selvagem", só faz afirmar, através dessas obras, seu domínio, não mais exclusivamente sobre a floresta, mas ainda sobre o ser humano que ela fascina e espanta, impondo por lei suprema ao mundo o fluxo e refluxo do seu ondeamento. Ela é, sem dúvida, em última análise, o Desejo elevado ao poder pânico — e é o desejo mestre do mundo - pela primeira vez na arte conseguindo se liberar — quem prosseguirá infundindo, à maneira de um veneno, sua virtude única, sublimando — confundindo, as obras de inspiração estritamente interior (ao encontro das obras precedentes), tais como o Impossível e O Caminho, A Sombra, Longos Demais, Estreitos Demais, apresentadas em julho último na Exposição Internacional do Surrealismo em Paris. A preocupação de extremo despojamento, que revelam ainda mais as esculturas que Maria expõe atualmente em Nova Iorque, não impede de situá-la nos antípodas de uma arte que - salvo Brancusi, Arp e 60 Giacometti - não parou há trinta anos de se ressecar de intelectualismo. No Acaso Bravio, Sobre a Dúvida, a ausência do anedótico não lhe impôs uma reviravolta. O importante é que a trajetória de Maria a tenha levado do macrocosmo ao microcosmo, em vez de lhe fazer percorrer o caminho no sentido contrário, semeado somente de armadilhas e de enganos. É, nunca se repetirá bastante, o universo que deve ser em primeiro lugar interrogado sobre o homem e não o homem sobre o universo. O que prenuncia os grandes acordos acrobáticos de Maria, a proeza desta total flexibilidade no rígido, não é a "cera perdida", São as Seivas. O que faz, de fato, o instrumento da música, o que faz a magia do concerto, não é a corda do violoncelo mesmo esticada para os sons graves, não é a pele do tambor que, no Sem Fim em Algum Lugar Fora do Espaço, separa e reúne os corpos dos amantes: é uma vibração contínua pela qual o coração mais tocado, a mão mais solta e mais dócil respondem as ondas da terra: Maria. E são também “as membranas verdes do espaço, comovendo-se para fazer ouvir que, por sua vez, a vida é “encantada”, são todos os ventos contrários cedendo por encantamento ao único vento favorável para o futuro; o vento que um grande poeta amigo de Maria cantou: “Ao limiar de um grande país novo sem título nem divisas, ao limiar de um grande país de bronze verde sem dedicatória nem milésimo. Levantando um dedo de carne no embalo do vento, interrogo: Poder! E tu, toma cuidado, que meu pedido não é comum. Pois a exigência em nós foi extrema, e todo uso revogado — como na porta do poeta algum metro antigo, alcaico ou trôpego. Meu rosto ainda está ao vento. Com a avidez de sua chama, com o vermelho de seu vinho! Que se levantem conosco as vergaduras do vento! Que nos seja dado, ó seres vivos, a plenitude do nosso devido…”[2]. ANDRÉ BRETON Paris, 28 de outubro 1947 .


[1] “Só darei por exemplo que Malcolm de Chazal, cujo último livro “Senso plástico”, volume II, chegado em Paris há algumas semanas da Ilha Maurice, onde reside seu autor, continua a fazer sensação. “Não acontece todos os dias encontrar um escritor genial, que ninguém conhece. Eis aqui um” (Jean Paulhan, no “Fígaro Littéraire”, 10 de outubro 1947). Subscrevo sem reserva essa opinião. [todas as notas são do autor]. [2] Saint-John Perse: Ventos, 1947.

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